sexta-feira, 27 de abril de 2012

Momento Kodak... para mais tarde recordar!

No dia 24 de Abril de 1974, a Assembleia Nacional aclamava este palhaço:

Hoje em dia, a Assembleia Nacional, rebaptizada Assembleia da República, tem muito mais cor...
...mas continuam a sentar-se nas bancadas muitos palhaços. ( amplie a foto para ver melhor)

Meus caros amigos
Fui arejar! Não consigo suportar o cheiro a celulose que este país exala.
No entanto, como não quero que vos falte nada, nos próximos dias continuarei a contar-vos algumas estórias aqui
E, claro, se o pré agendamento não falhar, durante o fds aqui estarão as rubricas habituais e um destaque especial para o Dia da Sogra que amanhã se assinala.

O Cerco: as nossas vidas davam um filme?


Este não é um post sobre cinema… apenas se alude a um filme para, a partir dele, escrever sobre as nossas vidas num país em crise...




A maioria dos leitores do CR porventura não se lembrará de um filme de António Cunha Telles, de 1970, que foi um sucesso de bilheteira e uma referência incontornável no cinema português.
Chamava-se  o“ O Cerco” e tinha como protagonistas principais Maria Cabral ( uma lindíssima morena a quem não voltei a pôr a vista em cima)  e Ruy de Carvalho.
 Em muito breves palavras, só para enquadrar os leitores na temática do post:  o filme gira à volta de uma jovem da alta burguesia  que seguiu o rumo normal das jovens naquela época: programada  para ser boa mãe, boa esposa e dona de casa, casou-se com um tipo rico. Ao fim de algum tempo, porém, fartou-se, abandonou o marido e foi viver a vida por sua conta e risco.
As coisas não correm bem  - correm mesmo muito mal- Maria começa a sentir dificuldades financeiras  e refugia-se no colo de um tipo com um passado duvidoso. Falinhas mansas, manipulador de corações  com licenciatura obtida em curso nocturno  na universidade do engate, o marmanjo salvador, profissional do contrabando, vai  manipulando aquele corpo a pedir mão de mexer e fazendo render o peixe, mas não dá a Maria aquilo com que se compram os melões. Um dia o tipo aparece morto, Maria é suspeita e vê-se  desorientada e perdida  numa Lisboa hostil . Percebe, então que a sus sede de emancipação  fica cerceada pelo Cerco que Lisboa lhe montou.

Pronto… Já lá vão 1500 caracteres e só agora vou começar!  Se não tiverem paciência para ler até ao fim, voltem amanhã para ler o resto.
Lembrei-me do filme quando li uma notícia no “Expresso” sobre a mobilidade dos portugueses. Andamos menos de transportes públicos, o tráfego nos centros urbanos reduziu-se quase 25%, as auto-estradas estão às moscas, os passeios de fim de semana e as “escapadinhas de 3 dias” sofreram um corte abrupto, os  restaurantes servem menos jantares, os locais de diversão nocturna servem menos copos, a República Dominicana ( e até o Allgarve) ficou mais longe.
Não deixa de ser estranho que na década da mobilidade, os portugueses se vejam cada vez mais encurralados no seu reduto. Na sua cidade, no seu bairro, na sua casa, sentados no sofá a ver televisão. 
Tudo se passou muito rapidamente. Há meia dúzia de anos tínhamos a sensação de que éramos ricos, porque bastava chegar ao banco,  pedir dinheiro e um minuto depois saíamos de lá com o necessário para comprar um carro, casa, ou viajar. 
Fizeram-nos acreditar que aquele dinheiro era emprestado – e um dia pagaríamos a dívida- mas o que descobrimos hoje é que era vendido e não temos dinheiro para  pagar.
Tal como a Maria do filme, quisemo-nos emancipar,  mas acabámos cercados e obrigados a entregar o nosso futuro nas mãos de agiotas que nos seduziram com o crédito barato. Na impossibilidade de matar o contrabandista, fomo-nos refugiando no nosso reduto, até ficarmos restringidos à nossa casa ou, ainda mais grave, a um quarto na casa dos pais, onde fomos obrigados a regressar.  Perdemos os voos e viagens  low cost, e vemos cerceada a mobilidade, factor determinante na evolução de uma sociedade dinâmica.
Pois… Há meia dúzia de anos o nosso futuro era risonho, mas depois veio um coelhinho e comeu-o! Agora estamos cercados e, como a Maria, sem saber o caminho que nos devolva a Liberdade!

Charles Dickens em S.Bento



Quando assisto aos debates de sexta feira na AR, tenho a sensação de estar a ver uma representação de Pickwick Papers, mas sem o brilho de Charles Dickens.
Em vez de provocar sorrisos,  Pedro Passos Coelho cria repulsa. Um quase nojo, pela faceta de mentiroso compulsivo que assume por inteiro. Cinco minutos depois de ter dito a Seguro que os subsídios de férias e Natal seriam repostos de forma intensiva a partir de 2015, diz em resposta a uma pergunta de Louçã que não se pode comprometer com datas para restituir o produto do roubo que fez aos funcionários públicos e pensionistas.
Enredado na sua teia de mentiras – que por vezes acredita mesmo serem verdades- e da sua incompetência para o cargo, PPC dá a sensação de já estar corroído pela doença que o impede de dizer a verdade.
Já que não é capaz de falar verdade, faça um favor ao país e a si próprio, senhor primeiro-ministro. Demita-se e vá tentar curar-se. Porque a sua doença, além de ser grave, está a destruir a vida de milhares de portugueses. Vá descansar, antes de cometer o crime hediondo de condenar milhares de portugueses à morte, fruto da sua incompetência e debilidade moral, intelectual e sanitária.

Vozes de Abril (18)






Balada dos Aflitos

Irmãos humanos tão desamparados
a luz que nos guiava já não guia
somos pessoas - dizeis - e não mercados
este por certo não é tempo de poesia
gostaria de vos dar outros recados
com pão e vinho e menos mais valia.


Irmãos meus que passais um mau bocado
e não tendes sequer a fantasia
de sonhar outro tempo e outro lado
como António digo adeus a Alexandria
desconcerto do mundo tão mudado
tão diferente daquilo que se queria.


Talvez Deus esteja a ser crucificado
neste reino onde tudo se avalia
irmãos meus sem valor acrescentado
rogai por nós Senhora da Agonia
irmãos meus a quem tudo é recusado
talvez o poema traga um novo dia.

Rogai por nós Senhora dos Aflitos
em cada dia em terra naufragados
mão invisível nos tem aqui proscritos
em nós mesmos perdidos e cercados
venham por nós os versos nunca escritos
irmãos humanos que não sois mercados.
( Manuel Alegre)