quarta-feira, 23 de maio de 2012

Bate-me, que eu gosto!




 “ Fifty Shades of Grey”, da autoria de E.L.James,  é actualmente o maior sucesso editorial nos EUA, tendo já entrado para a galeria dos  best sellers.
Convém começar por esclarecer que a  personagem central do livro (Anastasia)  é uma profissional  competente e dedicada que trabalha horas sem fim, é líder na sua empresa, toma conta dos filhos, tem um salário elevado que lhe garante independência económica  e, no final do dia, o seu prazer não é deitar os filhos e envolver-se numa cena de romântica com o seu companheiro, seja ele permanente ou apenas ocasional.  O maior prazer de Anastasia é ser chicoteada.
Livro pornográfico para homens perturbados, estarão a pensar algumas leitoras. Puro engano, minhas caras amigas…
 Segundo dados da editora, são as mulheres  quem  procura este livro com maior avidez. Mais de metade estão dessas leitoras pertence  ao escalão etário entre os 20 e os 30 anos, são urbanas e estão integradas profissionalmente.
Confesso que numa altura em que a violência doméstica ocupa o centro de muitos debates, me causa alguma perplexidade o facto de um livro onde a mulher  recorre à escravidão física para se satisfazer  sexualmente ser  um sucesso mas, pensando melhor, talvez não seja assim tão surpreendente...
Um estudo publicado na Psycholgy Today, citado pela revista 2 ( Público ao domingo)  responde parcialmente à questão: 31 a 57% das mulheres fantasiam com cenas de violação e de sexo forçado. 
“ O eros  é  um terreno onde a realidade não coincide com aquilo que dizemos”- esclarece por sua vez Daniel Berger , autor do livro “ O que  querem as mulheres” cuja publicação está prevista para 2013.
No artigo da 2- cuja leitura recomendo- são adiantadas diversas explicações para o facto de as mulheres apreciarem  estas fantasias  de submissão  e violência física muito para além daquilo que homens ( pelo menos como eu…) possam  pensar. 
É verdade que  há muitos autores, além de Sade, cujos livros têm como  tema central a submissão feminina e o masoquismo.  No entanto- e escolhendo propositadamente dois autores que estão nos antípodas da construção  literária- quer  em “A História de O” de  Anne Desclos ( escrito sob o pseudónimo de Pauline Réage), quer em “ Onze Minutos”   de Paulo Coelho, a submissão sexual e o masoquismo não são livremente assumidos pela mulher.
O que é efectivamente novo em “ Fifty Shades of Grey” é  a personagem assumir a  necessidade de ser chicoteada, para garantir  satisfação sexual.  Uma mulher afoita já não é aquela que diz ao parceiro   “Fuck me!”, mas sim a que  propõe “ I want to be your slave”.
E o que – em minha opinião-  é surpreendente, é serem a s  mulheres  ( maioritariamente entre os 20 e os 30 anos, relembro)  a fazer do livro um best seller.
Há aqui qualquer coisa que não bate certo. E o mais grave é que muito provavelmente sou eu, que há muito deveria ter esquecido tudo o que me ensinaram e pensava ter aprendido sobre as mulheres  ao longo da vida.
Como diz o povo na sua imensa sabedoria, aprender até morrer e morrer sem saber. Para início de conversa, o melhor é esquecer  romances à moda antiga,  tudo o que pensava saber sobre as mulheres e começar tudo de novo. 
É provavelmente a isso que chamam “mudança de paradigma”

14 comentários:

  1. As "fantasias" são isso mesmo, fantasias. A maioria delas nunca se transpôem para a "realidade" porque só são exitantes no plano da fantasia. Não vejo nada de novo no facto de uma mulher assumir a necessidade de ser chicoteada, a psicanálise explica, assim como há homens que que gostam e não são tão poucos quanto isso. Já o facto das "nossas" jovens entre os 20 e 30 anos fazerem do livro um best seller a mim, sinceramente não me diz nada. é mais uma novidade e a malta nova hoje em dia, em crise de valores, necesssita de estímulos...

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  2. Compreendo o que diz, Carlos, mas não me parece de todo uma situação grave. E, tal como diz, isto é de facto uma mudança de paradigma.
    Senão, veja bem. Romances? Que mulher emancipada e independente espera que lhe apareça um príncipe encantado, que a deixe completamente arrebatada e que lhe roube a liberdade no eterno "e foram felizes para sempre"?
    Queiramos, ou não, o conceito actual de família mudou, homens e mulheres têm objectivos diferentes e desejos mais assumidos e diferentes.
    Muitos poderão achar perverso. Eu própria não compreendo muito bem o prazer do sofrimento, mas compreendo o que as levará a fantasiar com isso. E isto é outro factor extremamente importante: estas mulheres não sonham ser escravizadas, apenas têm uma fantasia de ser "maltratadas" NUMA noite de sexo (não o resto da vida).
    Acontece que são mulheres bem-sucedidas, muitas com cargos de chefia e que passam o dia a lidar com subalternos. No final do dia, o que esperam de uma relação é uma coisa diferente. Não querem mandar em casa, querem uma situação de igual para igual e, muitas delas, desejam mesmo um homem que as submeta à sua vontade, em vez de ser mais um pau-mandado.
    Claro que isto é apenas uma perspectiva da coisa e haverá, certamente, muitas outras. No entanto, esta evolução ou “desevolução” é sem dúvida um caso para estudo.

