terça-feira, 27 de março de 2012

Memórias do Estado Novo

No meu tempo, a esta espátula que servia para rapar o fundo dos tachos, ou para alisar coberturas de bolos, chamava-se Salazar. Hoje em dia, a geração sub-30 chama-lhe Gaspar. Duas marcas, mas a mesma função.

Pas de nouvelles, bonnes nouvelles?





Regresso a Lisboa ao final da manhã. Ao apear-me na gare do Oriente estranho a brisa que me fustiga o rosto e obriga a vestir um agasalho,  dispensável nos últimos dias de deambulações pelo Norte. Ainda ontem, ao final da tarde, enquanto me dessedentava com um ginger-ale na esplanada do Vianna em Braga, um pull over sem mangas  sobre a camisa aberta era agasalho suficiente. As alterações climáticas estarão a tornar o Norte mais quente do que o Sul, ou será apenas a proximidade do mar que atiça a brisa desagradável?
Apanho o metro para casa e, durante a viagem com transbordo no Saldanha, sinto a falta de notícias. Durante estes dias não li jornais e  apenas por duas vezes liguei o televisor para ver noticiários. Durante pouco tempo pois, quer no domingo quer na segunda-feira, os noticiários estavam tão preenchidos com notícias sobre oconclave  do PSD, que rapidamente me senti convidado a desligar o televisor.
Chegado a casa, vou à Internet. Começo por ler os vossos comentários no CR e no “On the rocks” desde domingo. Sinto-me visivelmente feliz pela vossa presença, pelo  reencontro com  a família virtual que diariamente me acompanha neste espaço e pelas palavras de incentivo para a minha nova aventura blogueira que espero iniciar amanhã.
Passo à leitura da imprensa on line. Começo pelas crónicas em atraso do Ferreira Fernandes e do Manuel António Pina e só depois passo às notícias. 
Algumas despertam a minha atenção e motivam-me a escrever alguns posts. Desde o Cavaco que quer saber tudo sobre a agressão aos foto-jornalistas durante a manif do dia 22 , à repetição de uma votação no congresso do PSD, cujo resultado não agradara a Pedro Passos Coelho, passando pelo golpe chavista de Seguro, que pretende alterar a duração do mandato de secretário geral do PS,  pelos pais indignados que pretendem boicotar os trabalhos de casa dos seus rebentos, ou pela divulgação de dados pessoais de árbitros de futebol na Internet, não falta matéria para uma análise mais ou menos aprofundada, mas reajo com um leve sorriso de indiferença. Logo verei se volto a estes temas...
Reacção diferente tenho ao ler a  morte de um jovem em Lloret del Mar. De imediato recordo este  post que escrevi em Março de 2007 e abandono a leitura dos jornais.
O mundo seria diferente se não tivéssemos jornais, nem televisões, prontas a servir-nos a qualquer hora e em doses  temperadas de exagero e sensacionalismo, as últimas notícias do mundo. Talvez vivêssemos mais tranquilos mas, seguramente, estaríamos mais alheados da realidade que nos cerca. E se o distanciamento da realidade  não me parece nada bom, reconheço que estes dias sem notícias me permitiram desfrutar melhor o lazer que procurei em terras do Norte.   
De qualquer modo, a minha prioridade por agora vai para visitar os vosso blogs de que já sentia saudades.
Até já…

