sábado, 31 de março de 2012

T-shirts para manifs


Desde a manif de 22 de Março, o  ministro da administração interna tem promovido "brainstormings" diários com o pessoal do seu gabinete, no intuito de adoptar medidas que evitem o espancamento de jornalistas em próximas acções de protesto. As ideias têm sido várias, mas o CR está em condições de divulgar aos seus leitores a proposta que Carlos Macedo irá levar a Conselho de Ministros na próxima semana, da autoria de uma estilista especialmente contratada para o efeito.
O CR sabe, ainda, que este croqui reproduzido na imagem já chegou a Belém para apreciação do PR, que pediu a opinião de Maria Silva. A esposa do presidente terá dito- de acordo com uma fonte de Belém que pediu o anonimato:
- " São muito simples... porque é que não pedem a umas alunas da António Arroio para fazer umas t-shirts mais arrojadas?"
Ainda de acordo com a mesma fonte, a mulher de Fernando Lima que estava na altura em Belém a tomar chá  e se apercebeu do incómodo do PR com a gaffe da mulher, sugeriu: 
- "Não me parece que seja necessário, Maria. Porque é que não lhes sugerimos que façam umas iguais à que vocês  me trouxeram da viagem à Capadócia? São tão giras!"
Esta opinião -acolhida por todos com entusiasmo- deverá valer a Fátima Lima a avaliação de Excelente no próximo ano, mas Fernando Lima alvitrou que um modelo  das t-shirts deveria ter a fotografia do Mário Crespo, para ser utilizada pelos apoiantes de Relvas. O ex-assessor de comunicação de Cavaco propôs ainda que a algumas das t-shirts detinadas aos jornalistas fosse acrescentado "Correio da Manhã", para que a polícia saiba que se trata de gente amiga e não deve ser molestada.
Cavaco Silva , numa tentativa de fazer humor, propôs que a polícia de choque  levasse algumas guloseimas para distribuir aos profissionais  do Correio da Manhã, como reconhecimento pelo seu apoio a este governo e ao prefácio do PR no livro "Roteiros", em que desanca em Sócrates, num estilo que fez inveja a Eduardo Dâmaso e Ribeiro Ferreira.

Arte Urbana (5)


A mulher e a publicidade (8)


Este é um dos mais recentes anúncios em que a utilização da  imagem da mulher levantou acesa polémica.
Bem vistas as coisas,a única coisa que mudou num século foi a mensagem, porque a exploração do corpo feminino continua  a ser um dos alvos predilectos dos publicitários

sexta-feira, 30 de março de 2012

O favor

Com a lata típica dos agiotas, Mira Amaral diz que o BIC  fez um grande favor ao Estado, ao comprar o BPN por 40 milhões. É verdade que foi um favor,mas Mira Amaral inverteu os protagnistas
Com a ronha típica dos vendilhões, Passos Coelho defendeu na AR que foi o melhor negócio possível. Já nem pergunto que raio está a fazer um gajo em S. Bento se não consegue vender por mais de 40 milhões um produto em que o Estado investiu 8 mil milhões.Pergunto, outrossim, até quando as privatizações  continuarão a ser belíssimos negócios para alguns e uma ruína para os portugueses.
Ou, por outras palavras, se as futuras privatizações continuarão a ser escandalosos favorecimentos  feitos pelo governo PSD/PP aos grupos compradores.

Um PS muito peculiar

O PS absteve-se na votação na generalidade do Código de Trabalho. Se isso não fosse já vergonha suficiente para um partido que se reclama de esquerda, o líder parlamentar Carlos Zorrinho veio admitir a possibilidade de o PS votar favoravelmente, na votação final global. 
Ainda há quem se admire pelo facto de o PSD continuar à frente nas sondagens?

