quinta-feira, 3 de maio de 2012

Altas velocidades


Naquele tempo, o Renault Alpine era sempre favorito à vitória no Rally de Portugal, que decorria essencialmente no Norte, mas tinham umas classificativas muito apreciadas na zona de Sintra.  Eram famosas as etapas nocturnas, que faziam deslocar hordas de curiosos, que passavam a noite sem dormir para ver as "bombas ( só viam os faróis, mas enfim...) e as habilidades  dos condutores.
Para acompanhar o rally, a maioria dos condutores abastecia os automóveis nas bombas de gasolina da SACOR.  A gasolina normal custava 6$80 escudos e a Super 7$50.
A Cátia Janine foi uma vez e jurou que nunca mais.

Só eu sei porque nunca lá entrei...




Quando iniciei  o CR, escrevi no meu perfil "Nunca entrei no IKEA".
Alguns leitores manifestaram alguma estranheza por eu ter feito essa declaração, que lhes pareceu descabida. Natural, porque a maioria não sabia que eu já  vivi na Suécia no final dos anos 70 e, nessa altura, esta notícia corria de boca em boca. Só que ninguém conseguia prová-la. Agora já está...

Expropriação, diz ele!


Adriano Moreira disse ontem que o corte dos subsídios de férias e de Natal aos funcionários públicos e reformados é uma expropriação e viola a Constituição. Vindo de quem vem, até poderia espantar, mas o que me espanta é o prolongado silêncio do Tribunal Constitucional sobre esta matéria que está a lesar milhares de portugueses, especialmente os reformados a quem está a ser roubado o dinheiro que descontaram ao longo de uma vida inteira de trabalho.
O som é mau, mas pode ouvir aqui a argumentação de Adriano Moreira

Abril, da esperança às trevas (1) - Um dia de domingo


Naquele domingo , primeiro dia de Abril de 1973, Cátia Janine decidira ir até à sua terra natal, nos arredores de Tomar, para espairecer um pouco.
 A crise petrolífera provocava extensas filas de automóveis junto das gasolineiras, por isso levantou-se  ainda os primeiros raios de sol dardejavam a janela do seu quarto. Tomou um pequeno almoço reforçado  e saiu de casa disposta a ficar umas  três ou quatro horas na gasolineira à espera de vez.  Como grande parte dos portugueses, levava também um jerry can de 5 litros. Caso alguma eventualidade a apanhasse desprevenida, sem gasolina, aquela reserva permitir-lhe-ia chegar, sem dificuldade, à gasolineira mais próxima. Pelo caminho parou no café para tomar uma bica e comprar algumas revistas que a ajudassem a passar o tempo.

Comprou a “Crónica Feminina” e a "Plateia” deteve-se, hesitante, entre “O Século Ilustrado” que trazia  na capa uma fotografia do Raly de Portugal, com Jean Luc Therier a celebrar a vitória e a “Flama” que destacava o embarque, na Rocha de Conde de Óbidos, de mais um contingente militar rumo a Angola. Escolheu a “Flama”, por razões que adiante perceberão.

Cátia Janine não gastava dinheiro em jornais. Limitava-se a folhear o “Diário de Lisboa”, antes de se deitar, porque  era o vespertino que o pai comprava diariamente a um ardina, quando regressava a casa, depois do trabalho.  De vez em quando, ao domingo, também lia o “Expresso” , um semanário com edição ao sábado, que surgira nas bancas no início do ano e que o pai dizia ser uma lufada de ar fresco na imprensa portuguesa.
Nesse domingo não leu, caso contrário teria ficado a saber que a DGS ( nome com que Marcelo Caetano rebaptizou a PIDE) tinha prendido num café de Felgueiras o Padre Mário( da Lixa) cujas homilias não agradavam ao regime. Quando a edição de 31 de Março saiu à rua, já o Padre estava detido na prisão de Caxias. Bem perto de casa do seu tio António, major do Exército que, na opinião de Cátia Janine, andava com um comportamento estranho nos últimos tempos.
Do que não  teria ficado a saber, porque a Censura cortou a notícia, é que nessa mesma semana, no final de um colóquio no Centro Nacional de Cultura, sobre as eleições francesas, foi preso Mário Sotto Mayor Cardia. Seguido pelos participantes , o filósofo que haveria de ser ministro da educação, após o 25 de Abril, acabaria por ser libertado, juntando-se aos que o tinham acompanhado até ao governo civil.

Quando chegou à bomba de gasolina, na rotunda do Aeroporto- uma das poucas onde os combustíveis   não esgotavam ao fim de semana-  o movimento era mais reduzido do que imaginara mas, pelos seus cálculos, teria espera para duas horitas. Pelo menos…
Foto Expresso
Cátia Janine gostava de estar a par das novidades musicais e cinéfilas por isso, enquanto esperava, folheou avidamente a  Plateia  que trazia um extenso artigo sobre o filme de Truffaut “ Uma Noite Americana”, com crítica de Lauro António, e fazia referência ao “Exorcista” que ainda não  estreara em Portugal, mas era anunciado como filme de “pôr os cabelos em pé”. Leu na diagonal  uma entrevista com Fernando Tordo que nesse ano vencera o Festival da Canção com a "Tourada" mas, onde se deteve com mais atenção, foi na observação das fotografias de Mark Spitz, o nadador que conquistara sete medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de Munique em 1972, cuja  estampa atlética fazia suspirar o sexo feminino.
Passou os olhos pela Flama que fazia uma breve referência à adesão da Dinamarca, Inglaterra e Irlanda à CEE, no início do ano ( os primeiros países a aderirem depois da criação em 1958) e dava grande destaque a uma reunião qualquer da EFTA, organização a que Portugal aderira, por impossibilidade de ser aceite no seio da Comunidade Económica Europeia.
Ainda na  “Flama”, um grande destaque para a intervenção do deputado Casal Ribeiro, na Assembleia Nacional, pedindo a pena de morte para os terroristas e, ao lado, uma página inteira de propaganda turística convidava para “Moçambique –Praias de Sonho”. Sobre o massacre de  400 civis  em Wiryamu ( Moçambique) e a condenação da política portuguesa em África, pela ONU, é que nem a Flama, nem qualquer  revista ou jornal escrevia uma linha, porque o lápis azul da Censura o impedia.  
Havia ainda  uma notícia– que certamente escapara aos censores- sobre  o Congresso da Oposição Democrática que teria lugar em Aveiro, na semana seguinte.
Deste Congresso, realizado durante a primavera marcelista, na fase de extertor do Estado Novo, Cátia Janine tivera notícia pelo pai, militante do MDP/CDE, mas não dera grande importância ao assunto.
Deteve-se, com atenção, na reportagem sobre o embarque de tropas para África, acompanhada de fotos tiradas em Moçambique.  Numa das legendas leu: soldados em Tete ultimam os preparativos  para partir em coluna militar numa ofensiva para combater os terroristas inimigos da Pátria. Procurou avidamente um rosto familiar. Não sabia que o corpo a que pertencia  esse rosto estava, naquele momento, numa cama de hospital em Lourenço Marques.
( Continua)