quarta-feira, 2 de maio de 2012

Frederico

A doce cena alexandrina, polvilhada com o pau de canela do povoléu, já deu pretexto a textos com boas pitadas de humor, jindungo de indignação, ou  doces conventuais sabendo a bajulice- estes escritos por quem partilha  cama mesa e roupa lavada  com o orçamento de estado, publica livros patrocinados pelo Pingo Doce e dá uma mãozinha a gabinetes ministeriais..
Seria, pois, do mais elementar bom senso, não voltar ao assunto. Mas não resisti e fui recuperar duas crónicas que escrevi em tempos para a revista "o Consumidor".
Nelas descrevo as aventuras de Frederico, um recém divorciado que nunca entrara num hipermercado e não fazia a mínima ideia do que o esperava. 
Como as crónicas são longas, publico apenas uma, e em episódios. Podem ler aqui

E depois de Abril?


Peço desculpa aos leitores mas, por motivos de força maior, fui obrigado a adiar para amanhã o  início da publicação da história de Cátia Janine.
Aproveito, por isso, para explicar que a ideia surgiu na sequência do Rochedo das Memórias, rubrica em que fiz uma viagem ao longo de todo o século XX e que podem consultar  se clicarem na imagem da coluna da direita do blog, ou seguirem este link.
Penso que é muito visível a falta de memória sobre a vida em Portugal antes e depois do 25 de Abril e que há uma tendência a menosprezar  ( principalmente os mais jovens e a actual geração no poder) as conquistas de Abril.
Não é razão para espanto... há muitos jovens que não imaginam sequer como era o mundo sem televisão a cores, com um só canal, sem telemóveis, computadores ou auto-estradas. Ter como grande entretenimentode fim de semana uma ida ao cinema ao sábado à noite, é algo que os faz abrir a boca de espanto e, quanto a isso de Liberdade, vêem a Censura e a PIDE quase como lendas. 
Pareceu-me, por isso, oportuno  iniciar uma nova série do RM,com início no dia 1 de Abril de 1973, contada através da vivência de Cátia Janine e outros protagonistas – todos reais- que irão surgindo ao longo das quatro décadas.
Ao contrário do que acontece no RM, em “Abril: da esperança às trevas” centrar-me-ei  na  narrativa  não analisando separadamente ( deixo essa tarefa para os leitores)  fenómenos como a  evolução da moda, da arte, da cultura ou do lazer. 
Paralelamente , todos os dias  recordarei aqui objectos, produtos  ou serviços, recuperando a rubrica “Rochedo das Memórias em Imagens”.
Como não poderia deixar de ser, esta história foi fruto de muita pesquisa, quase toda efectuada  quando publiquei  os diversos artigos sobre a História do século XX,  a que acrescentei, posteriormente,  a primeira década deste século. Agora estou a coser- ou a cerzir- tudo e a  construir a história...
É muito provável que algumas coisas tenham falhado, pelo que vos proponho, desde já, que à medida que for publicando a história, acrescentem factos ou adicionem episódios que contribuam para melhorar este conjunto de memórias.
Espero que vos agrade a ideia e, obviamente, a história…

Fado do Ladrão Enamorado*





Parte 1- Os subsídios
Em Outubro, Vítor Gaspar anunciava o corte dos subsídios de férias e de Natal por um período de dois anos; em  meados de Abril , Coelho disse que afinal só em 2015 reformados e funcionários públicos veriam a cor do dinheiro mas, no último dia do mês – talvez para celebrar antecipadamente o Dia do Trabalhador- Gaspar veio admitir que talvez lá para 2018 o governo deixasse de roubar quem descontou durante uma vida inteira para a sua reforma.
Aguardo com curiosidade e expectativa a sentença que o Tribunal Constitucional aplicará aos burlões, mas não me custa a acreditar que se pronuncie pela absolvição. 