Direitos Humanos



Duas notícias lidas ontem abalaram ainda mais a minha confiança no concernente ao respeito pelos Direitos Humanos, de que  o Ocidente – e a Europa em particular- se reclamam guardiões exemplares.
Uma relata o comportamento ignóbil da Nato  que condenou à morte dezenas de imigrantes ( ler aqui)
A outra foi divulgada pela Amnistia Internacional e revela  a cumplicidade abjecta  de vários países europeus- onde a maioria dos cidadãos é loirinha e de olhos azuis- com o programa de rendições da CIA
Recolhi este excerto:
 “…há uma terrível falta de vontade política em apurar a verdade. Como pode a UE, que se autorretrata como representante dos direitos humanos, dizer aos outros governos, particularmente aos envolvidos na Primavera Árabe, quão importantes são os direitos humanos, quando se recusa firmemente a investigar a sua alegada cumplicidade em casos de tortura e desaparecimentos?”
Pode ler o resto aqui

quinta-feira, 29 de março de 2012

Works in progress


Apesar de ainda estar em obras, decidi abrir hoje o "On the rocks", com uma crónica que serve simultaneamente de enquadramento e explicação às crónicas futuras.
O modelo final só deverá ficar pronto lá para meados do mês mas no domingo, dia em que publicarei a segunda crónica, talvez já haja novidades. Até lá, agradecia que fizessem as críticas que considerem pertinentes, nomeadamente sobre as cores do fundo e eventuais dificuldades de leitura.
Agradeço, desde já, os vossos contributos e espero que venham a tornar-se clientes desta minha nova aventura blogosférica.  Para lá chegarem, basta seguir o link, obviamente
Muito obrigado também a todos os leitores que já se tornaram  seguidores  do novo blog e me dirigiram palavras de incentivo. Considerem esta primeira crónica como um agradecimento sentido à vossa simpatia.

Estamos no bom caminho

É pelo menos o que nos têm dito à exaustão todos os governantes e afins , cada vez que lhes põem um microfone à frente.
Ontem, ficamos a saber que a emigração já está ao nível dos números estratosféricos registado na década de 60 ( realmente deve ser um alívio para o governo, a quem as pessoas atrapalham). 
Já o relatório da Primavera do Banco de Portugal - anuncia hoje a quase certeza de  mais medidas de austeridade e um aumento brutal no desemprego- não me parece tão favorável a essa perspectiva. Salvo se o governo pensar reduzir ainda mais os subsídios de desemprego e aplicar uma taxa punitiva a quem não tiver garantido um posto de  trabalho. (Ler aqui)

O diário de Passos Coelho


Querido diário

Hoje o dia correu-me bem!
 De manhã  a UE deu-me autorização para oferecer um Banco aos meus amigos angolanos e ainda lhes emprestar 600 milhões a juros que até um sem abrigo pode pagar. Espero que o Cavaco me telefone amanhã a agradecer este favor.
À tarde o Seguro disse que  ia abster-se  na votação do novo Código de Trabalho. Não fiquei surpreendido com o sentido do voto, mas sim com o facto de o Tó Zé se ter imposto e obrigado aquela cambada toda socialista a respeitar o sentido de voto. Temos homem! Nada melhor do que ter um amigo assim a liderar a oposição.
À noite fui à televisão fazer um exame. Ia confiante, porque a examinadora era a mulher do meu amigo Fernando e foi condescendente com as perguntas. Já tinha as respostas todas estudadas, foi canja! Mais fácil do que os exames da 4ª classe, o novo brinquedo do Nuno.
Com este meu ar bem falante ( não tenho culpa de ser bonito e ter este jeito de galanteador que aprendi com os amigos da Porcalhota) e de coelhinho indefeso,  deixei muitos portugueses e portuguesas pelo beicinho. Taditos, ainda acreditam que vão pôr o dente nas amêndoas que ando a amealhar  para distribuir pelos meus amigos. 
Estou tão orgulhoso com a ingenuidade ( a palavra certa era cretinice, mas enfim…) dos portugueses que ainda tenho esperança que eles me peçam para dar um concerto de canto lírico no Coliseu. Seria a realização do meu grande sonho de juventude. Só espero que o meu padrinho não se oponha…
Amanhã vou tentar ensinar o Álvaro a dizer "competitividade". 

A morte saiu à rua

                                                                (1924-2012)

Morreu Millôr Fernandes um polivalente da palavra.  Foi jornalista, escritor, tradutor, poeta, humorista e um lutador contra a ditadura brasileira. Um monstro da literatura e do jornalismo brasileiros que, no meu tempo, qualquer aprendiz de jornalista aprendia a admirar.
Há dias transcrevi aqui um poema dele. Aconselho, a quem não leu, que vá espreitar aqui.

quarta-feira, 28 de março de 2012

A Mulher e a publicidade (7)


Quando não existiam as brigadas anti-tabágicas e os fundamentalistas eram apenas adeptos da bola, este tipo de publicidade era muito bem acolhido socialmente. Vai uma passa?

