sexta-feira, 27 de abril de 2012

O Cerco: as nossas vidas davam um filme?


Este não é um post sobre cinema… apenas se alude a um filme para, a partir dele, escrever sobre as nossas vidas num país em crise...




A maioria dos leitores do CR porventura não se lembrará de um filme de António Cunha Telles, de 1970, que foi um sucesso de bilheteira e uma referência incontornável no cinema português.
Chamava-se  o“ O Cerco” e tinha como protagonistas principais Maria Cabral ( uma lindíssima morena a quem não voltei a pôr a vista em cima)  e Ruy de Carvalho.
 Em muito breves palavras, só para enquadrar os leitores na temática do post:  o filme gira à volta de uma jovem da alta burguesia  que seguiu o rumo normal das jovens naquela época: programada  para ser boa mãe, boa esposa e dona de casa, casou-se com um tipo rico. Ao fim de algum tempo, porém, fartou-se, abandonou o marido e foi viver a vida por sua conta e risco.
As coisas não correm bem  - correm mesmo muito mal- Maria começa a sentir dificuldades financeiras  e refugia-se no colo de um tipo com um passado duvidoso. Falinhas mansas, manipulador de corações  com licenciatura obtida em curso nocturno  na universidade do engate, o marmanjo salvador, profissional do contrabando, vai  manipulando aquele corpo a pedir mão de mexer e fazendo render o peixe, mas não dá a Maria aquilo com que se compram os melões. Um dia o tipo aparece morto, Maria é suspeita e vê-se  desorientada e perdida  numa Lisboa hostil . Percebe, então que a sus sede de emancipação  fica cerceada pelo Cerco que Lisboa lhe montou.

Pronto… Já lá vão 1500 caracteres e só agora vou começar!  Se não tiverem paciência para ler até ao fim, voltem amanhã para ler o resto.
Lembrei-me do filme quando li uma notícia no “Expresso” sobre a mobilidade dos portugueses. Andamos menos de transportes públicos, o tráfego nos centros urbanos reduziu-se quase 25%, as auto-estradas estão às moscas, os passeios de fim de semana e as “escapadinhas de 3 dias” sofreram um corte abrupto, os  restaurantes servem menos jantares, os locais de diversão nocturna servem menos copos, a República Dominicana ( e até o Allgarve) ficou mais longe.
Não deixa de ser estranho que na década da mobilidade, os portugueses se vejam cada vez mais encurralados no seu reduto. Na sua cidade, no seu bairro, na sua casa, sentados no sofá a ver televisão. 
Tudo se passou muito rapidamente. Há meia dúzia de anos tínhamos a sensação de que éramos ricos, porque bastava chegar ao banco,  pedir dinheiro e um minuto depois saíamos de lá com o necessário para comprar um carro, casa, ou viajar. 
Fizeram-nos acreditar que aquele dinheiro era emprestado – e um dia pagaríamos a dívida- mas o que descobrimos hoje é que era vendido e não temos dinheiro para  pagar.
Tal como a Maria do filme, quisemo-nos emancipar,  mas acabámos cercados e obrigados a entregar o nosso futuro nas mãos de agiotas que nos seduziram com o crédito barato. Na impossibilidade de matar o contrabandista, fomo-nos refugiando no nosso reduto, até ficarmos restringidos à nossa casa ou, ainda mais grave, a um quarto na casa dos pais, onde fomos obrigados a regressar.  Perdemos os voos e viagens  low cost, e vemos cerceada a mobilidade, factor determinante na evolução de uma sociedade dinâmica.
Pois… Há meia dúzia de anos o nosso futuro era risonho, mas depois veio um coelhinho e comeu-o! Agora estamos cercados e, como a Maria, sem saber o caminho que nos devolva a Liberdade!

4 comentários:

  1. Das dos outros não sei, mas que a minha dava um épico dava:)

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  2. Cercados, desrespeitados, sem presente e sem futuro.

    Responsáveis?!

    Um deserto!

    Abraço.

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  3. Acho que isso se resolvia com uma boa caçada bem organizada...
    fazia-se o cerco... e "prontos"!!

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  4. Muito boa analogia, a do cerco. A emnacipação paga-se cara - por erros nossos e más escolhas e má sorte de cairmos nas garras de canalhas... Excelente.

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