quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Melincué



Melincué é uma pequena aldeia rural de três mil habitantes na província de Santa Fé, no coração das pampas. Apesar de ser muito procurada pelos argentinos como estância de lazer,  desde os anos 80 do século passado,  o nome da  pequena povoação só transpôs as fronteiras em 2010 graças à perseverança de uma professora com memória que se recusou a esquecer as atrocidades dos militares durante a ditadura argentina ( 1976-1983). 
Juliana Cagrandi tinha 15 anos quando em 1976 a morte de dois  jovens na casa dos 20 abalou a pequena povoação. Os corpos, baleados,  foram encontrados na berma da estrada pelo proprietário de um terreno perto de Melicuén. Informadas,  as autoridades locais atribuíram as mortes a acto criminosos,  removeram os corpos- que “não conseguiram identificar ” - e enterraram-nos no cemitério local três dias depois. 
Juliana cresceu, tornou-se professora, mas nunca esqueceu a morte daqueles jovens e, em 2003, motivou os seus alunos para um trabalho de investigação sobre o caso. Os alunos empenharam-se e conseguiram ser recebidos pela secretaria dos direitos Humanos de Santa Fé que acedeu nomear um procurador para  investigar as pistas que os alunos lhe forneceram. 
Só que em 2004 o cemitério quase desapareceu, submerso pelas águas da lagoa de Melincué, dificultando as investigações. No entanto, a perseverança da professora e dos alunos  contagiaram as autoridades locais que não desistiram de prosseguir as investigações.
Em Maio de 2010 as autoridades identificaram o corpo de Yves Domergue, um jovem francês de 22 anos que emigrara com os pais para  Buenos Aires em 1959.Estudante de engenharia, o jovem militava no Partido Revolucionário dos Trabalhadores, ligado a uma organização guerrilheira que combatia a ditadura. Deslocava-se por isso com assiduidade a Rosário (a cerca de 300 quilómetros da capital argentina) onde conheceu uma jovem mexicana com quem começou a namorar. 
Foi daquela cidade que Yves mandou a última carta ao seu pai, Eric, no início de Setembro de 1976.O irmão, que todos os meses, em dia certo, se encontrava com ele num local secreto continuou a ir  aos encontros nos meses seguintes, mas Yves nunca mais compareceu.
 Semanas depois  da identificação do corpo do jovem francês, as autoridades identificaram também o corpo de Cristina Cialceta, na altura com 20 anos,  a mexicana namorada  de Yves.
Três décadas após o fim da ditadura, a Argentina continua a procurar  e chorar os seus mortos. E o seu governo a tudo fazer para que a memória da sangrenta ditadura não se apague. Por isso, dias depois, Cristina Kirchner recebeu na Casa Rosada a professora Juliana Cagrandi  e alguns dos seus antigos alunos, para prestar uma homenagem às vítimas e à perseverança dos que contribuíram para a sua descoberta. 
À saída da Casa Rosada, uma das alunas, então com 24 anos, dizia:
“ Nascemos em 1986, em democracia, nunca apreendemos os horrores da ditadura. O nosso trabalho abriu-nos a mente e agora sentimo-nos como se tivéssemos feito parte desse período negro da nossa história”.
À  mesa de uma bodega de Porvenir,  na Patagónia profunda, a milhares de quilómetros de Melincué, alguém lembra esta história para explicar a razão de o povo argentino quase venerar os Kirchner, pela coragem que tiveram ao recusarem-se a enterrar as memórias da ditadura argentina. Tão diferente este povo, da gente do meu país que parece ter saudades de Salazar e se esforça por branquear os crimes do Estado Novo. Nada que a forma diferente de encarar a função da escola e do ensino não explique…