Lá vamos cantando e rindo...



O ministro  da educação, apontado por muitos como o génio da lâmpada deste governo, decidiu voltar a introduzir o exame da 4ª classe. Não percebo os propósitos nem vantagens de tal medida, mas tenho a certeza que os futuros examinandos terão a tarefa mais facilitada em relação aos exames do meu tempo. Pelo menos já não serão sujeitos a perguntas complexas sobre os caminhos de ferro. No meu tempo tinha de saber os caminhos de ferro e respectivos  ramais de Angola, Moçambique e sei lá mais o quê, conhecimentos que, como devem calcular, me foram de grande utilidade na vida. Hoje essa tarefa está facilitada,  porque  em breve os caminhos de ferro se reduzirão ao eixo- Porto/Lisboa/ Faro, acrescidos dos ramais Sines/Badajoz e Aveiro/Vilar Formoso.
Em História, a tarefa também estará facilitada. Em vez de decorarem os nomes e cognomes dos reis de Portugal, serão apenas obrigados a saber o nome de três aprovados pela nomenclatura laranja:
Pedro, o Salvador
Cavaco, o Bocas
Sócrates, o Traidor


Os grandes heróis da História de Portugal, reescrita pela nomenclatura laranja, serão  também apenas três: Alexandre Soares dos Santos, Ângelo Correia e o Professor Pintelho, também conhecido por Catroga .
Como figuras lendárias da nossa História, os alunos da 4ª classe terão de saber o nome dos amigos de Cavaco: Dias Loureiro, Oliveira e Costa e Duarte Lima.
Na aritmética, a máquina de calcular resolverá os problemas mas, se avariar, os alunos podem consultar o relatório e contas da Madeira utilizado por Alberto João Jardim nos últimos 30 anos.
Já, na geografia, os nomes de rios serão substituídos por barragens, SCUTs  e dependências de bancos.
Não existindo agricultura, nem pescas, por obra e arte de D. Cavaco, os alunos estão desobrigados de saber o que se cultiva em Portugal, para além de cannabis, e aprenderão que os hamburguers  não nascem nas árvores e descendem das vacas.
Não percebo a razão de a nota de exame da 4ª classe vir a contar para a média final, mas a medida parece-me insuficiente para satisfazer os desígnios deste governo cuja ambição, no  concernente ao ensino, é limitar a admissão às Universidades dos filhos de gente com pedigree. Não social, mas económico, o que permitirá a qualquer burgesso com apenas um neurónio obter uma licenciatura, paga com cheques pré datados.
 Pergunto: não seria então muito mais fácil vender os cursos à nascença, em vez de obrigar os filhos dessa gente a arrastar-se penosamente pelos bancos das escolas e universidades, para onde se deslocam em  motoretas de alta cilindrada e carros de espavento? Poupava-se no pagamento aos professores, na construção de escolas e acabava-se a polémica em torno da Parque Escolar. Além disso, na hora do registo, a criança poderia ser logo baptizada com o título académico. Os padres passariam a tratar as crianças não simplesmente por Maria, ou Pedro, mas por drª Maria ou engº Pedro. Quem não tivesse estes títulos, ficava logo segregado à nascença, organizando-se assim a sociedade portuguesa em castas, ao jeito indiano, mas modernaço. A medida até podia ter efeitos retroactivos. pois assim poderia chamar-se ao ministro plenipotenciário deste governo, dr. Miguel Relvas.
Pensando bem, talvez não fosse boa ideia. Como é que sobreviveriam as escolas e universidades  privadas, se não tivessem alunos?
 Viva então o exame da 4ª classe e o genial ministro Crato cujo nome nada tem a ver com o do Prior, porque a sua freguesia é a geração do Estado Novo . 
Esta medida do génio Nuno não é política. É mais uma medida ideológica igual a outras que o  governo prometeu e vai paulatinamente concretizando, sem que os portugueses reajam. Um dia, ao acordar, vão perceber que as filhas que sonharam doutoras vão ser empregadas domésticas e  voltarão a meter cunhas ao contínuo de um secretário , para arranjar um lugarzito numa repartição esconsa de um ministério, ao filho desempregado. 
A bem da Nação!

