terça-feira, 13 de março de 2012

Povo estranho, este...

Os suíços sempre me pareceram um povo estranho. Há uns meses recusaram, em referendo, a redução de impostos, alegando que isso iria baixar o seu nível de vida. Não foram os primeiros a fazer tal opção. Já há uns anos os suecos tinham votado contra a redução de impostos e a favor de uma redução de 2% dos salários, como forma de garantir a manutenção das reformas ao nível a que sempre estiveram habituados.
 Agora que os suíços chegassem ao cúmulo de se auto flagelarem, é que nunca imaginei..

Pronúncia do Norte (37)

A Baixinha mandou-me mais um mail a pedir ajuda. Desta vez ela pede-me que lhe diga o que são "sameiras", porque tem ouvido uns miúdos lá no bairro a falarem entusiasmados de " corridas de sameiras".
Algum dos leitores quer ajudar a Baixinha? Eu deixo-vos aqui a solução

Conto do Vigário



Vivia há já não poucos anos, algures, num concelho do Ribatejo, um pequeno lavrador, e negociante de gado, chamado Manuel Peres Vigário.
Da sua qualidade, como diriam os psicólogos práticos, falará o bastante a circunstância que dá princípio a esta narrativa. Chegou uma vez ao pé dele certo fabricante ilegal de notas falsas, e disse-lhe:
«Sr. Vigário, tenho aqui umas notazinhas de cem mil réis que me falta passar. O senhor quer? Largo-lhas por vinte mil réis cada uma.»
«Deixa ver», disse o Vigário; e depois, reparando logo que eram imperfeitíssimas, rejeitou-as: «Para que quero eu isso?», disse; «isso nem a cegos se passa.» O outro, porém, insistiu; Vigário cedeu um pouco regateando; por fim fez-se negócio de vinte notas, a dez mil réis cada uma.
Sucedeu que dali a dias tinha o Vigário que pagar a uns irmãos negociantes de gado como ele a diferença de uma conta, no valor certo de um conto de réis. No primeiro dia da feira, em a qual se deveria efectuar o pagamento, estavam os dois irmãos jantando numa taberna escura da localidade, quando surgiu pela porta, cambaleando de bêbado, o Manuel Peres Vigário. Sentou-se à mesa deles, e pediu vinho. Daí a um tempo, depois de vária conversa, pouco inteligível da sua parte, lembrou que tinha que pagar-lhes. E, puxando da carteira, perguntou se, se importavam de receber tudo em notas de cinquenta mil réis. Eles disseram que não, e, como a carteira nesse momento se entreabrisse, o mais vigilante dos dois chamou, com um olhar rápido, a atenção do irmão para as notas, que se via que eram de cem. Houve então a troca de outro olhar.
O Manuel Peres, com lentidão, contou tremulamente vinte notas, que entregou. Um dos irmãos guardou-as logo, tendo-as visto contar, nem se perdeu em olhar mais para elas. O vigário continuou a conversa, e, várias vezes, pediu e bebeu mais vinho. Depois, por natural efeito da bebedeira progressiva, disse que queria ter um recibo. Não era uso, mas nenhum dos irmãos fez questão. Ditava ele o recibo, disse, pois queria as coisas todas certas. E ditou o recibo – um recibo de bêbedo, redundante e absurdo: de como em tal dia, a tais horas, na taberna de fulano, e «estando nós a jantar (e por ali fora com toda a prolixidade frouxa do bêbedo...), tinham eles recebido de Manuel Peres Vigário, do lugar de qualquer coisa, em pagamento de não sei quê, a quantia de um conto de réis em notas de cinquenta mil réis. O recibo foi datado, foi selado, foi assinado. O Vigário meteu-o na carteira, demorou-se mais um pouco, bebeu ainda mais vinho, e daí a um tempo foi-se embora.
Quando, no próprio dia ou no outro, houve ocasião de se trocar a primeira nota, o que ia a recebê-la devolveu-a logo, por escarradamente falsa, e o mesmo fez à segunda e à terceira... E os irmãos, olhando então verdadeiramente para as notas, viram que nem a cegos se poderiam passar.
Queixaram-se à polícia, e foi chamado o Manuel Peres que, ouvindo atónito o caso, ergueu as mãos ao céu em graças da bebedeira providencial que o havia colhido no dia do pagamento. Sem isso, disse, talvez, embora inocente, estivesse perdido.
Se não fosse ela, explicou, nem pediria recibo, nem com certeza o pediria como aquele que tinha, e apresentou, assinado pelos dois irmãos, e que provava bem que tinha feito o pagamento em notas de cinquenta mil réis. «E se eu tivesse pago em notas de cem», rematou o Vigário «nem eu estava tão bêbedo que pagasse vinte, como estes senhores dizem que têm, nem muito menos eles, que são homens honrados, mas receberiam.» E, como era de justiça foi mandado em paz.
O caso, porém, não pôde ficar secreto; pouco a pouco se espalhou. E a história do «conto de réis do Manuel Vigário» passou, abreviada, para a imortalidade quotidiana, esquecida já da sua origem.
Os imperfeitíssimos imitadores, pessoais como políticos, do mestre ribatejano nunca chegaram, que eu saiba, a qualquer simulacro digno do estratagema exemplar. Por isso é com ternura que relembro o feito deste grande português, e me figuro, em devaneio, que, se há um céu para os hábeis, como constou que o havia para os bons, ali lhe não deve ter faltado o acolhimento dos próprios grandes mestres da Realidade – nem um leve brilho de olhos de Macchiavelli ou Guicciardini, nem um sorriso momentâneo de George Savile, Marquês de Halifax.

