terça-feira, 15 de maio de 2012

Abril: da esperança às trevas (4): um encontro inesperado


( continuado daqui)

No momento em que estava debruçada sobre  o Lago , viu um rosto reflectido nas águas. Começou a sentir o corpo a tremer como se estivesse ligado à corrente e deixou escapar um grito abafado pelo medo.
- Não se assuste, minha senhora. Peço desculpa pela minha imprevidência, devia ter anunciado a minha presença, mas esteja descansada porque não lhe quero fazer mal. Só precisava da sua ajuda…-  desculpou-se o homem 

 Cátia Janine, ainda mal refeita do susto, contra atacou:

- O senhor é idiota! Isso não se faz… francamente! O que quer? Comida?
O homem  sorriu, deixando ver um incisivo de ouro
- Não, minha senhora, graças a Deus já almocei ali em Tomar. Depois do almoço vim até aqui  para ler e  repousar  um pouco, mas como estava a dar o relato do Porto- Benfica deixei o rádio ligado e agora, quando me ia embora reparei que tinha ficado sem bateria.  Sou imprevidente, eu sei, mas peço-lhe que me perdoe...
Já recomposta,  Cátia Janine perguntou com aspereza:
- E que quer que eu lhe faça?
-Bem, como a senhora tem ali o seu carro… aquele Austin é seu, não é?... a senhora podia ajudar-me a recarregar a bateria. Eu tenho ali os cabos, é só ligar e em cinco minutos está o assunto resolvido.
-Está bem… eu já me ia embora daqui a nada, se são só cinco minutos não há problema.
O homem ajudou Cátia Janine a arrumar as coisas e transportou-as até ao carro.
Pelo caminho brincou com a situação, numa tentativa de  aliviar o clima tenso que pairava no ar.
- A senhora devia ter-se lembrado da hipótese de ser assaltada antes de vir para aqui sozinha fazer um pic-nic. Se eu fosse mesmo um assaltante …
(Aproximou o rosto de  Cátia Janine que num impulso se afastou)
...desistia logo ao ver  uma mulher tão bonita.
Aquelas palavras  que Catia  Janine sabia serem falsas e sobretudo a tentativa de aproximação não lhe  agradaram:
- Por quem me toma? Por alguma galdéria? Fique sabendo que sou advogada!
-Ah desculpe! Não me apresentei. Júlio Saraiva, um criado às suas ordens…
- Cátia Janine
- Lindo nome! A minha mãe também se chamava Cátia. Já morreu, coitadinha…
Chegados ao carro de Cátia Janine,  Júlio Saraiva arrumou a cesta no porta bagagens e apontou para o carro dele, um Fiat 124, parado a uma escassa centena de metros.
- Então, se não é maçada, senhora doutora, levava o seu carro até ao pé do meu. Como é a descer, nem precisa de o ligar. Eu vou indo a pé, preparo os cabos e em cinco minutos estamos despachados.
Ela meteu-se no carro e ficou uns segundos a observá-lo. Era um homem musculado de estatura bem acima do português médio. Vestia umas calças de veludo  beje e uma camisa desportiva  creme, desabotoada, deixando ver os pelos do peito. Levava no braço um jaquetão de antílope castanho e calçava sapatos de camurça a condizer.
Veste bem, pensou. O que fará na vida? Também não lhe vou perguntar. Se quiser dizer, diga, caso contrário fica como o senhor Júlio. Não deve ser licenciado, senão tinha dito logo e não se punha a tratar-me por senhora doutora. Comerciante? Contrabandista? Tem um ar fino, se calhar é empresário…
Quando chegou ao carro de Júlio, ele já tinha os cabos na mão e, ao avistá-la, acenou-lhe com eles, fazendo o gesto de um forcado a preparar uma pega de caras. Conseguiu arrancar-lhe um sorriso.
A tarefa de recarregar a bateria demorou menos de cinco minutos. Arrumado o  material, com o carro a trabalhar, Júlio estendeu a mão para se despedir mas, ainda a mão ia a meio caminho, perguntou:
- Seria muita ousadia minha convidá-la para lanchar, ou tomar um café?
- Deixe lá isso, não custou nada e até me diverti a vê-lo à volta dos cabos todos emaranhados.
- Não é para  retribuir nada, senhora doutora… é só porque gostava de conversar um bocadinho mais consigo e apagar a má impressão que lhe deixei.
Cátia Janine hesitou dois segundos e anuiu.
Vamos então tomar café a Tomar?
Muito bem. Quer sugerir algum lugar?
Pode ser no Estrelas… Segue-me?
Com toda a certeza, senhora doutora.
Cátia Janine entrou no carro e ligou o rádio. Na Emissora Nacional, Artur Agostinho repetia golo!golo! golo! com aquele jeito característico que o celebrizou. Tinha sido golo do Benfica. O jogo estava a terminar  e o resultado era de 2-2. Com aquele empate o Benfica garantia praticamente o campeonato.  Não percebia nada de futebol,  mas  fixou  um nome que recebia enaltecidos elogios dos comentadores: Bastos Lopes. Era um jovem defesa que fazia a estreia em pleno estádio das Antas e se estava a sair muito bem. Viria a ser um reputado internacional, indispensável na selecção das Quinas que era o nosso orgulho, principalmente desde que um tal Eusébio da Silva Ferreira encantara o mundo no Mundial de 66 e projectara o nome de Portugal além fronteiras.
Terminado o jogo, Cátia Janine imaginou o pai em casa, eufórico, com o empate que mantinha o SL Benfica invencível. A poucas jornadas do final do campeonato.
Olhou pelo retrovisor para ver se Júlio deixava extravasar sinais de alegria. Viu-o bater repetidas vezes com a mão fechada no volante em sinal de vitória.  Mas, de repente, algo lhe ocorreu que a deixou preocupada e temerosa. O carro de Júlio estava numa descida, facilmente ele o teria conseguido ligar se descesse em ponto morto e depois o engatasse na segunda velocidade. Então, porque é que  a tinha procurado a pedir ajuda?
(Continua)
Pode ler os capítulos anteriores aqui