Porto Sentido

A notícia quase me passava despercebida, mas ainda vou a tempo de me congratular com a escolha da minha cidade do Porto como "Melhor Destino Europeu 2012" 
Ainda há muita gente em Lisboa que não conhece o Porto, ou que diz não gostar da cidade. Talvez esta distinção ajude a repensar melhor uma cidade mal amada por muitos portugueses. Em ano de crise, o destino Porto pode ser  uma excelente alternativa para férias.
Lisboa ficou em 8º lugar.

Lágrima de preta


Encontrei uma preta

que estava a chorar,

pedi-lhe uma lágrima

para a analisar.



Recolhi a lágrima

com todo o cuidado

num tubo de ensaio

bem esterilizado.



Olhei-a de um lado,

do outro e de frente:

tinha um ar de gota

muito transparente.



Mandei vir os ácidos,

as bases e os sais,

as drogas usadas

em casos que tais.



Ensaiei a frio,

experimentei ao lume,

de todas as vezes

deu-me o que é costume:



Nem sinais de negro,

nem vestígios de ódio.

Água (quase tudo)

e cloreto de sódio.
(António Gedeão)

terça-feira, 27 de março de 2012

Memórias do Estado Novo

No meu tempo, a esta espátula que servia para rapar o fundo dos tachos, ou para alisar coberturas de bolos, chamava-se Salazar. Hoje em dia, a geração sub-30 chama-lhe Gaspar. Duas marcas, mas a mesma função.

Pas de nouvelles, bonnes nouvelles?





Regresso a Lisboa ao final da manhã. Ao apear-me na gare do Oriente estranho a brisa que me fustiga o rosto e obriga a vestir um agasalho,  dispensável nos últimos dias de deambulações pelo Norte. Ainda ontem, ao final da tarde, enquanto me dessedentava com um ginger-ale na esplanada do Vianna em Braga, um pull over sem mangas  sobre a camisa aberta era agasalho suficiente. As alterações climáticas estarão a tornar o Norte mais quente do que o Sul, ou será apenas a proximidade do mar que atiça a brisa desagradável?
Apanho o metro para casa e, durante a viagem com transbordo no Saldanha, sinto a falta de notícias. Durante estes dias não li jornais e  apenas por duas vezes liguei o televisor para ver noticiários. Durante pouco tempo pois, quer no domingo quer na segunda-feira, os noticiários estavam tão preenchidos com notícias sobre oconclave  do PSD, que rapidamente me senti convidado a desligar o televisor.
Chegado a casa, vou à Internet. Começo por ler os vossos comentários no CR e no “On the rocks” desde domingo. Sinto-me visivelmente feliz pela vossa presença, pelo  reencontro com  a família virtual que diariamente me acompanha neste espaço e pelas palavras de incentivo para a minha nova aventura blogueira que espero iniciar amanhã.
Passo à leitura da imprensa on line. Começo pelas crónicas em atraso do Ferreira Fernandes e do Manuel António Pina e só depois passo às notícias. 
Algumas despertam a minha atenção e motivam-me a escrever alguns posts. Desde o Cavaco que quer saber tudo sobre a agressão aos foto-jornalistas durante a manif do dia 22 , à repetição de uma votação no congresso do PSD, cujo resultado não agradara a Pedro Passos Coelho, passando pelo golpe chavista de Seguro, que pretende alterar a duração do mandato de secretário geral do PS,  pelos pais indignados que pretendem boicotar os trabalhos de casa dos seus rebentos, ou pela divulgação de dados pessoais de árbitros de futebol na Internet, não falta matéria para uma análise mais ou menos aprofundada, mas reajo com um leve sorriso de indiferença. Logo verei se volto a estes temas...
Reacção diferente tenho ao ler a  morte de um jovem em Lloret del Mar. De imediato recordo este  post que escrevi em Março de 2007 e abandono a leitura dos jornais.
O mundo seria diferente se não tivéssemos jornais, nem televisões, prontas a servir-nos a qualquer hora e em doses  temperadas de exagero e sensacionalismo, as últimas notícias do mundo. Talvez vivêssemos mais tranquilos mas, seguramente, estaríamos mais alheados da realidade que nos cerca. E se o distanciamento da realidade  não me parece nada bom, reconheço que estes dias sem notícias me permitiram desfrutar melhor o lazer que procurei em terras do Norte.   
De qualquer modo, a minha prioridade por agora vai para visitar os vosso blogs de que já sentia saudades.
Até já…