Parte 2- O desemprego
Em Novembro, o Álvaro  anunciava que a taxa de desemprego começaria a baixar no segundo semestre de 2012;em Janeiro, Passos de Coelho dizia que só em 2013 seria possível baixar o nível de desemprego e ontem , sem qualquer pudor, avisou sobre a elevada taxa de desemprego: Habituem-se!
Hoje o Relvas declarou que o governo perde o sono por causa do desemprego e que só lá para 2014 será possível esperar uma redução do número de desempregados.

EPÍLOGO 


Vejo o barítono Coelho, descontraído e feliz,  a cantar na Ovibeja, mas não há som, só lábios a mexer. Tento decifrar.
Nos primeiros acordes PPC ( olha, agora, assim de repente, traduzi esta sigla e percebi que não significa Pedro Passos Coelho, mas sim uma expressão que não posso reproduzir…) pareceu-me estar a cantar o “Bailinho da Madeira” , numa alusão aos subsídios gamados,  mas no final era óbvio que estava a fazer uma adaptação do “Sobe sobe, balão sobe” , brincando com os números do desemprego.
Não pensem que PPC canta, porque "quem canta seus males espanta". Não, ele canta porque está mesmo feliz com o rumo que traçou para Portugal, onde só há desemprego porque somos todos uns malandrões que preferimos viver à custa dos subsídios.

* Fonte bem informada disse ao CR que  quando PPC  passa a noite em Massamá , Laura não dispensa que o marido lhe cante o Fado do Ladrão Enamorado, enquanto ela vasculha, afanosamente, qualquer orifício onde PPC  tenha metido a tão apregoada ética, que esgrimiu em campanha eleitoral.

O doce nunca amargou?


Fotos: Publico

Ontem, ao regressar a Lisboa, não fiquei surpreendido ao ver o Pingo Doce ao pé de minha casa aberto. Estranhei foi o movimento inusitado em Dia do Trabalhador.
Já no elevador, uma vizinha indignada  explicou –me a razão de tanto frenesim consumista: o Pingo Doce escolhera o 1º de Maio para fazer uma campanha de descontos de 50%!  Contou-me, também, que muitos trabalhadores foram forçados a ir trabalhar, sendo ameaçados de represálias em caso de recusa.
Não fiquei surpreendido com a actuação do benemérito Soares dos Santos. Estou habituado às manobras de muitos patrões que tentam disfarçar a escroqueria do seu comportamento em relação aos trabalhadores, com acções de benemerência e caridadezinha muito propagandeada pela comunicação social.
Tampouco me surpreendeu a resposta dos consumidores portugueses, aderindo em massa – e com grande entusiasmo, como constatei ao final do dia pelas televisões - à  oferta de Soares dos Santos, um dos deuses do consumo em quem depositam toda a sua Fé consumista.
Um homem exibia, orgulhoso, um talão de 385€, anunciando diante das câmaras que pagara pouco mais de 200.
Uma mulher com a felicidade estampada no rosto e um dos dois carrinhos a abarrotar de papel higiénico – provavelmente estaria a precaver-se da eventualidade de uma diarreia  familiar provocada pela ingestão de alguns produtos deteriorados- berrava eufórica:
“ Isto hoje é uma festa! Lá dentro não há carrinhos e já quase houve porrada! Estive duas horas na fila da caixa, mas valeu a pena. Estou à espera do meu marido que traz mais dois carrinhos cheios, mas deve estar atascado no meio da confusão.”.
“Não acha estranho que as grandes superfícies estejam abertas no Dia do Trabalhador?”- perguntou timidamente a jornalista.
“Qual é o problema, filha? Mais vale estarem aqui a trabalhar do que andarem aos gritos na rua a protestar contra o governo. Festejam o Dia do Trabalhador logo à noite, que ainda é dia!”.


