terça-feira, 15 de maio de 2012

À noite, digo-vos por música

Estou em condições de vos revelar que Merkel e Hollande estiveram em sintonia no final do encontro há muito aguardado em toda a Europa. Ambos regressaram as suas casas a cantarolar esta canção.

The Final Countdown?



Os partidos gregos não chegaram a acordo e a Grécia vai para eleições em Junho. Numa derradeira tentativa de as evitar, o presidente helénico tentou um consenso para a formação de um governo de tecnocratas. Felizmente não conseguiu, pois essa solução seria a machadada final da democracia.
A campanha eleitoral já começou, com o líder da  Aurora Dourada a considerar o Holocausto uma invenção. O mais provável é que dentro de um mês o Syriza seja o partido mais votado, mas continuará a ser impossível a formação de um governo.  Ora  isso é, em minha opinião, uma boa notícia!
O passo seguinte será a saída da Grécia do euro com os consequentes estilhaços ( a alternativa será um golpe militar em Atenas e, consequentemente,a ditadura) que, muito provavelmente, atingirão Portugal. Espanha e Itália? Será  tudo uma questão de tempo até ao colapso da moeda única? 
 Não me parece. Se isso acontecer será o fim pois, como já em tempos aqui escrevi, não há memória  de uma moeda forte ter colapsado, sem que tal provocasse uma guerra.
As coisas ainda se podem inverter se Merkel e Schäuble perceberem, de uma vez, que ou são mais flexíveis ou a Europa entrará num período de convulsões.  Não é possível querer uma Europa solidária, quando a chanceler  alemã diz que os povos do sul têm de sofrer para reparar  os erros cometidos. Por quem senhora Merkel? Pelo povo ou pela canalha que lidera a Europa a partir dos escritórios da Goldman Sachs? 
Mas, mesmo que o pior cenário venha a ocorrer, não sejamos demasiado pessimistas. A renovação da Europa pode fazer-se a partir do caos .Não será é para a minha geração que nasceu dos despojos da guerra, foi próspera na idade adulta, mas vai envelhecer e morrer na miséria.
 Numa explicação aproximadamente edipiana, diria que é a vingança da geração que ela própria pariu e está hoje a dirigir os destinos europeus.  

Abril: da esperança às trevas (4): um encontro inesperado


( continuado daqui)

No momento em que estava debruçada sobre  o Lago , viu um rosto reflectido nas águas. Começou a sentir o corpo a tremer como se estivesse ligado à corrente e deixou escapar um grito abafado pelo medo.
- Não se assuste, minha senhora. Peço desculpa pela minha imprevidência, devia ter anunciado a minha presença, mas esteja descansada porque não lhe quero fazer mal. Só precisava da sua ajuda…-  desculpou-se o homem 

 Cátia Janine, ainda mal refeita do susto, contra atacou:

