sexta-feira, 27 de abril de 2012

Vozes de Abril (18)






Balada dos Aflitos

Irmãos humanos tão desamparados
a luz que nos guiava já não guia
somos pessoas - dizeis - e não mercados
este por certo não é tempo de poesia
gostaria de vos dar outros recados
com pão e vinho e menos mais valia.


Irmãos meus que passais um mau bocado
e não tendes sequer a fantasia
de sonhar outro tempo e outro lado
como António digo adeus a Alexandria
desconcerto do mundo tão mudado
tão diferente daquilo que se queria.


Talvez Deus esteja a ser crucificado
neste reino onde tudo se avalia
irmãos meus sem valor acrescentado
rogai por nós Senhora da Agonia
irmãos meus a quem tudo é recusado
talvez o poema traga um novo dia.

Rogai por nós Senhora dos Aflitos
em cada dia em terra naufragados
mão invisível nos tem aqui proscritos
em nós mesmos perdidos e cercados
venham por nós os versos nunca escritos
irmãos humanos que não sois mercados.
( Manuel Alegre)

5 comentários:

  1. Ás vezes sou injusta com o Manel.

    Não gosto do homem, mas ADORO O POETA!!!

    ResponderEliminar
  2. A lei das séries existe mesmo, desconhecia o poema e hoje já o encontrei duas vezes...

    Quanto aos pobrezinhos, no meu livro da primeira classe há um texto incrível, pois dá a entender que haver pobres de pedir é tão natural como tomar um copo de água quando se tem sede!!

    Um abraço, amigo meu

    ResponderEliminar
  3. Poema muito belo este, que eu não conhecia. Diz tudo sobre nós - irmãos desamparados.
    Manuel Alegre, tem tomado atitudes que pessoalmente recrimino e não posso dizer que morra de amores por ele, mas como poeta é admirável e gosto muito de toda a sua poesia.
    Boa escolha, Carlos.
    Beijos.

    ResponderEliminar
  4. Coincidência! Também publiquei este poema lá nos meus dois "cantos".

    Jú/sonhadora

    ResponderEliminar
  5. Um bom poema como sempre nos habituou.

    "Rogai por nós Senhora da Agonia
    irmãos meus a quem tudo é recusado"

    Assim se faz ao meu país. Aos pobres a esmola é recusada.

    ResponderEliminar