terça-feira, 24 de abril de 2012

Obrigado por tudo, Miguel




Foto: Publico

Não éramos propriamente amigos, mas conhecíamo-nos há 30 anos e partilhámos muitos momentos juntos, entre discussões acaloradas  - mas civilizadas-  e francas gargalhadas. Apreciava-lhe o trato, sempre cordial, mesmo quando discordava. Era um senhor da política, fiel aos seus princípios.
Estive com ele a última vez,  na Praia das Maçãs, em véspera de eleições. Vou ter  saudades, Miguel. E uma raiva enorme por teres partido tão cedo!





Os fora da lei




A acreditar no que fui lendo hoje, na imprensa on line,  a figurinha que vêem aí acima foi nomeado para desempenhar, na próxima quinta-feira, o papel de  porta voz do governo junto dos sindicatos. Leva como missão convencer os sindicatos da administração pública a aceitarem uma proposta de terrorismo laboral que, abreviadamente, designarei como  assédio moral ou bullying.
De acordo com o que li  - fica o link para que os leitores façam o seu juízo- o governo pretende livrar-se de uns milhares de funcionários públicos,  as únicas gorduras de Estado que considera susceptíveis de emagrecimento. 
A figura retórica que escolheu para emoldurar o despedimento foi a “rescisão amigável”. No entanto, sendo este governo constituído por indivíduos fora da lei, foi sem surpresa que constatei ser a “rescisão amigável” um despedimento encapotado e as práticas utilizadas para o  concretizar, enquadráveis nos parâmetros do assédio moral, prática punida por lei quando praticada pelas empresas, mas  praticada com displicência pelo governo “por imperativos de interesse nacional” ( Uma nova fórmula dos famigerados PIN criados pelo governo Sócrates, mas com influência desastrosa na vida das pessoas).
De acordo com as regras que o governo pretende impor aos funcionários públicos, o esquema a seguir é este:
1- Os funcionários públicos têm direito a receber 20 dias por cada ano de trabalho ( o que está de acordo com a lei em vigor desde Novembro), mas o Estado paga um máximo de 12 salários a cada funcionário que aceite a rescisão amigável. 
O que equivale a dizer, por exemplo, que um funcionário com 40 anos de serviço, que no sector privado teria direito a uma indemnização equivalente a 27 salários, na função pública terá apenas direito a receber 12! 
Não era este governo que dizia pretender equiparar as condições dos trabalhadores do sector privado com os funcionários públicos? 

2- E se um funcionário público, percebendo que está a ser vítima de extorsão por parte do Estado, recusar a rescisão alegando não negociar com vigaristas, o que pode o Estado fazer? Simples. Passa ao plano B ( de bullying) onde  pode recorrer a três hipóteses:
- Enviar o funcionário para outra zona do país
- Colocá-lo na mobilidade especial e, depois, forçar a rescisão
- Dar instruções ao dirigente para lhe dar  nota negativa na avaliação de desempenho , levantar-lhe um processo disciplinar e despedi-lo sem ter de pagar qualquer indemnização.

Confesso que deve ser mais fácil negociar com um criminoso na Feira do Relógio, do que com este governo, tal é o manancial de expedientes que utiliza para torpedear a lei sem ser condenado.
Concluindo: o que este governo se prepara para fazer com os funcionários públicos que lhe atrapalham o orçamento  é uma prática infame de bullying a que eufemisticamente chama rescisão amigável.
Mas, como o assédio moral e o bullying empresarial serão o tema do meu post do 1º de Maio, por agora fico-me por aqui.

Bombokas



Jerónimo de Sousa , inflamado e peremptório, declarou que a UGT e o PS são uns bombokas, por se deixarem  iludir com as promessas do governo.
Não posso deixar de concordar com Jerónimo de Sousa – por quem, aliás, nutro grande simpatia-  mas gostaria de lhe fazer um aviso:  Compre um espelho!
Se o fizer, verá lá reflectida a sua culpa, camarada! Foi o senhor que viabilizou a queda do governo PS, aliando-se aos partidos que formam este  governo.
Quem tem telhados de vidro, é melhor não atirar pedras, sob pena de lhe caírem em cima os estilhaços.

A avalanche



O FMI  prevê que Portugal sofrerá, até 2016, uma avalancha de investimento estrangeiro. O governo já tinha dito o mesmo, mas aos nossos governantes sempre dou um desconto por confundirem a venda ao desbarato do nosso património com investimento. São néscios e aldrabões, não nos devemos admirar que misturem a realidade com a fantasia. 
Agora, quando vejo  o FMI  dizer o mesmo, então já fico com “a pulga atrás da orelha”. Vai daí, dei 1,10€ pelo JN para ler a notícia - que tinha chamada de capa.
Na página 48 confirmei as minhas suspeitas. O FMI diz, na verdade, o mesmo que os nossos governantes mas  acrescenta ( pormenor importante que o nosso governo escamoteia…)  “os ganhos da economia serão quase nulos!”.
Ou seja,  quando  este governo der à sola depois de vender todas as nossas empresas lucrativas a capital estrangeiro, terá cumprido a sua promessa eleitoral de deixar o país mais pobre e sem quaisquer hipóteses de recuperação porque,  como também diz o FMI “ (do investimento estrangeiro) pouco ficará em termos líquidos na economia, já que os investidores vão extrair rendas e lucros, repatriando os ganhos para os seus países de origem”. Ainda de acordo com o FMI, a partir de 2017 haverá “ um agravamento das necessidades de financiamento”. Como iremos pagá-lo, é que o FMI nada diz.
Resumindo: este governo delapida o país em quatro anos, os seus membros  ganharão o reconhecimento dos investidores e, muito provavelmente, serão contemplados  com cargos nas empresas que venderam ao desbarato, ou em algumas das suas subsidiárias, para não dar tanto nas vistas.  Os portugueses ficarão soterrados nos escombros desta avalanche de investimento, à espera que as brigadas de socorro venham em sua salvação. 
Sabendo o que nos reserva o futuro, Cavaco faz agora coro com o governo, dizendo que vamos sair da crise mais rapidamente do que era esperado. Estamos entregues aos bichos!

Vozes de Abril (16)