- O senhor é idiota! Isso não se faz… francamente! O que quer? Comida?
O homem  sorriu, deixando ver um incisivo de ouro
- Não, minha senhora, graças a Deus já almocei ali em Tomar. Depois do almoço vim até aqui  para ler e  repousar  um pouco, mas como estava a dar o relato do Porto- Benfica deixei o rádio ligado e agora, quando me ia embora reparei que tinha ficado sem bateria.  Sou imprevidente, eu sei, mas peço-lhe que me perdoe...
Já recomposta,  Cátia Janine perguntou com aspereza:
- E que quer que eu lhe faça?
-Bem, como a senhora tem ali o seu carro… aquele Austin é seu, não é?... a senhora podia ajudar-me a recarregar a bateria. Eu tenho ali os cabos, é só ligar e em cinco minutos está o assunto resolvido.
-Está bem… eu já me ia embora daqui a nada, se são só cinco minutos não há problema.
O homem ajudou Cátia Janine a arrumar as coisas e transportou-as até ao carro.
Pelo caminho brincou com a situação, numa tentativa de  aliviar o clima tenso que pairava no ar.
- A senhora devia ter-se lembrado da hipótese de ser assaltada antes de vir para aqui sozinha fazer um pic-nic. Se eu fosse mesmo um assaltante …
(Aproximou o rosto de  Cátia Janine que num impulso se afastou)
...desistia logo ao ver  uma mulher tão bonita.
Aquelas palavras  que Catia  Janine sabia serem falsas e sobretudo a tentativa de aproximação não lhe  agradaram:
- Por quem me toma? Por alguma galdéria? Fique sabendo que sou advogada!
-Ah desculpe! Não me apresentei. Júlio Saraiva, um criado às suas ordens…
- Cátia Janine
- Lindo nome! A minha mãe também se chamava Cátia. Já morreu, coitadinha…
Chegados ao carro de Cátia Janine,  Júlio Saraiva arrumou a cesta no porta bagagens e apontou para o carro dele, um Fiat 124, parado a uma escassa centena de metros.
- Então, se não é maçada, senhora doutora, levava o seu carro até ao pé do meu. Como é a descer, nem precisa de o ligar. Eu vou indo a pé, preparo os cabos e em cinco minutos estamos despachados.
Ela meteu-se no carro e ficou uns segundos a observá-lo. Era um homem musculado de estatura bem acima do português médio. Vestia umas calças de veludo  beje e uma camisa desportiva  creme, desabotoada, deixando ver os pelos do peito. Levava no braço um jaquetão de antílope castanho e calçava sapatos de camurça a condizer.
Veste bem, pensou. O que fará na vida? Também não lhe vou perguntar. Se quiser dizer, diga, caso contrário fica como o senhor Júlio. Não deve ser licenciado, senão tinha dito logo e não se punha a tratar-me por senhora doutora. Comerciante? Contrabandista? Tem um ar fino, se calhar é empresário…
Quando chegou ao carro de Júlio, ele já tinha os cabos na mão e, ao avistá-la, acenou-lhe com eles, fazendo o gesto de um forcado a preparar uma pega de caras. Conseguiu arrancar-lhe um sorriso.
A tarefa de recarregar a bateria demorou menos de cinco minutos. Arrumado o  material, com o carro a trabalhar, Júlio estendeu a mão para se despedir mas, ainda a mão ia a meio caminho, perguntou:
- Seria muita ousadia minha convidá-la para lanchar, ou tomar um café?
- Deixe lá isso, não custou nada e até me diverti a vê-lo à volta dos cabos todos emaranhados.
- Não é para  retribuir nada, senhora doutora… é só porque gostava de conversar um bocadinho mais consigo e apagar a má impressão que lhe deixei.
Cátia Janine hesitou dois segundos e anuiu.
Vamos então tomar café a Tomar?
Muito bem. Quer sugerir algum lugar?
Pode ser no Estrelas… Segue-me?
Com toda a certeza, senhora doutora.
Cátia Janine entrou no carro e ligou o rádio. Na Emissora Nacional, Artur Agostinho repetia golo!golo! golo! com aquele jeito característico que o celebrizou. Tinha sido golo do Benfica. O jogo estava a terminar  e o resultado era de 2-2. Com aquele empate o Benfica garantia praticamente o campeonato.  Não percebia nada de futebol,  mas  fixou  um nome que recebia enaltecidos elogios dos comentadores: Bastos Lopes. Era um jovem defesa que fazia a estreia em pleno estádio das Antas e se estava a sair muito bem. Viria a ser um reputado internacional, indispensável na selecção das Quinas que era o nosso orgulho, principalmente desde que um tal Eusébio da Silva Ferreira encantara o mundo no Mundial de 66 e projectara o nome de Portugal além fronteiras.
Terminado o jogo, Cátia Janine imaginou o pai em casa, eufórico, com o empate que mantinha o SL Benfica invencível. A poucas jornadas do final do campeonato.
Olhou pelo retrovisor para ver se Júlio deixava extravasar sinais de alegria. Viu-o bater repetidas vezes com a mão fechada no volante em sinal de vitória.  Mas, de repente, algo lhe ocorreu que a deixou preocupada e temerosa. O carro de Júlio estava numa descida, facilmente ele o teria conseguido ligar se descesse em ponto morto e depois o engatasse na segunda velocidade. Então, porque é que  a tinha procurado a pedir ajuda?
(Continua)
Pode ler os capítulos anteriores aqui

Trava línguas


Terá sido coincidência, certamente, mas quando o governo decretou que os ex-bancários podem acumular reformas com  salários no desempenho de funções públicas, Cavaco começou a fazer declarações de confiança na política do governo.

Diz o roto ao nu...

Vejo as declarações de Relvas na AR e rio-me. Depois lembro-me de uma notícia que li no "Expresso" deste fim de semana
" Passos Coelho avisa: quem mentir, sai!"
Penso em enviar-lhe um espelho de presente, na esperança de que ele compreenda que deve ser o primeiro a sair. Desisto. Essas piadas só funcionam com gente inteligente e honesta...

Respect!



Há dias comentava com um ex-jornalista da RTP um episódio ocorrido logo após as eleições gregas, que teve pouco eco na nossa comunicação social.
Depois de serem conhecidos os resultados, o líder da extrema-direita, inchado com a conquista de 21 lugares no Parlamento, convocou uma conferência de imprensa. Assim que entrou na sala, disse aos jornalistas para se levantarem em sinal de respeito. Todos obedeceram, excepto um. 
A sua ousadia mereceu-lhe ser escorraçado da sala pelos gorilas do líder dos nazis gregos.
Dizia-me o ex jornalista da RTP que há uns anos este episódio não seria possível acontecer num país democrático. Senti-me obrigado a desmenti-lo. É possível, sim, e há muitos anos, na Madeira, onde jornalistas como Tolentino da Nóbrega  e Lília  Bernardes são ameaçados de morte num jornal controlado pelo governo com o alto patrocínio da Igreja Católica.
Tudo isto se passa num território português que o nosso PR aponta como exemplo de democracia.
Não tenham dúvidas, a mentalidade  fascista está há muito instalada entre nós e eles nem precisam de mostrar a verdadeira face, porque ganham as eleições democraticamente, envergando símbolos de um partido social democrata.
É sempre bom lembrar o aviso de Thomas Mann em Los Angeles:
"Se o fascismo regressasse, viria sob o nome da liberdade"