sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Por aqui, coelhos... só no tacho!



Muitas vezes me perguntam o que procuro na Patagónia.
Invariavelmente respondo com um indisfarçável brilho no olhar: “Nada!”
A minha resposta deixa a maioria das pessoas atónita e algumas não resistem a perguntar-me:
-Então o que vais lá fazer?
 Nessas ocasiões acrescento: “ procurar o Nada”.
É o imenso vazio da Patagónia,  fora dos locais invadidos pelas hordas de turistas, que me fascina. É percorrer centenas de quilómetros na companhia do silêncio, passear num barco a remos, solitário, nas águas imensas do Parque Nacional de Los Alerces, chegar à noite a uma aldeia índia , ficar horas sentado numa escarpa em Península Valdez a observar o comportamento dos animais selvagens,  encontrar turistas solitários que como eu procuram a reconciliação neste Nada que a Patagónia oferece aos viajantes  e nos deixa tão deslumbrados como o corpo esbelto de  uma mulher que se desnuda e se oferece para ser amada. 
Viajar pela Patagónia provoca a sensação do momento do orgasmo, quando o pensamento fica vazio e nos concentramos no prazer daquele momento único de união. Na Patagónia não procuro nada, a não ser o acaso do momento. Tanto pode ser o prazer de sentir o silêncio, como o desfrutar de uma paisagem, ou o encontro fortuito com alguém que nos conta uma das mil lendas que fertilizam esta terra. Não interessa! O importante é não estar à espera de nada, porque de certeza algo acontece. Nem que seja a constatação de que durante dois dias seguidos não aconteceu absolutamente nada!
Viajar na Patagónia não é ter encontro a hora marcada com o Perito Moreno, os elefantes marinhos em Península Valdez, ou  os pinguins na Terra do Fogo. É ter encontros fortuitos, é bater à porta de uma casa perdida na imensidão de uma planície, sem saber   se vamos ser recebidos por um tipo de caçadeira em punho, ou por alguém que nos convida amavelmente para tomar um mate e,  entre duas fumaças, nos conta uma história de encantar que tanto pode ser verdadeira , como uma lenda enraizada, ou  fruto da imaginação do momento. 
Viajar na Patagónia é despojar-me de tudo o que é material e conviver com a Natureza, deixando-me impressionar pela beleza ou pelas paisagens inóspitas que ela nos proporciona. É poder gritar a plenos pulmões e esperar pelo eco projectado a quilómetros de distância. É estar de espírito aberto para mergulhar  naquela sensação de paz eterna, num cenário de simplicidade rural, onde um John  Williams, ou uma Betty Sheffield nos falam em espanhol porque não sabem uma palavra de inglês, mas são capazes de nos convidar para um chá gaélico, com a maior das naturalidades, porque o têm mais enraizado na tradição, do que ao mate. É chegar às proximidades de Esquel e ouvir estórias variadas sobre Butch Cassidy e Sundance Kid que ali viveram e partilharam os ardores amorosos de  Etta Place, depois de terem fugido dos Estados Unidos com pompa e circunstância. 
A Patagónia é uma imensa - por vezes inóspita-  região polvilhada de lendas e habitada por monstros e gigantes que nunca ninguém viu, porque apenas existiram na mente dos seus criadores, mas em cuja existência gostaríamos de acreditar, para tornar mais suave a dura realidade deste tempo dominado pelo adamastor da economia e das finanças.

À atenção da D.Teresa

A D. Teresa  deve andar a sonhar com o dia em que possa exibir uma cena destas, mas talvez a guarde para quando o governo privatizar um dos canais da RTP e a guerra de audiências estiver ao rubro.