Super Stars de palmo e meio



Nunca embarquei na ideia  de que os jovens de hoje são mais generosos e solidários do que os da minha geração. Trabalho frequentemente com jovens, conheço muitos solidários, como no meu tempo, mas a esmagadora maioria é individualista, egoísta e programada para ser competitiva. 
A competitividade ( quando é que o Álvaro deixará de dizer competividade?) não é inimiga da solidariedade, mas as duas raramente  casam bem. A culpa – se é que ser competitivo é pecado- até nem é dos jovens. É da sociedade que os moldou e da educação que receberam. Em minha opinião, são os pais os grandes responsáveis, por razões que já aqui desenvolvi e não vou agora repetir. 
Lembrei-me desta lenga-lenga, quando há dias vi um programa sobre  promessas do desporto tuga. Impressionou-me ver crianças  entre os 10 e 16 anos que passam seis ,oito, ou dez horas diárias a treinar, com o objectivo-  comum a todas elas - de virem a ser os melhores do mundo, ganharem medalhas, no fundo…  serem famosos e reconhecidos através do sucesso  individual - já que todas as modalidades a que se dedicam são individuais.
À memória vieram-me de imediato críticas que se faziam à romena  Nadia Comanecci – campeã mundial de ginástica aos 14 anos-  e a outras  jovens  super-estrelas da ginástica russa. Era recorrente justificar os seus êxitos com o regime espartano a que eram sujeitas  desde a infância. Ouvi muitas vezes  pessoas  falarem com desdém dos sucessos destas jovens e apontá-las como exemplo da barbaridade  dos regimes comunistas, que roubavam as crianças às famílias, treinavam-nas em unidades militares e as utilizavam como propaganda do regime. Não raras vezes, ouvi também  lamúrias misericordiosas, pelo facto de estas crianças não terem tempo para conviver, o que certamente iria contribuir  para que, chegadas à idade adulta, fossem pessoas desprezíveis.
Ora, o que vi na reportagem foram crianças que dividem a sua vida entre a escola, os estudos em casa e os treinos, que jantam às 10 da noite e se levantam entre as cinco e as seis  da manhã. Sete dias por semana, porque aos fins de semana ou estão a treinar ou a competir. 
Como explicava a repórter, estas crianças – que até são boas alunas-  “não brincam nem podem estar com os amigos, ir a festas ou ao cinema”. Perguntadas sobre o facto de não terem tempo para conviver com crianças da sua idade, nenhuma se manifestou preocupada e todas responderam que terão muitas oportunidades  de ir a festas e ao cinema quando forem adultas. “ o importante é que  faço aquilo que gosto”.
 (Perguntei aos meus botões se estas jovens terão amigas quando forem adultas. Fecharam-se num silêncio comprometedor, mas ao meu cérebro assomaram imagens de Vanessa Fernandes e do seu inexplicado eclipse após os JO de Pequim ).
 E que dizem os pais? Todos se mostram “satisfeitos com as opções dos filhos”  e manifestam apoio às “suas escolhas”. Será porque esperam reflectir neles  sucessos que nunca alcançaram?
Enquanto as câmaras passeavam o seu olhar indiscreto pelas casas, cujas dimensões e decoração me  permitiu classificar como “casas de famílias com rendimento classe média-alta, ou alta” perguntei-me como seria a vida familiar desta gente. 
A  mãe de três raparigas, entusiasmada, deu-me a resposta através da jornalista.
“ Bem, às vezes à hora do jantar lá nos conseguimos encontrar todos  e aos fins de semana, quando  há competições, procuramos acompanhá-las”. 
Antes que eu fizesse algum comentário, ouvi um dos meus botões murmurar  “ Porreiro, pá! Isso é que é uma vidaça!” 
Ao que eu retorqui:
“Como serão estes jovens, moldados para o triunfo em modalidades individuais, onde apostam tudo no desenvolvimento unipessoal, quando chegarem a adultos e se tornarem profissionais?  Não irão reflectir, no seu ambiente de trabalho, o modelo de desenvolvimento psicossocial em que foram criados? Saberão trabalhar em equipa?  Serão chefes cooperativos ou uns tiranetes?   Mas logo a minha atenção se desviou para outro aspecto da questão.  Por que  razão aquilo que tanto se criticava nos regimes comunistas é  agora exibido como  galardão de mérito nas sociedades de modelo ultra-liberal, onde reina o individualismo ?  Será que afinal os regimes colectivistas e individualistas não diferem tanto como pensamos? ”.
Nunca digas desta água não beberei!- ensinou-me a minha mãe, quando eu era catraio.

( em tempo: o propósito deste post era reflectir sobre a solidariedade dos jovens mas, mais uma vez, deixei-me conduzir por outro caminho. Sendo assim, talvez volte ao assunto em breve)

Porque descrês, Mulher?



Porque descrês, mulher, do amor, da vida?
Porque esse Hermon transformas em Calvario?
Porque deixas que, aos poucos, do sudario
Te aperte o seio a dobra humedecida?

Que visão te fugio, que assim perdida
Buscas em vão n'este ermo solitario?
Que signo obscuro de cruel fadario
Te faz trazer a fronte ao chão pendida?

Nenhum! intacto o bem em ti assiste:
Deus, em penhor, te deu a formosura;
Bençãos te manda o céo em cada hora.

E descrês do viver?... E eu, pobre e triste,
Que só no teu olhar leio a ventura,
Se tu descrês, em que hei-de eu crer agora?
( Antero de Quental