Insultei a mãezinha da mulher que não tem certamente culpa de ter uma filha néscia  mas, ciente que ela não me ouvia, fiz rewind. Lembrei-me de outros 1º de Maio em que era difícil encontrar um estabelecimento ou um restaurante aberto, porque os trabalhadores não abdicavam de sair à rua para defender os seus direitos e os patrões respeitavam essa opção. Como tudo mudou em tão pouco tempo! Agora os tugas andam à pancada para comprar iogurtes em final de prazo de validade a metade do preço!
Dirão muitos que é normal as pessoas aproveitarem a oportunidade de descontos tão elevados, para fazerem compras e até açambarcamento de produtos. Dirão outros que a culpa de as coisas estarem assim e o 1º de Maio se ter transformado numa festa de consumo é deste governo.
Discordo em absoluto. O que falta aos consumidores é consciência cívica e a culpa da situação a que chegámos é, também em grande parte, da falta de consciência cívica e do egoísmo doentio dos  portugueses, não só do governo. 
Se fossem um povo esclarecido,  perceberiam que este dia especial de descontos promovido pelo Pingo Doce, no Dia do Trabalhador, é um presente envenenado. A febre consumista – a fazer lembrar os tempos de vacas gordas- que se apoderou ontem de milhares de portugueses, por todo o país,  vai ter um preço. Será pago com perdas de regalias e direitos, aumento do desemprego e redução de salários. 
É certo que os consumidores portugueses também não têm uma associação de consumidores que lhes explique a importância da vertente  cidadã do consumo e os convide a boicotar este tipo de iniciativas. Pelo contrário, a maior associação de consumidores portugueses sempre defendeu a abertura das grandes superfícies ao domingo, usa técnicas de publicidade escabrosas para publicitar os seus produtos e  comporta-se, actualmente, como uma agência funerária, reciclada como prestadora de assistência a milhares de portugueses falidos. 
Diariamente, dezenas de pessoas  incapazes de cumprir o pagamento das dívidas assumidas perante os bancos, durante as duas décadas em que a Festa do Consumo assentou arraiais nas catedrais consumistas que pululam em cada bairro das grandes cidades e nos arredores das de média dimensão, recorrem à DECO pedindo ajuda. Na maioria dos casos não há solução, porque as pessoas  foram contraindo novos créditos para pagar aqueles que já não conseguiam cumprir e chegaram a uma posição insustentável.  
Fizeram ouvidos de mercador aos avisos que entidades como o extinto Instituto do Consumidor foi fazendo ao longo dos anos e agora acusam o governo, sem assumirem as suas próprias culpas e responsabilidades.
Ontem, depois de ver o espectáculo mediático montado em redor da operação de marketing do Pingo Doce, perdi a vontade de gritar na rua em defesa dos direitos dos trabalhadores. A minha vontade, agora, é pedir  um povo novo para Portugal. Este está corroído pelo vírus consumista e, quando lá para 2015, o governo anunciar que irá restituir 25 ou 30 por cento dos subsídios de férias que lhe roubou, acorrerá às urnas e, muito agradecido, votará pela continuidade deste governo por mais quatro anos.
Não é de espantar que isso suceda. A maioria dos nossos governantes saiu do seio deste povo mesquinho e egoísta, com sede de protagonismo, seja nos Morangos com Açúcar, nos concursos musicais  ou Big Brothers onde se fabricam vedetas à pressa, para serem consumidas no palco mediático como “fast food” cultural. Os portugueses revêem-se neles mais do que pode parecer. São as vedetas da política e - como dizia uma alentejana na Ovibeja referindo-se a Assunção Cristas- "a mocinha até é muito gira. Ele (Passos Coelho) também é muito giro, só foi pena ter-nos tirado os subsídios, mas a gente lá se aguenta".
Então aguentem e continuem a pensar que o doce-  seja servido à colher, à fatia, ou em Pingos de desconto- nunca amargou. Mas depois não se venham queixar que os filhos não têm emprego e que vivemos pior do que há 40 anos, tá?