Super Stars de palmo e meio



Nunca embarquei na ideia  de que os jovens de hoje são mais generosos e solidários do que os da minha geração. Trabalho frequentemente com jovens, conheço muitos solidários, como no meu tempo, mas a esmagadora maioria é individualista, egoísta e programada para ser competitiva. 
A competitividade ( quando é que o Álvaro deixará de dizer competividade?) não é inimiga da solidariedade, mas as duas raramente  casam bem. A culpa – se é que ser competitivo é pecado- até nem é dos jovens. É da sociedade que os moldou e da educação que receberam. Em minha opinião, são os pais os grandes responsáveis, por razões que já aqui desenvolvi e não vou agora repetir. 
Lembrei-me desta lenga-lenga, quando há dias vi um programa sobre  promessas do desporto tuga. Impressionou-me ver crianças  entre os 10 e 16 anos que passam seis ,oito, ou dez horas diárias a treinar, com o objectivo-  comum a todas elas - de virem a ser os melhores do mundo, ganharem medalhas, no fundo…  serem famosos e reconhecidos através do sucesso  individual - já que todas as modalidades a que se dedicam são individuais.
À memória vieram-me de imediato críticas que se faziam à romena  Nadia Comanecci – campeã mundial de ginástica aos 14 anos-  e a outras  jovens  super-estrelas da ginástica russa. Era recorrente justificar os seus êxitos com o regime espartano a que eram sujeitas  desde a infância. Ouvi muitas vezes  pessoas  falarem com desdém dos sucessos destas jovens e apontá-las como exemplo da barbaridade  dos regimes comunistas, que roubavam as crianças às famílias, treinavam-nas em unidades militares e as utilizavam como propaganda do regime. Não raras vezes, ouvi também  lamúrias misericordiosas, pelo facto de estas crianças não terem tempo para conviver, o que certamente iria contribuir  para que, chegadas à idade adulta, fossem pessoas desprezíveis.
Ora, o que vi na reportagem foram crianças que dividem a sua vida entre a escola, os estudos em casa e os treinos, que jantam às 10 da noite e se levantam entre as cinco e as seis  da manhã. Sete dias por semana, porque aos fins de semana ou estão a treinar ou a competir. 
Como explicava a repórter, estas crianças – que até são boas alunas-  “não brincam nem podem estar com os amigos, ir a festas ou ao cinema”. Perguntadas sobre o facto de não terem tempo para conviver com crianças da sua idade, nenhuma se manifestou preocupada e todas responderam que terão muitas oportunidades  de ir a festas e ao cinema quando forem adultas. “ o importante é que  faço aquilo que gosto”.
 (Perguntei aos meus botões se estas jovens terão amigas quando forem adultas. Fecharam-se num silêncio comprometedor, mas ao meu cérebro assomaram imagens de Vanessa Fernandes e do seu inexplicado eclipse após os JO de Pequim ).
 E que dizem os pais? Todos se mostram “satisfeitos com as opções dos filhos”  e manifestam apoio às “suas escolhas”. Será porque esperam reflectir neles  sucessos que nunca alcançaram?
Enquanto as câmaras passeavam o seu olhar indiscreto pelas casas, cujas dimensões e decoração me  permitiu classificar como “casas de famílias com rendimento classe média-alta, ou alta” perguntei-me como seria a vida familiar desta gente. 
A  mãe de três raparigas, entusiasmada, deu-me a resposta através da jornalista.
“ Bem, às vezes à hora do jantar lá nos conseguimos encontrar todos  e aos fins de semana, quando  há competições, procuramos acompanhá-las”. 
Antes que eu fizesse algum comentário, ouvi um dos meus botões murmurar  “ Porreiro, pá! Isso é que é uma vidaça!” 
Ao que eu retorqui:
“Como serão estes jovens, moldados para o triunfo em modalidades individuais, onde apostam tudo no desenvolvimento unipessoal, quando chegarem a adultos e se tornarem profissionais?  Não irão reflectir, no seu ambiente de trabalho, o modelo de desenvolvimento psicossocial em que foram criados? Saberão trabalhar em equipa?  Serão chefes cooperativos ou uns tiranetes?   Mas logo a minha atenção se desviou para outro aspecto da questão.  Por que  razão aquilo que tanto se criticava nos regimes comunistas é  agora exibido como  galardão de mérito nas sociedades de modelo ultra-liberal, onde reina o individualismo ?  Será que afinal os regimes colectivistas e individualistas não diferem tanto como pensamos? ”.
Nunca digas desta água não beberei!- ensinou-me a minha mãe, quando eu era catraio.

