sexta-feira, 16 de março de 2012

Psicologia de Metro


Sento-me e coloco entre as pernas a pequena mala de fim de semana. A mulher sentada à minha frente olha-me de alto a baixo. Pressinto, pelo enrugar do rosto e um ligeiro menear de cabeça, um sinal de reprovação. Olho discretamente para baixo, a ver se tenho a braguilha aberta. Acontece aos melhores, mas comigo está tudo bem. Pego na revista e começo a ler.
Na paragem seguinte entra um jovem. É preto. Caminha ao ritmo da música que ouve no MP3 e generosamente partilha com os restantes passageiros do metro. Senta-se ao lado dela. 
A mulher olha-o uma…duas…três vezes. Cada vez que o olha, os seus lábios em forma de quarto minguante, cujas extremidades apontam em direcção ao baixo ventre encolhem-se, reduzindo o diâmetro  da boca. 
Ela não sabe que a observo, porque finjo ler, protegido pelos óculos escuros. De qualquer modo, nunca saberia o que estou a pensar, enquanto a metro perfura os túneis por onde me conduz ao destino desejado. 
Da primeira vez o olhar dela fixou-se na postura do jovem, sentado sobre uma das pernas, cabeça em constante movimento, para cima e para baixo, ao ritmo da música. Ela não deve ter gostado. Da segunda, fixou-se nos auscultadores de plástico azul e branco. Talvez tenha pensado “ foram comprados na Feira do Relógio. Se fossem giros e de boa qualidade eram gamados”. Da terceira e última vez olhou-o de alto a baixo, levou as mãos aos ouvidos, pressionou-os durante dois segundos com os indicadores, deixou escapar um esgar de desconforto e, ostensivamente, virou-lhe as costas, meneando a cabeça em sinal de reprovação. 
A sua nova posição permite-me observar-lhe melhor o perfil. Lança-me um olhar rápido pelo canto do olho. Talvez esteja a desafiar-me a adivinhar a sua idade. Aceito o desafio.
A base disfarça-lhe o vincado das rugas, mas não os pés de galinha. As sobrancelhas são finas, retocadas a lápis. Tem um ar pesado de quem já viveu muito e a expressão austera de quem está habituada a impor-se. 
Não é advogada, nem juíza. Nada a liga às leis, estou seguro. Aposto que é professora.
Detenho-me no vestuário. Casacão cinzento a  três quartos, assertoado, sobre uma camiseta branca com discretos bordados  que abre discretamente junto ao pescoço, de onde emerge uma écharpe estampada em branco, preto e cinza, animada por pequenos desenhos geométricos debruados a vermelho. A saia é preta e, quando se levantar, vai seguramente tapar-lhe por completo os joelhos. Um gorro de lã fina cobre-lhe os cabelos pintados num tom acobreado. Não usa aliança. Nem anéis.
Remato. De inglês! Penso um pouco melhor. De alemão?

28 comentários:

  1. Alemão, rrss

    mas, meu amigo, francamente...o que tem contra a pobre classe docente? rrss

    Um bom resto de viagem

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  2. ... de matemática ? de portugugês ? tendo em conta os resultados miseráveis dos alunos, é bem provável.

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  3. O Carlos é perseguido pelo fantasma da Angela Merkel por todos os lados, até no Metro.

    A verdadeira Angie, não é professora, mas sim a mulher mais poderosa do mundo; não tem lá muito bom gosto em vestir-se, mas também não tem tão mau gosto como essa mulher do metro.

    Carlos, a mulher alemã, em geral, veste-se com muito bom gosto e, tinha metido logo conversa com o preto; pelo menos, são assim, as minhas familiares e amigas alemães.

    Essa mulher é portuguesa, da classe burguesa, racista e com a mania das classes; do tipo "ficou para tia", mas no verdadeiro sentido da palavra: nada de saber de certos prazeres com ou não conjugais.

