segunda-feira, 12 de março de 2012

A Mulher na Publicidade (3)


O grande embuste da "Geração à Rasca"


Faz hoje um ano, Portugal saiu à rua, impulsionado por um grupo obscuro que se denominou "Geração à Rasca". Na altura, comparei a estranha manif a que aderiu gente dos 8 aos 88, desde a extrema direita, à extrema esquerda, ao Cacerolazzo que derrubou Allende e abriu o caminho a Pinochet. Apesar de estar farto de Sócrates, sempre sublinhei  que o leit motiv da manif  era acabar com o que restava da democracia. Critiquei a ingenuidade  e  oportunismo da esquerda, fui mal interpretado e criticado, houve mesmo quem me acusasse de defender Sócrates.
Um ano depois todos reconhecem que estamos piores do que em 2011. Os rendimentos das famílias desceram de forma abrupta, o desemprego atingiu números inimagináveis, as desigualdades aumentaram exponencialemente, os direitos dos trabalhadores foram espezinhados, os jovens têm  ainda menos perspectivas de futuro.
Apesar de a taxa de desemprego entre os jovens ter subido  de 20, 4% para 35,8%., em apenas um ano, a "Geração à Rasca" está agora calada, indiferente aos movimentos de protesto de outros jovens que, lá por fora,  não desistem da luta. Submissa e conformada, aceita em silêncio a ordem para emigrar, como única solução deste governo para combater o desemprego entre os jovens. Já não protesta contra os recibos verdes ou  os contratos a prazo e até aceita que o desemprego seja camuflado com estágios pagos com ordenados inferiores aos de uma empregada doméstica.
A indignada "Geração à Rasca" é agora uma geração de medrosos que se remete ao silêncio.
Preferia estar aqui agora a escrever que me tinha enganado e que a manif da Geração à Rasca tinha contribuído de forma decisiva para acabar com a corrupção e os benefícios de uma casta instalada no poder, em vez de dizer como o Aníbal " Eu já tinha visado!". 
A realidade, porém, é crua. Com excepção daqueles que agora se acoitam em gabinetes ministerias e se passeiam  em carros pretos conduzidos por motoristas a ganhar mais de 2 mil euros por mês, os jovens deste país vivem em piores condições do que há um ano. Foram vítimas do embuste que eles próprios criaram,  foram apanhados na cilada da direita que, estranhamente, conseguiu congregar a simpatia de uma  esquerda acéfala. Melhor teria sido se, antes de embarcarem em manifestações folclóricas, tivessem lido os compêndios de História.Teriam percebido que estavam a ser protagonistas de um embuste que a direita agradece reconhecida.  

Mulheres de outros mundos (2)



Filha de uma das  famílias mais ricas das Filipinas e educada por freiras, Corazón Aquinio  estava “destinada” a ser uma mãe de família. No entanto, o casamento com Benigno Aquino, um dos grandes resistentes à ditadura filipina, alteraria o seu “destino”. 
O assassínio do marido catapultou-a para a presidência das Fiilipinas. Sem  experiência política, encetou uma luta contra Marcos e, apoiada pela Igreja, venceu as eleições em 1986, concitando um imenso apoio popular.  Durou no entanto pouco tempo o seu idílio com os filipinos.  Os golpes militares sucediam-se. Aquino ia resistindo, mas o seu poder enfraquecia a cada golpe, em virtude das cedências que era obrigada a fazer aos revoltosos.
Em vão tentou a reconciliação nacional. Com o apoio dos americanos, escapou à justa a um atentado, mas estes rapidamente lhe viraram as costas. Ainda que de forma discreta, a Igreja também lhe ia retirando o apoio. Em apenas três anos deixou de ser a candidata de Deus e passou a ser o alvo de toda a contestação. Inexperiente e sem apoios acabaria por entregar o poder em 1992 a Fidel Ramos, seu ex-ministro da defesa.

