segunda-feira, 28 de maio de 2012

Abril(6)- Melodias de Sempre


(Continuado daqui)


Quando chegou a casa,  Cátia Janine estranhou que a  mãe estivesse  na  cozinha a preparar  o jantar, porque ao domingo o almoço era sempre tardio e reforçado e à noite só comiam uma refeição  ligeira.
“ Então a cozinhar ao domingo, mãe?”
“ Foste fazer um pic-nic deves vir com fome. Só estou a fazer uns bifinhos e fritar umas batatas, também não é grande coisa…
“Ó Mãe, já lhe disse para se deixar dessas coisas. Sou maior e vacinada se tiver fome cozinho para mim! Além disso já teve imenso trabalho ao almoço”.
“ Foi só para mim e para o teu pai. O teu irmão não veio, porque a Teresinha  hoje acordou com febre, parece que está com gripe e eles  ficaram em casa”.
“ Vou só ali dar um beijo ao pai e já venho ajudá-la” 
“  Vai lá fazer companhia ao teu pai, que não te quero aqui na cozinha. Já basta teres de trabalhar a semana inteira”
“ E a mãezinha não se farta de trabalhar?”
“ Isso era quando tinha de tratar de ti e do teu irmão, filha. Agora sou só dona de casa, ninguém dá valor a isso. Tratar da roupa  fazer o comer e manter a casa limpinha não é coisa que dê muito trabalho...”
“ Ó mãezinha, não diga isso! Eu sei bem que isso dá um trabalhão, não desvalorize o seu trabalho…”
“ Pois, está bem… olha vai mas é ter com o teu pai que está ali em cuidados por tua causa”.
Cátia Janine deu mais um beijo à mãe, afagou-lhe o resto com ternura e foi ao encontro do pai que dormitava na sala com a televisão ligada e um livro sobre o regaço.
Àquela hora devia estar a dar o Telejornal, mas no ecrã  apenas se lia “ Pedimos desculpa pela interrupção, o programa segue dentro de momentos”.

“ Olá paizinho! A televisão está cada vez pior. Ou é isto ou a Mira Técnica, programas é que não há nada de jeito”.
“Qualquer dia deixo de pagar a licença da televisão! 300 mil réis por ano para ver porcarias… se ao menos ainda dessem as Melodias de Sempre ou repetissem os programas  do João Villaret… mas não… é só embarque de soldados para o Ultramar, Fátima, conversas do Marcelo e séries americanas! Até parece que  somos uma colónia deles”.
“Que está a ler paizinho?”
“ Um livro do James Bond. Já estou farto do Sherlock Holmes e do Poirot, este sempre é diferente”.
“ Estou a ler um livro que o paizinho deve gostar. O Arquipélago de Gulag”.
“  Isso é uma porcaria! Só diz mentiras…
“Porque diz isso paizinho? O Alexandre Soljenitsin é um Prémio Nobel e foi muito perseguido na Rússia, viveu aquilo tudo !”
“ Não é Rússia que se diz, Cátia… é União Soviética! E sei que  esse Alexandre qualquer coisa é um aldrabão, porque uns amigos meus que até são doutores já o leram e disseram-me.”
“Está bem, paizinho, como queira, mas eu estou a gostar. Olhe,  sabe o que é que dá na televisão hoje? "
“ Não… mas tens aí a Tele Semana que traz a programação toda.”.
Cátia Janine ia pegar na revista, quando se ouviu a voz da mãe:
“ O jantar está na mesa! Venham antes que arrefeça…
Januário levantou-se de imediato
“ Anda lá Caty, não faças a tua mãe esperar”
Durante o jantar Cátia Janine foi bombardeada com perguntas sobre o que fizera durante o dia. Contou todos os pormenores sem omitir nada, excepto que tinha pedido a Júlio Saraiva que lhe arranjasse um apartamento para alugar.
D. Lucília não fez perguntas sobre Júlio, mas o pai não resistiu:
“E que faz esse homem?”
“ É vendedor de casas. Muito simpático, por acaso!”
“ Se calhar trabalha para o J. Pimenta…”
“ O paizinho parece que adivinha! Trabalha mesmo!”
“ Agora quase todos os vendedores trabalham  para o J. Pimenta! É um fascista e um vígaro de todo o tamanho. Se houvesse justiça neste país já estava mas era preso”
“ Que horror, paizinho! Está sempre a dizer mal das pessoas, para si são todos fascistas! ”
Januário irritou-se com a admoestação cravou o olhar na filha e disse:
“ Sei muito bem o que estou a dizer! Este país está cheio de fascistas. Tu podes saber muito de leis, mas não sabes nada da vida, ouviste?”.
D. Lucília receou que a conversa azedasse e se transformasse em discussão. Procurava um pretexto para desviar a conversa, quando se lembrou do telefonema de Esmeralda.
“ Ai que já me esquecia, Caty! Telefonou a  tia Esmeralda, disse que precisava de te fazer uma pergunta, mas não disse o que era. Devem ser lá coisas do padre de Ferreira… Pediu para lhe telefonares quando chegasses, porque é urgente.”