    As mulheres alemães são abertas, alegres, divertidas, independentes, livres de preconceitos e, não pintam o cabelo num tom acobreado, não usam saias pretas a tapar-lhe os joelhos.
    Essa mulher é o tipo branco, preto, cinza: uma mulher sem sal nem pimenta.
    Puxa!!!

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  4. Acabo de ler o meu depoimento sobre a Mulher Alemã e, encontrei algumas gralhas, que não me apetece emendar... também não sou professora, sou uma mulher mundana.

    O Carlos devia andar mais a pé, pois tinha mais possibilidades de encontrar mulheres jovens interessantes, caso as haja em Portugal!!!

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  5. Eu sou péssima para adivinhar idades ou profissões. Para ser honesta, tudo o que seja para adivinhar, não é comigo (é por isso que nunca irei ganhar o Euromilhões). Não sou uma pessoa de fazer juízos de valor seja de quem for, mas tenho sempre a ideia de que o povo alemão é austero e sem grande humor. Mas posso estar enganada.E muito!

    Beijinhos,
    Patrícia

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  6. São
    Não tenho nada contra a classe docente, bem pelo contrário, admiro muito quem dedica a sua vida a tentar ensinar qualquer coisa às pestezinhas :-)
    Atenção, também não tenho nada contra as crianças, coitadas,talvez apenas algum parti pris contra os paizinhos que não as sabem educar e pensam que a missão de um prof é dar aos filhos aquilo que eles não sabem dar em casa.

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  7. Ariel
    Não sei não, mas de português não me parece que fosse...

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  8. Sabe que muitas vezes me pego pensando assim e analisando pela indumentária as pessoas.
    Só na praia é mais complicado...mais democrático também.
    Beijinhos

    Lucia

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  9. Ematejoca.
    A minha amiga anda muito distraída...
    1)A senhora em causa era portuguesa, não tenho dúvidas
    2) Nada me move contra as alemãs e, como já aqui escrevi várias vezes, uma das minhas melhores amigas é alemã e já a conheço desde criança. Chama-se Petra, vive na Alemanha e é fã de Lobo Antunes. No entanto, deixe-me que lhe diga que faz uma descrição muito idílica da mulher alemã...
    3)Então aconselha-me a andar a pé? Já se esqueceu da propaganda que eu fiz aqui ao meu podómetro e que caminho oito a dez quilómetros por dia ( quando não é mais)? Ai Teresa, anda muito esquecida mesmo...
    4) Não duvide que há (cada vez mais)portuguesas muito bonitas. Essa história de que as portuguesas vestem todas de preto, têm bigode, medem 1m e 50 e andam sempre com uma trouxa à cabeça já é século passado.
    Não me diga que também pensa que os portugueses são todos baixos e atarracados, usam boina e trazem um burro à arreata! :-)))

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  10. Patrícia
    Eu também sou mauzinho a adivinhar essas coisas, mas às vezes as pessoas atraem-me a atenção, ponho-me a divagar e depois escrevo posts.
    Quanto às alemãs, não faço delas um retrato tão idílico como a Teresa, nem tão negro como a Patrícia, mas realmente o humor não me parece ser o forte delas, não...

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  11. Lúcia:
    Pois, eu na praia também analiso as mulheres por outro prisma. Menos profundo, mas mais estimulante:-) Quer dizer...às vezes!!!

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  12. Tantas e tantas vezes faço esse exercício... e sabe-me bem fazê-lo.

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  13. O Carlos Barbosa de Oliveira a responder hoje aos comentários ?! “Coisa nunca vista”! : )))

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  14. Catarina:
    Realmente é raro ( mas não coisa nunca vista:-)))). Gostaria de o fazer mais vezes, mas o tempo é escasso e por isso, normalmente respondo dos blogs dos comentadores, quando me fazem perguntas.

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  15. MFC
    Eu também, mas normalmente é quando estou sentado numa esplanada e não no Metro.

