domingo, 16 de dezembro de 2012

Le premier bonheur du jour




Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
Alberto Caeiro

2 comentários:

  1. Também eu gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo. só que morrer contente é que vai ser difícil.


    Alberto Caeiro é o meu preferido dos heterónimos de Fernando Pessoa e, já agora, um outro poema sobre o mesmo tema

    Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
    Não há nada mais simples
    Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.
    Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.

    Sou fácil de definir.
    Vi como um danado.
    Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
    Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
    Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
    Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
    Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
    Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

    Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
    Fechei os olhos e dormi.
    Além disso, fui o único poeta da Natureza.


    Desejo-lhe um Domingo de Advento repleto de poesia, Carlos, e sem pensar na morte.

    ResponderEliminar
  2. ...o que for, quando for, é que será o que é, Carlos!

    Beijinhos, bom domingo.

    ResponderEliminar