( em tempo: o propósito deste post era reflectir sobre a solidariedade dos jovens mas, mais uma vez, deixei-me conduzir por outro caminho. Sendo assim, talvez volte ao assunto em breve)

Porque descrês, Mulher?



Porque descrês, mulher, do amor, da vida?
Porque esse Hermon transformas em Calvario?
Porque deixas que, aos poucos, do sudario
Te aperte o seio a dobra humedecida?

Que visão te fugio, que assim perdida
Buscas em vão n'este ermo solitario?
Que signo obscuro de cruel fadario
Te faz trazer a fronte ao chão pendida?

Nenhum! intacto o bem em ti assiste:
Deus, em penhor, te deu a formosura;
Bençãos te manda o céo em cada hora.

E descrês do viver?... E eu, pobre e triste,
Que só no teu olhar leio a ventura,
Se tu descrês, em que hei-de eu crer agora?
( Antero de Quental

segunda-feira, 26 de março de 2012

Pronúncia do Norte (38)

Hoje a Baixinha mandou-me um mail em que dizia:
"No domigo fui a Aveiro. Comi uns belíssimos caralhoses:-))) eh!eh! eh!"
Se eu não soubesse o que era um caralhoz, não sei o que lhe teria respondido... E vocês, sabem o que é um caralhoz?
Se não sabem, vão perguntar aqui ao sr.Barbeiro, que ele explica..

O pequeno polegar




Muitos dos leitores ainda recordarão a história do “ Pequeno Polegar” cujo protagonista, para identificar o caminho de regresso a casa, ia deixando pelo trajecto pequenas pedaços de pão. Se gosta de percorrer o país de automóvel e, como eu, abomina o GPS, o melhor é começara apensar numa técnica que se adapte aos tempos modernos, para não correr o risco de se perder pelos “caminhos de Portugal”

A história ocorreu-me há dias , quando passeando pelo País e em busca de uma determinada localidade, desemboquei num entroncamento e fiquei parado na indecisão de virar à direita ou à esquerda, pela simples razão de que não havia qualquer placa a indicar quais os destinos onde conduzia a estrada, para um ou outro lado.