Elementar, meu caro Watson

No fim de semana o primeiro ministro mentiu aos jornalistas, garantindo que não houve pagamentos abusivos à Lusoponte. A meio da semana, interpelado por Louçã no Parlamento, embrulha-se,insiste na mentira, mas é  desmascarado e humilhado publicamente, como qualquer aldrabão que anda a vender contrafacção como produto original. Louçã mostra ao país que o PM mente com a mesma facilidade de um mixordeiro que vende vinho a martelo. A Estradas de Portugal  demonstra com números e factos que o PM mentiu. Qual a consequência?
Demite-se a administração da Estradas de Portugal por ter dito a verdade aos portugueses e não ter pactuado com a mentira do governo. 
Há quem chame a isto ser sério. Por isso é que Portugal é um país de trafulhas. Alguns, chegam mesmo a ser indigitados para fazer parte de governos, acolitados por um séquito de assessores, cuja única função é transmitir à comunicação social que os critérios  de honestidade são estabelecidos por decreto, servindo a palavra do primeiro ministro como honestidade - padrão.
Já agora, convido-vos a ver, em diferido, o video da humilhação.


Um país excepcional

Somos um país excepcional. Não porque sejamos um país de excelência que deva servir de exemplo ao mundo, mas precisamente pelo contrário. Neste cantinho do sul da Europa fazem-se leis, mas estabelecem-se logo excepções para justificar que ela só se aplique a alguns.
Com o moralismo canhestro que o caracteriza, PPC  repetiu à saciedade que os sacrifícios eram para todos. Assim impôs o corte do subsídio de férias a todos os funcionários públicos e trabalhadores de empresas públicas.
Assim que Cavaco veio pedir equidade nos sacrifícios, surgiu a primeira excepção: o Banco de Portugal. O PR ficou aliviado por não ser atingido e calou-se, nunca mais ninguém o ouviu protestar contra a distribuição iníqua dos sacrifícios.
A meio da semana passada, veio a excepção da TAP. Aos trabalhadores da transportadora aérea não se aplica a redução de salários.No dia seguinte, a excepção foi aplicada à CGD. Nos próximos dias seguir-se-ão outras excepções abrangendo a ANA, a RTP, os CTT, a Empordef e mais umas quantas empresas públicas.
Embora concorde que sejam repostos os salários a estes trabalhadores, porque roubar salários a quem trabalha é perfídia, não percebo a razão de apenas serem aplicadas aos funcionários públicos  as reduções de salários. Aliás, palpita-me que as excepções não vão  ficar por aqui!
Continuam a ser publicados despachos de nomeação de membros dos gabinetes ministeriais e constato a referência à atribuição de uma remuneração adicional nos meses de Junho e Novembro. A redacção dos despachos não é inocente. Não se faz referência a subsídios de férias e de Natal de forma deliberada, pois isso irá justificar que os pagamentos se concretizem, como lá mais para diante se verá..
Resta saber como serão compensadas as perdas de receitas, resultantes de tantas excepções. Eu tenho um palpite... mais uma vez serão os funcionários públicos. Não com mais cortes- isso seria demasiado escandaloso- mas sim com a colocação de alguns milhares  na Mobilidade Especial, um expediente criado  por Sócrates para se desfazer de alguns excedentários ( pouco mais de mil) mas que este governo irá utilizar como instrumento para fazer despedimentos encapotados.
A partir de final de Abril, haverá milhares de funcionários públicos com o seu ordenado reduzido a 60% e, lá mais para o Verão, ou no máximo até final do ano, vamos ficar a saber que, graças a uma medida excepcional, fundamentada na redacção dúbia dos despachos de nomeação, os boys laranjas recrutados para os gabinetes irão receber  as compensações a que têm direito.
Quando se descobrir a marosca, lá virá o Relvas dizer, com aquela cara de sonso, que o pessoal do gabinete não recebeu subsídios, mas sim as remunerações suplementares previstas nos despachos de nomeação.
Uns chicos-espertos, de honestidade excepcional!

Poesia com música



Queixa das almas
jovens censuradas
( Poema de Natália Correia, cantado por José Mário Branco)


Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
E um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola.


Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma duma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade.


Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos o prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência.


Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro.


Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós.


Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.


Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios, despovoados
De personagens do assombro.


Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.


Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura.


Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante.


Dão-nos um nome e um jornal,
Um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino.


Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida. Nem é a morte.