quarta-feira, 14 de março de 2012

O prefácio

Salazar à espera de Aladino

Durante o Estado Novo, Salazar lançou este mote e os portugueses aderiram. Portugal chegou a estar entre os países do mundo com mais consumo de vinho per capita...
As gerações mais  jovens foram substituindo o vinho pela cerveja, por sumos e- oh infâmia!- pela sensaborona água ( simples ou com aromas, essa supercriação da sociedade da hiperescolha). À noite, muitos optam pelos shots, cujas  vantagens sobre o vinho são inegáveis, graças à rapidez e eficácia  com que toldam o cérebro e aceleram a bebedeira- única razão que motiva alguns jovens a sair de casa depois do sol posto, como pude ouvir de viva voz de alguns praticantes da shotmania.
Os velhos também bebem menos vinho, já que as suas bolsas rarefeitas estão cada vez menos aptas a marcar penalties aos balcões das tascas,  agora repletos de garrafas de "mines", para gáudio de Pires de Lima.
Há no entanto quem não se conforme com este desprezo pelo vinho e, dando resposta ao desafio do ministro Álvaro, empreendeu o lançamento de uma marca susceptível de cativar o interesse dos seniores. 
A iniciativa  de lançar um vinho com a marca "Memórias de Salazar", ditada pelo neurónio ao serviço do  autarca de Santa Comba, poderá não ser aplaudida pelo ministro da economia, mas arrisca-se a ser um negócio de sucesso. 
Em Portugal- se o preço for acessível-  espero que sejam  mais os velhos a comprar garrafas daquele vinho para as partirem ao balcão, ou na campa do ditador, do que aqueles que venham a saborear o precioso néctar.  Não creio que colha também grande simpatia entre os jovens, já que não apreciam muito marcas portuguesas e ainda menos História. O mais provável, aliás, é ligarem o vínico Salazar a um ex-namorado, amigo, ou familiar da Ana das modas estilísticas, do que ao ditador de Santa Comba. 
Se o vinho não for muito caro, até eu estarei disposto a comprar meia dúzia de garrafas que, gostosamente, arremessarei contra a parede da autarquia salazarenta em sinal de protesto
Apesar de o vinho  "Memórias de Salazar" poder vir a satisfazer apenas os gostos de um nicho de mercado em Portugal, a marca tem bastantes hipóteses de se impôr lá fora. 
A curtíssimo prazo, poderá colher a simpatia de  Sarkozy. Entusiasmado com as sondagens que o colocam à frente nas presidenciais francesas, depois de ter iniciado um discurso populista de extrema-direita, o minorca francês é homem bem capaz de promover a marca Salazar  a vinho oficial da campanha, desde que o autarca de Santa Comba esteja disposto a oferecer-lhe umas garrafas promocionais.  Se Sarkozy voltar a ser eleito para o Eliseu, o "Memórias de Salazar" terá sucesso assegurado noutros países europeus  e  poderá tornar-se mesmo uma marca franchisada, adoptando os nomes de "Memórias de Mussolini" em Itália e "Memórias de Hitler" na Alemanha.  
Não será fácil que a marca se imponha no Chile, já que o vinho "Memórias de Pinochet" parece ser uma marca com bastante prestígio junto do actual ocupante do palácio de La Moneda.  Na Argentina e no Brasil- apesar dos inúmeros saudosistas das ditaduras que por lá vivem- a sua entrada não será fácil,pois os governos de Cristina e Dilma não estão dispostos a permitir o reavivar de memórias de tempos tenebrosos. No entanto, quer na América Latina, quer em África ou no Extremo Oriente, não faltam mercados a explorar,  sendo mesmo expectável que o empreendedor autarca santacombadense, inebriado pelo sucesso da sua iniciativa, alargue a marca a outros produto, como o néctar de laranja, já que o espírito de Salazar está bem vivo na cáfila  pê-esse- dê que aposta na miséria para nos salvar das garras da democracia.
Salazar poderá não ter ressuscitado em 2011, mas o seu espírito continua entre nós. Aprisionado. Não numa lâmpada, porque lhe falta o génio, mas numa garrafa, que é o recipiente ideal para o ditador aguardar a chegada de um Aladino em que possa reencarnar.

Mulheres de Outros Mundos (3)