18 comentários:

  1. (o que um homem vai buscar
    só para falar de futebol
    sem chatear
    nem fazer conversa mole)

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    1. Foi penitência, por alguns posts anti-benfiquistas que aqui escrevi. Que os meus pecados sejam perdoados. Amen

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  2. Ele é do Benfica; só pode ser boa pessoa...

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    1. Por estranho que pareça, até conheço benfiquistas que são uns tipos porreiros... desde que não se fale de futebol:-)))

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  3. Eheheh, esse Júlio parece-me trazer água no bico... com (ou devido ao) Benfica, e tudo! :)

    Mas pelos vistos falhei um capítulo! É o que dá estas crónicas/contos em capítulos! :D

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    1. Carlos, vim até aqui para acalmar o golo do Hertha Berlim, e afinal, encontro aqui um Benfica a caminho de ganhar o campeonato.

      O Artur Agostinho a gritar: golo, golo, golo e, o locutor daqui a dizer que é pena Berlim perder, e a capital deixar de estar representada na primeira liga.

      O Júlio não gosta de mulheres, qual é o jogo dele com a irritante Cátia?

      Aqui não temos Fado, nem Fátima, mas temos FUTEBOL!

      Saudação de Berlim do duo Merkollande.

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    2. Pode sempre ler os capítulos atrasados seguindo o link da etiqueta, Teté. de qualquer modo talvez um dia destes transfira esta história para o On the Rocks.
      Quanto ao Júlio, não é bem água no bico que ele traz, mas a seu tempo se saberá...

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    3. Já é habitual o Hertha descer de divisão. Até o Benfica lhe ganhou aqui há uns anos para a Liga Europa ( foi, salvo erro, a única equipa que conseguiram vencer na Alemanha, quando já estava no ultimo lugar da Bundesliga.
      Quanto ao encontro Merkollande, farei o relato por música à hora habitual. Espero que a GEMA deixe passar a mensagem...

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  4. Ai meu Deus...isto agora está mesmo em ponto de rebuçado!!
    Dos futebois desse tempo só me lembro da voz de Artur Agostinho e Pedro Moutinho...
    Vê lá, não nos deixes ficar muito tempo neste terrível suspense, Carlos!
    Sabes que a Cátia Janine, até nem me está a parecer má pessoa?
    Continuemos a aguardar...
    Beijinhos.

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    1. Ainda a procissão vai no Adro, amiga! Pelas minhas contas deve haver coto para um ano, com publicações bi-semanais :-)
      Vais ter muitas surpresas. Em 40 anos as pessoas mudam muito e, depois do 25 de Abril houve tanta gente a revelar-se de forma inesperada!
      Mas, como sabes, já vou no capítulo 4 e ainda estou no dia 1 de Abril de 1973, quando tudo começou...
      Beijinhs

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  5. Nah! A Cátia suspeitou e bem. Como ainda não estavam inventados os cataliazadores,nem direcção assistida, acho que nem servo freio, bastava deixar deslizar o carro e engatá-lo (até uma mulher já sabia isso). desconfio que foi mesmo engate (ou tentativa).
    Ansioso pela continuação.
    Abraço
    Rodrigo

    Nota: espero que algumas amigas não me vão chamar machista, por aquela do "até uma mulher já sabia isso".

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    1. Elementar, meu caro Rodrigo...mas se a Cátia Janine fosse assim lerda de pensamento na barra do tribunal, como se revelou neste episódio, o que ela fez melhor foi mesmo mudar de vida. Como adiante se verá...
      Quanto ao machismo, esteja tranquilo... a leitoras do Cr são todas muito civilizadas.
      Abraço

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  6. Localização no Castelo de Bode ou mais para o lado de Dornes?! :-))

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    1. Mais para o lado de Dornes, Rosa ( aldeia magnífica, aliás, onde em 1974 e 75 vivi momentos épicos)

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