( Capítulos anteriores, ler aqui)

9 comentários:

  1. Também li "Arquipélago de Gulag" (já uns tempos depois do 25 de abril) e estava bem de ver que o pai da Cátia não ia gostar desse autor, até pela restante conversa dele. Mas numa coisa lhe dou razão: a Cátia ainda tem muito a aprender com a vida! :)

    E pronto, aguardemos o próximo capítulo! :D

    ResponderEliminar
  2. Carlosamigo

    Esta Cátia Janine saiu-me cá uma prenda... Cada duas é um par, safa!...Pois, pois, Jóta Pimenta. E o papá só via fachos por tudo okera sítio. Quando nos bons tempos os verdadeiros demuqratas eram a esmagadora maioria, vejam-se as manifestações ex-pontaneamente organizadas que se faziam a Sua Ex-celência o Senhor Presidente do Concelho, Professor Doutor António de Oliveira Baltazar.

    Usando a terminologia do Exmo Sr. Félix Cravo Martins que habitualmente me visita, continuarei à coca desta serigaita. Mesmo que seja em cemitérios algures.

    Abç

    ResponderEliminar
  3. As mães sempre alerta para evitar trapalhadas e confusões na família... Mas duvido que o "paizinho" conseguisse ler o Arquipélago Gulag...

    Cátia Janine também me parece um nome muito conveniente...

    ResponderEliminar
  4. Cheguei agora a casa e vim logo ler mais um capítulo da vida da Cátia Janine, ficando a conhecer os paizinhos da menina, pessoas tão irritantes como a filha.

    O Arquipélago Gulag não é o livro da minha vida, mas sempre muito melhor do que um romance policial, como o paizinho costumava ler.

    Cá fico à espera de um novo capítulo, se possível, com o sapo Júlio.

    ResponderEliminar
  5. Meu amigo, aonde é que eu já vi este filme, voltei ao passado literalmente :)
    Que imaginação e que descrição, não imagina como o invejo, eu sou incapaz de escrever um texto longo.
    Vou ler os capítulos anteriores .

    beijinhos

    ResponderEliminar
  6. Carlos
    tenho lido mas não comentado, hoje mais uma vez com o computador do Rodrigo.
    Gaita que o paizinho era um tanto esquisito.
    Boa semana

    Beijinho e uma flor

    ResponderEliminar
  7. A Cátia Janine, tão progressista, com uns pais tão quadrados.
    Deve ser complicado

    ResponderEliminar
  8. A Cátia Janine progressista???!!!

    Ela é o produto duns pais burgueses, meu caro Pedro.

    Agora só falta entrar na história a tia Esmeralda e, então temos o mofo, daqueles tempos, por completo.

    ResponderEliminar
  9. Carlos, ainda não tinha lido este episódio da vida da Cátia Janine.
    Ontem, estive pouco tempo na Net. Mais uma vez me surpreendi por ambos nos termos lembrado de João Villaret. Ou não, dependendo de há quanto tempo escreveste este capítulo.
    Vou aguardar, para saber qual é o assunto urgente que a tia Esmeralda tem para tratar com a sobrinha!

    Beijinho

    ResponderEliminar