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  16. Oh Carlos, eu sou professora de Inglês, uso jeans e acessórios hippy chic ou só hippy mesmo :), sou comunicativa e alegre, universalista, sou portuguesa, apelido estrangeiro... ;) Não sou essa, ponto final! LOL

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  17. Professora de alemão para chineses :)
    Abraço

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  18. Gostei dessa psicologia de metro. Do que não gostei foi do comentário da Ematejoca, que no afã comparativo entre as mulheres alemãs e portuguesas se excedeu nos elogios a umas e no(digamos assim) estereotipo das outras. Não há jovens portuguesas bonitas em Portugal?!? Ai, ai, Teresoca, parece que não costumas vir a Portugal passar férias... ;)

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  19. Credo, mãe! Eu sou professora de inglês e não sou nada assim!... E ainda bem! Credo! A imagem que têm das professoras...

    Beijinhos professorais...

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  20. A armadura para se defender, meu caro amigo, não lhe valeu de nada, pois o meu comentário a favor das mulheres alemãs e contra as suas compatriotas feri-o de morte!!!

    Se me dá licença, Carlos, vou responder ao comentário da nossa amiga Teté.

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  21. Está claro, minha cara Teté, que o meu comentário foi excessivo quanto aos elogios às mulheres alemãs (os elogios eram para as minhas amigas alemãs, que são fantásticas!!!) e contra as portuguesas. E que as nossas compatriotas são bonitas também estamos de acordo.
    Como tu sabes, o Carlos e eu estamos sempre como o cão e o gato!!!
    A minha melhor amiga é portuguesa, é mesmo muito bonita, inteligente, independente e sempre ao meu lado para toda a brincadeira quando estou no Porto.
    Verdade é também, que as minhas familiares portuguesas (por afinidade) me acham um pássaro livre, só porque viajo sózinha.
    Estou sempre a ouvir, que nunca fizeram férias sem o marido e os filhos, os sacrifícios que fazem pela família e, o que mais me irrita é a mania dos títulos: nunca falam de ninguém, sem dizer o que a dita pessoa estudou, mesmo que seja a vizinha do lado. São mulheres, que ainda estão agarradas ao sistema antigo, embora sejam relativamente novas.

    Vivam todas as mulheres, sejam elas portuguesas, chinesas ou alemãs!!!

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  22. Fátima
    Certo, mas como eu digo no post esta senhora era old fashioned e já está reformada. A minha análise resulta de uma professora de inglês que eu tive e já ultrapassou os 80 anos. Foi também, claro, uma provocaçãozinha à minha amiga Ematejoca

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  23. Lino
    Bem visto! Não tinha colocado essa hipótese, mas parece-me muito pertinente...

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  24. Teté
    A nossa amiga Ematejoca é muito sensível quando se fala de alemães e da Alemanha. Eu até a compreendo, porque quando alguém me diz mal da Argentina, também reajo como ela. O que não compreendi, realmente, foi o ataque às mulheres portuguesas. Cheguei a pensar que ela já não se considerasse portuguesa, mas depois li a resposta que ela lhe deu e fiquei mais descansado:-)
    As portuguesas estão cada vez mais bonitas, não tenho dúvida nenhuma. Que pena eu não ter menos 30 anitos...

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  25. Graça
    Tenho uma excelente imagem das professoras e muitas amigas ( mas mesmo muitas...) a exercer a profissão. Tenho uma grande consideração por quem dedicou toda a sua vida a ensinar

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  26. Ematejoca:
    Não feriu não, minha querida, mas deu-me uma sugestão para escrever um post onde farei uma revelação que a vai deixar de boca aberta!
    Vamos ver se amanhã tenho tempo para o escrever e publicar num dos próximos dias.

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  27. Bom, também já fiquei mais descansada, Ematejoca! :)

    Vivam as mulheres! Ponto. Final. Parágrafo. :D

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