Cristina Kirchner



Em 2008, os agricultores argentinos entraram em conflito com o governo. Protestavam contra o aumento de 10% da carga fiscal sobre as exportações Rapidamente, "a guerra da carne", desencadeada pela Confederação de Agricultores argentinos,  se transformou num ataque a Cristina Kirchner que os agricultores pretendiam derrubar.A ameaça de desencadear a mais grave crise na pátria azul celeste, desde o“Corralito”, em Dezembro de 2001, era real. Cortes de estradas impediam o abastecimento de carne, leite e produtos hortícolas a Buenos Aires, pondo os porteños em polvorosa.
Só quem não conhece a Argentina é incapaz de  imaginar o que representa para um argentino estar mais de 24 horas impedido de comer asado de tira ou bife de chorizo!
No dia 1 de Abril, a maioria das organizações sindicais e movimentos cívicos conotados com a esquerda,  temendo   a repetição do lock out patronal de 1976 - um mês antes do golpe militar  que instaurou a ditadura - promoveram uma gigantesca manifestação de apoio a Cristina Kirchner.
Com a Plaza de Mayo  e zonas adjacentes a rebentar pelas costuras, a presidente argentina   proferiu um forte discurso , acusando a Confederação de   comportamento golpista.
“ Não podem arvorar-se em defensores do povo e, simultaneamente, impedir-lhe o acesso aos alimentos” – afirmou perante a multidão que  saiu à rua para apoiar a sua presidente e mostrar que tinha memória. 
O que se viu, naquele dia 1 de Abril de 2008, na Plaza de Mayo, foi um povo ao lado da sua presidente,  apostado em combater  o golpismo que a direita cozinhava nos bastidores, afirmando convictamente que não queria  regressar àquele passado de medo, tortura e violência que manchou o país.
 Enquanto o povo argentino lhe manifestava o seu apoio, Cristina  era acossada pela direita conservadora e obrigada a enfrentar gravíssimos problemas  colocados durante o seu mandato pelos interesses económicos e financeiros que resistiam à capitulação. A  imprensa europeia e norte-americana, fazendo coro com a direita,  enchia páginas de jornais a desacreditar as capacidades de Cristina Kirchner. 
Ela respondeu   criando emprego, melhorando o estado social, promovendo a inclusão, preocupando-se com os mais desfavorecidos e, seguindo as pisadas do marido, enfrentando os mais poderosos. Assim foi  conquistando o coração dos argentinos e reeleita  com a vantagem mais dilatada (54%) obtida por um candidato, desde o ano de 1983, que marcou o fim da ditadura e o regresso à democracia. É o que acontece quando se age com convicção e se usa o poder para defender os interesses do povo.

Era uma vez...

Um país onde o secretário de estado da energia, escolhido pessoalmente pelo PM, foi obrigado a demitir-se por atacar os privilégios da EDP e impedido de denunciar publicamente os prejuízos que os consumidores estão a sofrer, em virtude da falta de coragem deste governo.
Nesse mesmo país, o secretário de estado dos transportes  mentiu ao país e ao primeiro ministro, para ocultar um pagamento indevido à Lusoponte, que lesou os consumidores. Não se demitiu, nem foi demitido.
Nesse país, ainda há uns ingénuos que acreditam viver em democracia e uns comentadores que insistem em afirmar que o PM é um homem honesto.
Dentro de algum tempo, quando o PM se pirar do governo e, armado em Flautista de Hamelin, for seguido por alguns ratos, os cidadãos desse país perceberão que andaram a ser enganados por um grupo de gente que teve como único objectivo garantir o seu futuro, protegendo as empresas e não os cidadãos.


Em tempo: Jerónimo de Sousa tinha todas as possibilidades de saber, através de representantes do PCP no Conselho Tarifário da ERSE, quem é Artur Trindade - o novo secretário de estado da energia. Preferiu ir a reboque do que alguma imprensa noticiou e meteu o pé na argola. 
Na verdade, Artur Trindade era director de serviços da ERSE  e não director/administrador. No entanto, Jerónimo de Sousa não se coibiu de afirmar que o facto de AT ser Presidente da ERSE  demonstrava que o regulador estava em muito más mãos.  Pior ainda...JS deveria saber que a ERSE tem sido a entidade reguladora mais independente em relação ao governo e cometeu uma injustiça ao fazer aquelas declarações. JS é líder de um partido político , não pode correr o risco de falar com base em "feellings" assumidos a partir de notícias falsas saídas na imprensa.

Caramelos Vaquinha (5)

Luís Meneses



A frase:" O PS não precisava de recorrer à chafurdice política"


Ó puto! puseste-te em bicos de pés e lá conseguiste entrar na galeria dos Caramelos Vaquinha, antecâmara da montra de sucesso que é a Caderneta de Cromos do CR.
Como deves saber, os Caramelos Vaquinha  são galardões atribuídos aos putos da política que proferem frases idiotas. No teu caso, a frase além de ser idiota, revela uma enorme ignorância que deve ter envergonhado o teu papá, atarefado em arranjar apoios para se candidatar à Câmara do Porto em 2013. Mas envergonhaste também a minha terra, ao demonstrares que és um fedelho ignorante. É que, na verdade, não foi o PS a humilhar o teu amado líder PPC na AR, a propósito dos pagamentos indevidos à Lusoponte. O autor da façanha foi Francisco Louçã, do Bloco de Esquerda.
Cresce e aparece, puto! Não te deslumbres por seres vice-presidente do PSD. É que por lá há muitos imberbes como tu, ignorantes e preguiçosos, que nunca souberam o que é trabalhar e não hesitarão um momento em desancar na tua ignorância, para te chutar para canto.
Se continuares assim, nunca chegarás a Cromo. Ficarás a vida inteiro caramelo.

A Mulher que passa


Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! Como és linda, mulher que passas
que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Porque me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passa?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.

(Vinicius de Moraes)