quinta-feira, 22 de março de 2012

A greve dos indignados

Passei um bocado da tarde a ver televisão. De manhã já tinha auscultado a opinião de algumas pessoas sobre a greve, queria saber o que outras pessoas diziam na televisão. Concentrei-me mais na SIC, onde José Manuel Fernandes debitava uma série de enormidades e proferia, com toda a lata que o caracteriza, um rol de inverdades.
Não vou comentar a prestação do ex-director do “Público” , responsável pela publicação da inventona de Belém, no Verão de 2009. O que me interessava era ouvir as pessoas que, na sua esmagadora maioria, se manifestaram contra a greve- algumas utilizando o insulto aos grevistas que invariavelmente apelidaram de comunistas – e, por arrastamento, contra o Partido Comunista.
Fiquei siderado ao ouvir pessoas que se diziam trabalhadoras, acusarem os grevistas de estarem a arruinar o país e defenderem os sacrifícios impostos pelo governo, “para desenvolver o país”.
Opiniões muito diferentes das que ouvi durante a manhã de pessoas que interpelei nas ruas. A maioria não aderiu à greve, com o argumento (legítimo e compreensível) de que já não aguenta perder um dia de salário. Algumas aderiram à greve metendo um dia de férias. Obviamente que estas pessoas não poderão ser contabilizadas como grevistas, mas foi uma forma de algumas pessoas manifestarem a sua adesão ao protesto promovido pela CGTP.
Pessoalmente, penso que esta greve não terá sido oportuna mas, pelo que ouvi nas televisões esta tarde, a conclusão a que chego é que muitos portugueses merecem bem o governo que escolheram. Também eles acreditam que a caridade e o assistencialismo resolverá os seus problemas, quando o desemprego ou a miséria lhes bater à porta.
Como dizia o meu pai, o problema deste país não está realmente nos governos. Está nos governados.

Com jeito vai, camarada!



Percebes que o mundo mudou, estás desactualizado e não soubeste adaptar-te aos tempos modernos desta democracia faz de conta, quando entras no Pingo Doce e vês um cartaz de Zita Seabra a promover marcas de vinho.
Com jeitinho, um destes dias ainda  vemos a “ comunista arrependida” a fazer publicidade a este precioso néctar.

Negócios em tempo de crise


 A velhota que há 10 anos perdia a camioneta todos os dias e deambulava entre o Saldanha e as Avenidas Novas pedindo a alguém que se apiedasse da sua má sorte, contribuindo com um pequeno óbolo, mudou de ramo. Agora anda no metro a vender pensos rápidos,  enquanto pede a compaixão dos passageiros, porque precisa de aviar uma receita. 
A sua postura também mudou. Já não se dirige aos passantes em surdina, contando a sua história de ir às lagrimas. Fala em voz bem audível, com a sonoridade  das canções de embalar.
Sempre ouvi dizer que a crise é uma boa oportunidade para fazer negócios.  Não percebo nada disso, porque nem em tempo de vacas gordas tive jeito para o negócio mas, pela amostra do caso vertente, estou em crer que deve ser verdade.
Quando é que Vítor Gaspar se lembrará de cobrar IRS aos pedintes de Lisboa? 

Poema melancólico a não sei que mulher


Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão...
( Miguel Torga)