sexta-feira, 16 de março de 2012

Ópera "low cost"



Durante o fim de semana será exibida no teatro S. Luiz uma versão da ópera “La Boheme” em português.  Os preços – entre 13 e 17 euros - são verdadeiramente “low cost” , mas o que leio sobre a promoção do espectáculo  ( ler aqui)  deixa-me  com  a sensação  de que esta versão destinada a “levar a ópera a audiências mais vastas” é muito capaz de ser equivalente àqueles resumos de História de Portugal que os alunos cábulas usavam para estudar à pressa para o exame. 
Visto por outro prisma, porém, a iniciativa deve ser aplaudida, pois pode despertar em muitos o gosto pela ópera e aguçar-lhes a curiosidade para ver o original e até outras óperas. Uma experiência a seguir com atenção.

Psicologia de Metro


Sento-me e coloco entre as pernas a pequena mala de fim de semana. A mulher sentada à minha frente olha-me de alto a baixo. Pressinto, pelo enrugar do rosto e um ligeiro menear de cabeça, um sinal de reprovação. Olho discretamente para baixo, a ver se tenho a braguilha aberta. Acontece aos melhores, mas comigo está tudo bem. Pego na revista e começo a ler.
Na paragem seguinte entra um jovem. É preto. Caminha ao ritmo da música que ouve no MP3 e generosamente partilha com os restantes passageiros do metro. Senta-se ao lado dela. 
A mulher olha-o uma…duas…três vezes. Cada vez que o olha, os seus lábios em forma de quarto minguante, cujas extremidades apontam em direcção ao baixo ventre encolhem-se, reduzindo o diâmetro  da boca. 
Ela não sabe que a observo, porque finjo ler, protegido pelos óculos escuros. De qualquer modo, nunca saberia o que estou a pensar, enquanto a metro perfura os túneis por onde me conduz ao destino desejado. 
Da primeira vez o olhar dela fixou-se na postura do jovem, sentado sobre uma das pernas, cabeça em constante movimento, para cima e para baixo, ao ritmo da música. Ela não deve ter gostado. Da segunda, fixou-se nos auscultadores de plástico azul e branco. Talvez tenha pensado “ foram comprados na Feira do Relógio. Se fossem giros e de boa qualidade eram gamados”. Da terceira e última vez olhou-o de alto a baixo, levou as mãos aos ouvidos, pressionou-os durante dois segundos com os indicadores, deixou escapar um esgar de desconforto e, ostensivamente, virou-lhe as costas, meneando a cabeça em sinal de reprovação. 
A sua nova posição permite-me observar-lhe melhor o perfil. Lança-me um olhar rápido pelo canto do olho. Talvez esteja a desafiar-me a adivinhar a sua idade. Aceito o desafio.
A base disfarça-lhe o vincado das rugas, mas não os pés de galinha. As sobrancelhas são finas, retocadas a lápis. Tem um ar pesado de quem já viveu muito e a expressão austera de quem está habituada a impor-se. 
Não é advogada, nem juíza. Nada a liga às leis, estou seguro. Aposto que é professora.
Detenho-me no vestuário. Casacão cinzento a  três quartos, assertoado, sobre uma camiseta branca com discretos bordados  que abre discretamente junto ao pescoço, de onde emerge uma écharpe estampada em branco, preto e cinza, animada por pequenos desenhos geométricos debruados a vermelho. A saia é preta e, quando se levantar, vai seguramente tapar-lhe por completo os joelhos. Um gorro de lã fina cobre-lhe os cabelos pintados num tom acobreado. Não usa aliança. Nem anéis.
Remato. De inglês! Penso um pouco melhor. De alemão?

Qual é a tua, ó Meo?



Há seis meses que mantenho um contencioso com o Meo. Primeiro as facturas começaram a extraviar-se, porque estranhamente mudaram o meu endereço, para outro que não existe.
Reclamei.  47 minutos depois  desistiram de insistir para que eu passasse a pagar por débito directo na minha conta bancária. Escaldado que estou, recusei  e resignaram-se. Acordámos que a factura  passaria a ser enviada por mail. No mês seguinte , a factura chegou… pelo correio e com o endereço correcto. Este mês recebo um SMS avisando que ainda não pagara a mensalidade. 
Voltei a telefonar.  Disseram-me para pagar pelo multibanco. Isso já eu sabia, mas cadê a facturazinha? Não pago sem factura, tá?
Pausa de sete minutos. A voz volta à linha para confirmar a minha morada. Depois pede o e-mail. OK. Agora espero pela factura e depois pago.
“Não, pague primeiro e nós enviamos a factura depois”
“ Já chegámos à Madeira? Onde é que já se viu isso?”
Mais quatro minutos de espera. Passam a chamada para  outra assistente que me atende com voz de enfado.   Repito a história toda desde o princípio. Começo a irritar-me, porque a cena já dura há seis meses.  
“Pronto, está bem, mas não lhe podemos enviar a factura, temos de enviar uma segunda via”
“Nas tintas! Quero é a factura, nem que seja em quinta via, mas sem factura não pago!”
“Não quer que lhe enviemos antes a factura… quer dizer a segunda via, por mail?”
“ Já tínhamos acordado isso há três meses!”
“ Então envio-lha já”
A conversa decorreu na segunda-feira. Escrevo este post na noite de quinta-feira. Vá a gente fiar-se na celeridade das novas tecnologias...

Ao serviço de Sua Majestade

Não há dúvida... quem sabe, sabe! Tudo indica que este sabe demais e, por isso, é preciso tratá-lo nas palminhas. 

Não se casem, Raparigas


Já viram um homem em pêlo
Sair de repente da casa de banho
Escorrendo por todos os pêlos
Com o bigode cheio de pena
Já viram um homem muito feio
A comer esparguete
Garfo em punho e ar de bruto
Com molho de tomate no colete
Quando são bonitos são idiotas
Quando são velhos são horríveis
Quando são pequenos são maus
Já viram um homem gordo à beça
Extrair as pernas do ó-ó
Massajar a barriga e coçar as guedelhas
Olhando pensativo para os pés

Refrão 1

Não se casem raparigas não se casem
Façam antes cinema
Fiquem virgens em casa do papá
Sejam serventes no carvoeiro
Criem macacos criem gatos
Levantem a pata na Ópera
Vendam caixas de chocolate
Professem ou não professem
Dancem em pêlo para os gagás
Sejam matadoras na avenida do Bois
Mas não se casem raparigas
Não se casem


Já viram um homem à rasca
Chegar tarde para o jantar
Com baton no colarinho
E tremeliques nas gâmbias
Já viram no cabaret
Um senhor não muito fresco
Roçar-se com insistência
Numa florzinha de inocência
Quando são burros aborrecem
Quando são fortes fazem sports
Quando são ricos guardam o milho
Quando são duros torturam
Já viram ao vosso braço pendurado
Um magrizela de olhos de rato
Frisar os três pêlos do bigode
E empertigar-se com um ar de bode

Refrão 2

Não se casem raparigas não se casem
Vistam os vossos vestidos de gala
Vão dançar ao Olímpia
Mudem de amante quatro vezes por mês
Peguem na massa e guardem-na
Escondam-na fresca debaixo do colchão
Aos cinquenta anos pode servir
Para sacar belos rapazes
Nada na cabeça tudo nos braços
Ah que bela vida será
Se não se casarem raparigas
Se não se casarem
( Boris Vian)