quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Memórias do 23-F


Em 23 de Fevereiro de 1981, as cúpulas militares da extrema-direita tentaram derrubar a ainda débil democracia espanhola, sequestrando o Congresso. Viveram-se horas de tensão e a democracia esteve fortemente ameaçada.
Alguns leitores do CR não viveram esse dia. É especialmente a pensar neles que aqui deixo este link do El Mundo, onde se explica, em video, como tudo se passou.
Um ano depois, o Rei Juan Carlos - cujo papel tem sido até agora considerado fundamental para abortar o golpe - está sob suspeita de ter sido complacente com o 23-F, depois de o Der Spiegel ter publicado um documento do embaixador alemão, onde este afirma que o Rei não só foi complacente com o golpe, como até manifestou alguma simpatia. As águas em Espanha agitam-se...

Mensagem ao Zeca



Podia prestar-te homenagem colocando aqui uma das tuas canções, mas gosto de quase todas e a escolha seria sempre difícil e talvez injusta.  Optei, por isso, por recordar o dia em que te conheci. 
Não me lembro exactamente do dia, apenas sei que era um fim de tarde  de uma  quarta-feira de Inverno ( penso que Fevereiro, pois a Faculdade de Direito estava fechada) de 1970. Estava num “convívio” na Faculdade de Letras, onde as músicas que passavam contribuíam para aproximar os corpos e aprofundar amizades. A determinada altura começou a correr em surdina na sala a mensagem “ O Zeca vem cá tocar ao fim da tarde”.  
Pensei, como muitos, que era mais um boato e continuei a dançar. Lembro-me bem quem era a minha companheira no momento em que a “notícia” nos chegou e, devo confessar, estava mais interessado em aprofundar uma relação que se tinha iniciado no sábado anterior, do que em me certificar da veracidade da mensagem que corria. Creio não ter sido o único. Depois de alguns momentos de agitação que foram percorrendo a sala como uma leve brisa, os corpos voltaram a enamorar-se  ao ritmo da música ( sim, caros leitores mais jovens… naquele tempo a dança ainda oscilava entre os acelerados ritmos de rock ou twist e o “slow”, género muito apreciado por rapazes e raparigas, quando tinham o par certo).
Já o Sol se escondera, quando um murmúrio voltou a agitar a sala. O Zé Jorge Letria acabara de me  confirmar a tua chegada iminente, a música subira de tom e era perceptível a excitação pairando no ar. Lembro-me que houve um longo compasso de espera. Quase toda a gente parou de dançar. Quem tinha par apertava a mão da(o) parceira(o) com mais força, como se esse gesto apressasse a tua chegada. Sabíamos que na sala havia “bufos” e pides. Alguns continuavam a dançar.Tememos, por isso, que não chegasses a entrar. Finalmente chegaste. Sentaste-te sem uma saudação e começaste a cantar, quase em surdina e aparente enfado. No final de cada canção afinavas a guitarra. Sem dizer uma palavra. Saíste de novo em silêncio. Era a primeira vez que te via e tive uma enorme decepção. Achei-te antipático e arrogante. 
No final desse ano parti para Inglaterra e só voltei a ver-te depois do 25 de Abril, quando   estava a cumprir o serviço militar e participava, um pouco por todo o país, nas denominadas “campanhas de dinamização cultural”. 
Estive contigo várias vezes , quando a doença já  te corroía o corpo e abafava a voz, mas nunca te minou a esperança. Um dia contei-te a minha reacção na primeira vez em que te vi. Reagiste com um encolher de ombros complacente. Há 25 anos acompanhei-te à tua última morada. Disse-te um último “obrigado” e, meses depois, voltei a partir.
Estejas onde estiveres, Zeca, quero dizer-te que neste momento precisávamos de ti. E do Adriano, do Cília e de  todos quantos  nos cantaram a revolta- mas também a esperança- durante a  “longa noite de trevas”. Vinte e cinco anos depois de teres partido, voltámos a mergulhar no abismo e não temos quem nos desperte e agite. Estamos de braços caídos, acomodados, amorfos,aceitando com resignação a condição de colonizados cada vez mais empobrecido. Se cá estivesses não ias gostar. Reagias e contagiavas-nos. Pronto, está bem, não encolhas os ombros. Eu sei que tens razão.  Este povo agora só acorda com canções dos Deolinda. Também há quem lhes chame cantores de intervenção, sabes? Coitados... que parvos que são, Zeca! 

Toma Lexotan, que isso passa!

Ontem vi a senhora Merdel, de punho fechado e em estado quase apoplético a acusar os países periféricos de serem caloteiros. Exigiu disciplina orçamental e gritou, perante uma plateia em êxtase: Paguem! Têm de pagar!
Pena que Merkel se tenha esquecido da dívida que a Alemanha  tem à Grécia desde o fim da segunda guerra mundial e que ascende, a preços actuais, a mais de 500 mil milhões de euros.
Dito por outras palavras: os alemães cresceram graças aos calotes que pregaram e agora  exigem a um dos seus credores que pague a sua dívida, ameaçando-o com sanções.
Entre homens isto resolvia-se bem, mas como o problema é entre países e o mais poderoso é dirigido por uma proxeneta, não há nada a fazer. 

Duetos(10)