segunda-feira, 4 de junho de 2012

Abril (8)- Na Casa do Povo


Na Casa do Povo. o presidente da Junta de Freguesia, Leopoldo Frias,   António Silva, conhecido  por Zé da Bisca, em virtude do seu apego às noitadas de bisca lambida que seis noites por semana animavam a tasca de que era proprietário e o Manel Barbeiro aguardavam a chegada do padre  Roberto Ferreira, para a reunião semanal da direcção da Casa do Povo.
 Ausente, por impedimento insolúvel e permanente, estava a D. Isaura que o Criador decidira chamar à sua companhia para sua glória eterna.
Convém explicar que estes membros - eleitos dentro dos parâmetros em vigor no Estado Novo – tinham funções específicas e eram orientados pelos princípios do respeito pela ideologia vigente.
Comecemos pela defunta, escolhida por proposta conjunta do presidente da Junta e do Padre Roberto, por ser  viúva rica e temente a Deus. Como se viu no capítulo anterior, o testamento da ex-vogal demonstra que a sua escolha foi acertada.
O presidente da casa do Povo era o presidente da Junta  por razões tão óbvias, que me abstenho de vos explicar.
O padre Roberto foi integrado na lista precisamente porque era padre. Se lhe competia conduzir o rebanho dos fiéis, por mor razão seria seu mister orientá-los para o bem da comunidade, apoiando financeiramente as iniciativas da Casa do Povo. Foi este o argumento invocado pelo presidente da junta em assembleia geral onde a lista foi apresentada. O nome teria sido aprovado por unanimidade não fosse a objecção, lavrada em acta, de Manuel Serôdio, proprietário do Café Central, único estabelecimento concorrente da tasca do Zé da Bisca, registada em Conservatória com o nome de Flor do Zêzere.
Argumentava Manuel Serôdio  incompatibilidade na escolha do padre, por não poder separar os interesses da Paróquia dos interesses da comunidade, não lhe parecendo aconselhável  misturar os interesses da Igreja com os laicos.
A sua opinião não foi atendida pela assembleia que, não só aprovou a escolha do padre Roberto, como intentou  que em acta ficasse lavrado um protesto de desagrado pela declaração de Manuel Serôdio, ofensiva da dignidade do eclesiástico. Tal intento ficou-se apenas pelas palavras, graças à intervenção do padre Roberto que, apelando à misericórdia dos fiéis, lembrou que no reino de Deus todas as opiniões são válidas desde que imbuídas da Fé cristã.
 As reacções  à intervenção do padre dividiram-se entre  narizes torcidos e  exaltação das palavras misericordiosas, que apenas atestavam a sua bondade, a capacidade de perdoar e dele faziam um lídimo representante de Deus.
A drª  Beatriz , proprietária da farmácia e dirigente local do Movimento Nacional Feminino- o que lhe conferia o privilégio de já ter estado sentada ao lado de madame  Supico Pinto  em dois chás de beneficência-  apesar de alguma acrimónia por ter sido preterida em favor de D. Isaura,  não se coibiu  de acrescentar, no intuito de captar simpatias para uma futura eleição, que  na hora da morte o padre Roberto teria lugar assegurado à direita de Sua Santidade Pio XII o qual, por sua vez, garantira lugar privilegiado na corte celestial, junto do Criador, como lhe confiara em sonho recente um arcanjo enviado por Deus.

Questiúnculas ultrpassadas,  interessa agora  esclarecer as razões da escolha, menos polémica mas para alguns desconcertante, dos nomes de Zé da Bisca e  Manuel Barbeiro  cujo nome de registo era Manuel  Joaquim dos Santos Fonseca, mas assim lhe chamavam em virtude do seu ofício.
O primeiro foi escolhido por ser homem de bom coração, exemplo de honradez e de amor ao próximo, cujo contributo seria de grande utilidade para o sucesso das tarefas a desenvolver pela Casa do Povo em favor dos trabalhadores rurais do concelho.
A candidatura  de Manuel Barbeiro foi apresentada pelo Presidente da Junta num discurso fervoroso e emocionado, onde salientou a necessidade de incluir na direcção da Casa do Povo, unidade base da organização corporativa do Estado, um lídimo representante das corporações da terra. E que melhor representante poderia ser esse do que Manuel Barbeiro, que prontamente interrompia o prazer de um cigarro, ou uma acalorada conversa futeboleira sobre  as possibilidades de o União de Tomar permanecer na I Divisão Nacional, para atender  um cliente precisado de atenção capilar?
A justificação não era muito convincente mas, sendo a candidatura proposta pelo presidente da Junta, ninguém levantou objecções.
( Para ler os capítulos anteriores, clique aqui)

5 comentários:

  1. Está tudo nos conformes, diria o representante dos militares, se o houvesse e, siga a marinha.
    Mas este triunvirato que se formou, à custa do finanso de D. Isaura, não deixava de representar bem as gentes da terra. E se alguém levantasse cabelo lá estaria o Manel Barbeiro para lho cortar.

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  2. Carlos
    É impressionante estas histórias.
    boa semana

    beijinho e uma flor

    Mais uma vez, só consigo comentar com o computador do Rodrigo.

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  3. Amigo Carlos:
    Onde vai buscar tanta inspiração?
    Decerto numa fonte cheia de talento e vivências. Invejo-o! :)

    beijinhos

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  4. Oi Carlos
    O padre Roberto não só mistura os interesses da Igreja como os seus
    mais sórdidos desejos rs
    isso promete! quem está bem mesmo é D.Isaura, que Deus a tenha! rsrs
    obrigada pela sua presença e deixo alguns abraços Carlos
    e bons dias

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  5. Carlos,
    Por experiência própria, por essas juntas de freguesia passam-se coisas que são difíceis de acreditar.
    Depois do que vi numas eleições autárquicas (um tipo vender-se pelo cargo de secretário da Junta) nunca mais votei.

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