(Este conto, recebido por e-mail, terá sido escrito por Fernando Pessoa e publicado pela primeira vez  em Outubro de 1926, no nº 1 do diário Sol com o título “Um Grande Português” .
Terá sido publicado posteriormente –em 1929- no Notícias Ilustrado com o título “A Origem do conto do Vigário”
Sabendo-se que proliferam por aí mails difundindo falsidades, não atesto a veracidade da sua origem, mas publico-o porque, seja qual for o autor, me pareceu interessante)




Alterações ao funcionamento do Conselho de Ministros

Confrontado com a falta de eficácia de Assunção Cristas, corroborada por estas declarações do bispo de Beja, PPC decidiu demonstrar que, custe o que custar, está disposto a obrigar S. Pedro a mandar chuva.
Sendo  este governo constituído por homens e mulheres de Fé, PPC  pediu por isso a D. José Policarpo que passe a presidir aos Conselhos de Ministros. Terá como funções decidir qual a oração do dia  que precederá os trabalhos, abençoar ou excomungar as decisões dos ministros. Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar terão direito de voto, mas este não será vinculativo
Durante as reuniões, que serão acompanhadas por um exorcista, haverá uma pausa para todos se cumprimentarem e, no final, os membros do governo trocarão santinhos.
 As medidas entram   em vigor na quinta-feira, mas não há a certeza que chova...

Se bem me lembro...

Cavaco Silva garantiu, durante a campanha eleitoral, que a sua eleição seria uma garantia de estabilidade para o país mas,  desde o dia em que foi eleito, Cavaco não tem feito outra coisa que não seja desestabilizar.
Ontem, ainda segui o conselho dele e fui ler o prefácio na íntegra. Debalde! As justificações do PR são completamente descabidas. Depois de ter dito que era preciso um português nascer duas vezes, para ser tão honesto como ele, ontem chamou-nos burros, por não sabermos interpretar os seus textos.
Se bem me lembro, Cavaco Silva jurou fazer cumprir a Constituição. Ora, se como ele afirma, Sócrates a violou, então Cavaco deveria tê-lo demitido imediatamente. Se não o fez, foi mais um erro a somar a muitos outros que vem acumulando nos seus mandatos.
Chega de nos insultar, senhor Presidente. Só me apetece pedir-lhe o mesmo que Juan Carlos pediu a Hugo Chavez. Porque não se cala? É que começa a ser triste o espectáculo degradante da falta de dignificação do cargo que o senhor ocupa.

A Mulher


Um ente de paixão e sacrifício,
De sofrimento cheio, eis a mulher!
Esmaga o coração dentro do peito,
E nem te doas coração, sequer!


Sê forte, corajoso, não fraquejes
Na luta: sê em Vénus sempre Marte;
Sempre o mundo é vil e infame e os homens
Se te sentem gemer hão-de pisar-te!


Se à vezes tu fraquejas, pobrezinho,
Essa brancura ideal de puro arminho
Eles deixam pra sempre maculada;


E gritam então vis: "Olhem, vejam
É aquela a infame!" e apedrejam
a pobrezita, a triste, a desgraçada!
(Florbela Espanca)