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  3. Concordo com a ariel... fantasia não corresponde a realidade. E se esta de alguma forma corresponde... então, tal como o Carlos, não a entendo. E não sei se é uma questão de faixa etária.

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  4. Obrigado, Carlos, pela sua visita à nossa exposição de fotografia e pelas palavras simpáticas que deixou no nosso livro de visitas, em particular quando a mim se referiu.

    Se bem reparou os meus burros iam em debandada mas não ameaçados por nenhum chicote. :) :)

    O seu artigo é excelente.

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  5. No comportamento humano tudo é possível!
    Mas se a tal senhora levasse uma tareia todos os dias não me parece que desejasse ser chicoteada!
    Há homens que também gostam de relações "alternativas" que incluem algemas e chibatadas...
    O desejo das jovens em ler o livro é simples curiosidade, quanto a mim!
    Também se interrogam sobre a questão e querem entender, mais nada!
    O que nos deve preocupar são as mulheres que não querem ser maltratadas fisica e psicologicamente e muito menos assassinadas pelos "amantíssimos" companheiros ou ex!

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  6. Olha Carlos, por todos os motivos e mais alguns...estou de queixo caído!
    Não há dúvida alguma...aprendemos até morrer e morremos sem saber!

    Para ser sincera, há certos "conhecimentos" de que eu prefiro morrer ignorante.
    Sentir prazer com chicotadas? Livra!

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  7. Há dois comentários que gostaria de deixar:

    - Uma sociedade doente não pode gerar comportamentos saudáveis

    - O processo de aceitação, por natural, desses comportamentos é que é o verdadeiro paradigma da mudança em sociedades ditas avançadas. O masoquismo, esse, é muito antigo...

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  8. Gostei de ler os diversos comentários aos seu interessante texto e temática. :)

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  9. Cada um sabe de si, e Deus sabe de todos...
    Deus e o Relvas...

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  10. Ora aí está um livro que certamente não lerei!

    Concordo com a Rosinha, quando diz que devemos é preocupar-nos com as mulheres que NÃO querem ser maltratadas ou mortas pelos companheiros! E com a Ariel, quando diz que fantasias são fantasias, que só resultam enquanto tal... :)

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  11. Ainda esta tarde, a caminho de casa, referiram-se a esse livro no noticiário das 16h na estação de rádio de música clássica, o que me surpreendeu. E surpreendeu-me porquê? Talvez porque pensasse que se tratava de um livro de conteúdo duvidoso. Mencionaram os milhões que a autora já vendeu, não me recordo neste momento de quantos, nem isso interessa; surpreende-me o interesse que as mulheres dessa faixa etária sentem. Não deixa de ser curioso.

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  12. Eu gosto muito de ler.
    Preciso de ler, até.
    Mas nunca me meteria por estes caminhos.
    Não faz o meu género.

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  13. A moda pode ser uma coisa muito triste. Já é mau ver pessoas desfilarem orgulhosamente o trapinho design que as faz parecer um pequeno bisonte na muda, mas assistir ao ditame da moda na literatura, e estou convencida de que é só mais uma moda,é absolutamente deprimente. Depois da saga dos vampiros debilóides jurei nunca mais perder tempo com modas destas. Perdoarão os apreciadores dos chupadores de sangue bonzinhos, mas a duras penas sobrevivi à minha incursão nesse submundo. E só o fiz (em vão) para entender o fenómeno que me fazia mulheres de trinta e poucos anos, com filhos e vidas reais, perderem tempo a suspirar por uma criatura quase albina e de olhos dourados e ligarem umas para as outras sempre que acabavam um capítulo. True story.

    De modo que, não discordando da opinião da Helena Fernandes e da enorme pressão que sentem as mulheres bem sucedidas hoje em dia, tenho para mim que seria mais proveitoso para as senhoras que anseiam por emoções novas e andam a perder tempo a ler estas pérolas, empregar o tempo livre a recuperar o ponto cruz ou o macramé da avózinha, que também nos liberta o espírito das pressões diárias e de um modo indolor! Tem também a vantagem de ser baixa a probabilidade de apanhar septicemia através de uma ferida infectada. Chicotadas...ele há gente bizarra neste mundo!:)

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