Estou certo que todos aqueles que como eu, seja por dever profissional, seja pelo simples prazer de descobrir neste País tudo quanto de belo tem para nos oferecer, passa frequentemente "as passas do Algarve" para se não perder. Se a sinalização nas estradas é normalmente deficiente, sendo frequente a necessidade de recurso a um mapa de estradas actualizado, o problema agrava-se quando entramos em algumas cidades.
Começamos, normalmente, por ter dificuldade de acesso aos locais que pretendemos visitar, seja porque não existem placas indicativas, seja porque estão tapadas por viaturas mal estacionadas, ou frondosas árvores por tosquiar. A única certeza que temos quando entramos numa localidade desconhecida ou que não visitamos há muito tempo, é que se existir um centro comercial ou uma grande superfície, estará profusamente assinalada em cada esquina.
Depois da visita, quando pretendemos sair e seguir o nosso destino, vemo-nos "em palpos de aranha" para de lá sair, pela simples razão de não existirem placas informativas dos caminhos a tomar. Ficamos então com a sensação de que os autarcas deste País andam à compita a ver quem consegue prender mais visitantes dentro da sua área de jurisdição. E durante quanto mais tempo isso for conseguido, certamente maior será o “gozo” sentido.
É certo que esta dificuldade  de orientação dentro das localidades, ou para sair delas, permite um contacto mais directo com as populações e o estreitamento de relações   com os habitantes, a quem somos obrigados a pedir informações para sair da teia em que nos envolvemos. Graças a este expediente, podemos também constatar a sua maior ou menor amabilidade e espírito hospitaleiro e fazer até um “estudo sociológico”, mas nem sempre é possível encontrar uma alma caridosa que nos indique "a porta de saída" que pretendemos.
Em Portugal, numa cidade, temos a sensação de que as entidades a quem compete proceder à sinalização estão convencidas que ninguém as visita, não sendo por isso necessário, proceder à colocação de placas informativas.
Diga-se, porém, que  viajar em estradas secundárias é um “inferninho” ainda pior. Percorrer vários quilómetros “às apalpadelas”, sem ter a mínima noção de estarmos no sentido certo é frequente, pura e simplesmente porque é possível atravessar cruzamentos, contornar rotundas ou deparar com bifurcações, sem encontrar um só sinal informativo sobre o destino a seguir.  A inexistência de identificação do número das estradas, naqueles locais, torna inútil o recurso a qualquer mapa e contribui para aumentar a desorientação e irritação dos automobilistas. E todos sabemos que  um condutor irritado terá mais hipóteses de ter um acidente o que, dito por outras palavras, significa que esta incúria informativa ( que, infelizmente, é apanágio de muitas outras áreas de actividade) é também uma das causadoras da sinistralidade em Portugal
 Querer percorrer o País, viajando fora das auto estradas e itinerários principais é uma aventura emocionante, mas deveras arriscada para quem não consegue orientar-se apenas pelo Sol ou pela Estrela Polar.
Como consumidor turista deste País,  cujas belezas não me canso de apreciar e não é possível substituir os autarcas incapazes de lobrigar algo além do seu bairro, lanço um apelo a todas as entidades responsáveis pela orientação dos "caminhos de Portugal": atentem no exemplo dos promotores de centros comerciais, hipermercados , ou projectos imobiliários, que ao longo das estradas vão colocando cartazes anunciando a localização dos seus empreendimentos, e  passem a identificar de forma clara as vias de destino e as portas de saída das localidades deste país. Assim contribuirão para ajudar não só quem gosta de passear pelo país mas também o comércio local.

domingo, 25 de março de 2012

Blog da semana

É, muito provavelmente, um dos mais recentes blogs da nossa blogosfera. O autor promete crónicas diárias e um blog voltado para o lazer e...para o prazer. Conheço-o pessoalmente e creio que vai cumprir, mas o melhor é vocês irem lá ver. Crónicas on the rocks, é o meu blog da semana. E se lá forem ver, vão perceber porquê... 

Bês pelos vês


Conheceram-se no dia 1 de Outubro de 1979. Ficaram sentados lado a lado na primeira aula do liceu. No dia seguinte andavam à briga. Um mês depois, já eram amigos inseparáveis.  Percorreram juntos o caminho até à entrada na Universidade. Partilharam confidências e namoradas. Euforias e tristezas.  Só não partilhavam o mesmo gosto pelos estudos. Vítor era aluno excelente, Valdemar quedava-se pela mediania.  Foi essa diferença que os separou na entrada para a Universidade. Vítor seguiu medicina, Valdemar ficou-se pela enfermagem.
Já na Faculdade, Vítor começou a namorar com Berta. Valdemar com  Beatriz. Eram irmãs.
Casaram-se no mesmo dia.   Um ano depois do casamento, Vítor era pai de uma menina. Poucos meses depois, Valdemar tinha um filho varão. Dois anos depois os papéis inverteram-se.  Os casais encontravam-se quase todos os fins de semana e passavam as férias juntos com os quatro rebentos. Eram dois casais felizes.
Ano passado Valdemar divorciou-se. Em Janeiro, Vítor seguiu-lhe as pisadas. 
O casamento está marcado para o próximo sábado.

Le premier bonheur du jour

Vamos lá a comer a sopinha toda...

No creo en brujas...

