terça-feira, 30 de outubro de 2012

Monopoly Games



Quando era miúdo detestava jogar “Monopólio”. Irritava-me aquele jogo em que as pessoas ganhavam graças à conjuntura da sorte dos dados e de alguma estratégia( que me parecia) gananciosa, levando os restantes parceiros à falência. A minha ira aumentava quando, à roda do tabuleiro, aparecia o R. filho de um médico muito conhecido no Porto. Ruivo e sardento, as lentes grossas conferiam-lhe um ar patusco, mas a frieza com que jogava ( não só o Monopólio, como qualquer outro jogo) retirava-me o prazer de com ele participar em qualquer actividade lúdica. Lia nos seus olhos uma vontade indómita de vencer, mas o que mais me encanitava era o ar displicente com que encarava a vitória. Para ele, vencer era o resultado natural de qualquer jogo em que participasse. Talvez por isso – e por só confiar nas suas próprias capacidades- não gostava de participar em jogos de equipa. Sempre que o fazia, se visse que a vitória lhe podia fugir, armava uma zaragata com os parceiros e retirava-se.
Aos 12 ou 13 anos eu não percebia rigorosamente nada de política. Sabia, porém, que não gostaria de viver num mundo em que os vencedores fossem os mais sortudos e vivaços, ou tivessem a frieza e o calculismo do R.
Não imaginava, na altura, que o mundo dos adultos era mesmo assim. Acreditava que os mais honestos e trabalhadores seriam recompensados, pois era isso que me ensinavam em casa e na catequese.
Na Faculdade comecei a perceber que afinal o mundo não era nada daquilo que imaginara, mas foi só no final dos anos 80 que comecei a acreditar que o mundo poderia vir a ser ainda pior.Em 1991 escrevi um artigo na “Tribuna de Macau” sobre a globalização que mereceu diversas críticas jocosas, pelo tom catastrofista que ressaltava do texto. Resumindo, em poucas palavras, punha em causa a bondade da globalização e manifestava a minha preocupação quanto ao resultado final, que admiti poder ser o aumento das desigualdades e a tentativa de imposição do pensamento único. Nesse artigo usei precisamente o exemplo do “Monopólio” e a personalidade do R., para sustentar a minha teoria, na qual eu próprio não queria acreditar.
Enquanto houve prosperidade económica, muito se falou da solidariedade mundial, especialmente entre os europeus, que falavam de uma Europa unida por objectivos comuns. Quando os sinos tocaram a rebate, alertando para o caos financeiro, fruto de muitas actividades especulativas, começaram a baixar as expectativas e cada jogador deste “Monopólio” em que se transformou o mundo começou a tratar da sua vidinha, defendendo os seus interesses.
É claro que, como acontece frequentemente nos jogos de “Monopólio”, alguns adversários uniram-se em acordos pontuais para tentar evitar que o crónico vencedor, detentor dos títulos “tóxicos” alcançasse mais uma vitória. Porém, a coligação financeira europeia rapidamente tremeu, perante a fragilidade de alguns parceiros, como a Grécia, Espanha e Portugal.
A Alemanha foi a primeira a dar indícios de pretender abanar a coligação europeia. Começou por dizer à Grécia que, se precisava de dinheiro, vendesse algumas das suas ilhas. Depois, a muito custo, lá acedeu a emprestar uns euritos mas, em contrapartida, quer exigir que os países que recorram ao Fundo Europeu, submetam os seus orçamentos à aprovação prévia do Parlamento alemão! Esta tentativa de ingerência na autonomia de países soberanos não é só intolerável. É, acima de tudo, uma aberração!
Entretanto, com os povos dos países do sul da Europa condenados a viver à míngua, os jogadores peritos em especulação nos mercados financeiros continuam a exigir medidas mais drásticas. Já não se trata, porém, de tentar vencer este jogo de Monopólio do Euro. Eles já sabem que essa vitória está garantida e o seu próximo passo é asfixiar os países europeus governados por partidos socialistas, obrigando-os a capitular. A vitória que falta à Internacional da Finança, é a vitória da sua ideologia, de molde a impor o pensamento único. À Banca já não lhe basta conduzir as políticas económicas. Quer, também, impor a sua ideologia e assim governar o Mundo, sem ter de pagar o ónus dos políticos, nem ter de se submeter a eleições.
Desgraçadamente, tem o apoio da srª Merkel que procura comandar o jogo europeu, impondo as condições e as regras. Ora nós já sabemos como acabou a história quando, no século passado, a Alemanha tentou por duas vezes impor a sua hegemonia no espaço europeu. Esperemos que a cena não se repita mas, confesso-vos, não estou nada optimista. 
Adenda: Quando escrevi este post, em Maio de 2010, desejava estar enganado. Se algumas dúvidas ainda tivesse quanto ao desfecho inevitável que se aproxima, ontem Mario Draghi fez questão de provar que, infelizmente, os meios receios eram fundados. Devemos estar preparados para o pior.

4 comentários:

  1. Quando alguém tem uma visão suficientemente lúcida, inteligente, conhecedora e abrangente daquilo que acontece no mundo, e esse olhar antevê situações que poderão ser catastróficas, quase sempre recebe o epíteto de profeta da desgraça e muitas vezes é alvo de chacota por parte daqueles que por ignorância, comodidade ou estupidez, só conseguem enxergar um palmo à frente do nariz!
    Os teus receios de há dois anos atrás, tinham fundamento, sim! A prova está à vista! Caminhamos, inexoravelmente para a perda de autonomia, sob o controlo do jogo de "Monopólio" e dos tentáculos famintos de poder, da Alemanha.
    E o pior ainda está para vir...
    Fico sempre deliciada com as metáforas certeiras das tuas crónicas, Carlos!

    Beijinhos.

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  2. Os meus filhos adoravam esse jogo eu nunca lhe achei piada nenhuma!
    Ontem uma enfermeira no HSM, onde fui a mais uma "revisão" disse-me que "isto" rebentava em março!
    Fiquei arrepiada com a certeza dela e das explicações que me deu sobre a sua opinião!

    Abraço

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  3. Caro Carlos, na minha inocência, sempre tive o Monopólio como um dos meus jogos favoritos e, apesar de nunca ter feito esse paralelismo entre o jogo e a situação actual, a verdade é que essa ameaça iminente de conflito já me passou pela cabeça...
    Apesar de ter destruído a inicência desta minha brincadeira de infência, informo que lhe atribuí um selinho, pode encontrá-lo em http://domeupedestal.blogspot.pt/2012/10/premio-dardos.html

    Mesmo que prefira não publicar ou "aderir", espero que goste de saber! =) um beijinho

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  4. O problema é que neste Monopólio sai poucas vezes a carta "vá para a prisão".
    O islandês ainda tem essa carta, segundo consta.

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