terça-feira, 8 de maio de 2012

Abril: da esperança às trevas (3)- O picnic



Cátia Janine  segue rumo ao seu destino tão orgulhosamente só como o país, tão alheia aos sintomas que prenunciam o fim do Estado Novo, como  Marcelo Caetano em relação às críticas que a comunidade internacional faz a Portugal e à sua política em África. 
Ainda pensara convidar a tia Esmeralda, colo que procurava para desabar os seus desgostos, para lhe fazer companhia, mas naquele dia apetecia-lhe mesmo  estar sozinha. Precisava de decidir algumas coisas em relação ao seu futuro que não antevia muito risonho no escritório de advogados onde trabalhava, acumulando com as aulas que dava como assistente na Faculdade.
Na estrada que liga Ferreira do Zêzere ao Lago Azul, parou num local que lhe pareceu aprazível. Colocou com desvelo sobre a relva  uma toalha branca,  bordada pela mãe, parte do seu enxoval que começava a acreditar nunca partilharia com ninguém. Tirou da cesta de verga uns panados, um pacote de batatas fritas, uma perna de frango, salada de frutas e a garrafa  termos  com o café que preparara antes de sair. Para acompanhar a refeição comprara uma garrafa de  Spur da Canada Dry, uma mistela que o Estado Novo “impingia” aos portugueses como substituto da Coca Cola.
Enquanto trincava sem fome um panado, tirou de entre as páginas do Código de Processo Civil um aerograma. O dia em que o recebia, era  para ela especial. O único contacto íntimo que mantinha, há três meses, e  lhe alimentava a esperança de poder vir a partilhar o futuro com alguém . Fora remetida de Tete, pelo furriel miliciano Luís Brandão da Silva, de quem era madrinha de guerra.  Dentro, vinha uma fotografia, mas Cátia Janine preferiu começar por reler o aerograma  que recebera na sexta-feira.
O furriel falava-lhe  do seu dia a dia na caserna, de alguns exercícios militares, mas não fazia qualquer referência a operações, emboscadas, mortes ou  pilhagens a aldeias. A prosa, escrita com letra cuidada e frases escolhidas de modo a não revelar algo que pudesse desagradar à Censura que as espiolhava, deixava em Cátia Janine a ideia de a vida em Tete ser um quase paraíso , onde o afilhado passava férias à custa do Estado.
Terminada a leitura pegou na fotografia e observou-a meticulosamente. Luís tinha um ar rude, mas simpático. E um sorriso bonito que a cativara. Pouco ou nada sabia dele. Apenas que lhe mantinha, aceso, o sonho de poder vir a casar, ter filhos e ser feliz.
Afastou, irritada, a imagem que lhe passou de Luís a fornicar com pretas, sentiu entranhar-se-lhe na pele o cheiro a catinga e, num impulso, aproximou-se mais da margem, para lavar as mãos.
Neste preciso momento,  se Catia Janine fosse figura de lenda, iria beijar o sapo que se transformaria no soldado de Napoleão  trasladado para o século XX, de que aqui vos falei. No entanto, no mundo real não há fadas madrinhas e não foi isso que aconteceu…

4 comentários:

  1. Uma estória que se continua a ler com gosto e um relembrar da história de Portugal. continuo atento.

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  2. Mas que grande farnel a Cátia Janine levou para comer "orgulhosamente só", Carlos!

    " Tenha a sede que tiver, a gente prefere Canadá Dry".
    Este era o slogan desse refrigerante. :)
    A CJ já está a ter demasiadas semelhanças comigo. Também tive um afilhado de guerra, mas nunca pensei casar com ele...
    Grande suspense! Se não foi o sapo que lhe apareceu e ela beijou - enojada como estava duvido que o fizesse- será que a repugnada jovem caiu à água? Aguardemos...

    Beijinhos.

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  3. Hoje estou com uma raiva medonha, por causa da Grécia, não por os gregos terem votado nos partidos da extrema esquerda ou direita, porque se eu fosse grega também não tinha votado nos partidos governamentais.

    Que raiva que também tenho por não escrever como o Carlos para deitar cá para fora toda a raiva que tenho contra os políticos gregos que protegem os ricaços, enquanto o povo sofre ainda muito mais do que o nosso.

    DESCULPE! DESCULPE! DESCULPE!
    Este comentário tão LOUCO!!!

    Carlos, porque é que o Estado Novo não queria que os portugueses bebessem Coca Cola? Cola é um producto americano e eles foram sempre amigos dos americanos!

    Carlos, porque é que baptizou a pobre com um nome tão piroso?
    Enquanto que o furriel miliciano tem o meu nome preferido: LUÍS!!!

    Também não compreendo porque é que fulana queria casar à força, mesmo com um fulano com ar rude.

    Ando há meses a prometer deixar a blogosfera, mas verdade é, que a minhas visitas aos blogues amigos me ajudam um pouco a superar a minha depressão.

    Abração da amiga de longe.

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