domingo, 18 de Novembro de 2012

Le premier bonheur du jour

Hoje, com Vermeer e...
 Cesário Verde

O sentimento de um Ocidental
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem os carros d'aluguer, ao fundo,
Levando à via férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no mar, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vem sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera focos de infecção!


Tenahm um bom domingo

7 comentários:

  1. Vejo que andas melancólico, Carlos!
    Conheço bem esse poema de Cesário Verde que tão cedo partiu e quando ainda tinha tanto para dar!
    Essa belíssima pintura a óleo de Vermeer completa a nostalgia do sentimento de um ocidental...
    Anima-te, Carlos! Hoje está um sol esplendoroso.
    Vai até ao Guincho, senta-te no teu Rochedo e deixa que as ondas levem, para o alto-mar, essa tua melancolia.
    Beijinho e bom domingo!

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  2. Melancolia?
    Isso passa, vai ver.

    Registo a escrita e o quadro, com votos de boa semana.

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  3. Hoje o Carlos conquistou o meu coração!!!

    Amo as pinturas de Jan Vermeer.

    Cesário Verde é o meu poeta, e este poema é o meu preferido, que até o sei de cor.

    Se não fosse a Angie (Alemanha), até eramos os melhores amigos.

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  4. Ah! Vermeer! O pintor que mais gosto! Esta pintura foi uma homenagem à sua cidade de Delft.

    Tb eu lhe dediquei um post em 2010 “O homem que apreciava e valorizava as mulheres”! : ) tal como o Carlos valoriza todas as mulheres que conhece... com a exceção de uma... se a memória não me falha! : )
    O poema é belo e transmite muitas emoções.

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    1. Com a excepção de duas, Catarina, com a excepção de duas:

      A Angie e a amiga fiel da Angie!!!

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    2. Ahahah! ematejoca, olhe que não! Há uma certa admiração por si, acredite. Pergunte-lhe e vai ver que o Carlos vai confirmar o que penso. : )

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