Escrevo este post em Lisboa, na noite de quinta-feira, antes de partir para o Norte, onde permanecerei até meio da tarde de segunda Não sei, por isso, se o meu blog continua a vadiar por aí sem dar notícias aos leitores. Sei, porém que o último post actualizado tinha por título "The big mistake", pelo que tenho andado a matutar se  a causa de o CR ter deixado de dar notícias se deve a  um erro por mim cometido, ou se ele pensa que os leitores que visitam o CR estão a cometer um grave erro e a perder tempo.
Espero, sinceramente, que a maioria dos leitores possa ler este post, pois queria  convidar-vos a passar por cá amanhã (domingo). Não só para lerem a Crónica, mas para seguirem um link que vos vou deixar pela noitinha...
Agora só falta que este post pré-agendado não seja publicado. É que eu não acredito em bruxas, "pero que las hay, las hay"
 Em tempo: Vim dar um saltinho aqui ao final da tarde e fui surpreendido com vários comentários de leitores que me informam que os problemas estão resolvidos. Muito obrigado a todos pela informação que, obviamente, me deixou muito satisfeito e aliviado

sexta-feira, 23 de março de 2012

Álvaro e o pastel de Belém




Devo penitenciar-me pelas críticas que aqui tenho feito ao ministro Álvaro. Afinal o homem é um visionário.
Quando toda a gente se riu da rábula do pastel de nata, não percebeu que ele se estava  a referir ao pastel de Belém que se vê na imagem. Haverá hoje algum português no gozo pleno das suas  capacidades mentais, que não deseje a exportação deste pastel de Belém para bem longe? 

Knock, knock! Who's there?



Há certas práticas de vendas agressivas que pareciam estar mais ou menos erradicadas, graças aos múltiplos avisos das entidades competentes. No entanto, fruto da crise e da sensação de que as pessoas já estão  suficientemente avisadas sobre os contos do vigário, essas práticas estão a regressar em força. 
Voltei a ser acordado nas manhãs de sábado com telefonemas onde me convidam a ir levantar um prémio que ganhei num suposto concurso, ou por mero acaso de uma tômbola que escolheu o meu nome como feliz contemplado de um prémio surpresa. 
A minha reacção continua a ser a de sempre. Ou desligo de imediato recomendando para não me voltarem a acordar a um sábado às 10 da madrugada, ou deixo a pessoa do lado de lá da linha falar e quando me pergunta “então a que horas quer vir buscar o seu prémio”, respondo:
“Já acabou a lenga lenga? Então agora deixe-me continuar a dormir"
Tenho-me livrado dos vendedores porta a porta, graças ao sistema  video instalado no meu prédio, que me permite mantê-los à distância e evitar a sua subida até à porta de casa. 
A mesma sorte não teve, porém, a mãe de uma amiga minha, com 85 anos, que comprou uma enciclopédia por 1080€, sem se ter apercebido que assumira um compromisso. O que valeu, foi ter telefonado à filha a contar que tinham estado uns senhores muito simpáticos lá em casa e lhe tinham deixado um presente: uma calculadora que ela não sabia como utilizar, mas que estava convencida a filha muito apreciaria.
A filha percebeu a marosca e conseguiu, in extremis, anular o negócio dentro do prazo legal.
Este caso trouxe-me à memória um outro que já aqui contei, mas penso que a maioria dos meus leitores não terá lido, pois  relatei-o  em 2008, ainda nos primórdios do CR.
Assim sendo, aqui vai de novo, pois trata-se de uma história deliciosa.
Estava o país a ser invadido por uma avassaladora onda de empresas de venda de colchões ortopédicos, a que cada uma juntava as propriedades adequadas aos consumidores que pretendiam iludir. Um casal, de idade já avançada, foi atraído a um desses locais de venda pelos processos já sobejamente conhecidos, mas mantinha-se irredutível em desembolsar uns milhares de euros para comprar o colchão. O vendedor, perspicaz, mas sem sucesso no recurso aos habituais argumentos, invocou um novo: aquele colchão produzia efeitos iguais aos do Viagra!. O casal entreolhou-se, trocou em recato algumas palavras e passado algum tempo decidiu-se. Negócio fechado, a troco de cerca de 3 mil euros a pagar em prestações suaves, com recurso ao crédito. O problema surgiu quando o casal constatou que fora enganado e, invocando o prazo de reflexão de 14 dias, pretendeu anular o negócio!...

Ai, os malandros dos chineses!


Uma crítica recorrente que ouço sobre os chineses é o facto de serem muito fechados na sua comunidade e não fazerem qualquer esforço em falar a nossa língua.
Sempre achei a crítica descabida mas há dias , ao ver o programa " Linha da Frente" sobre a comunidade inglesa a viver no Algarve, senti necessidade de escrever sobre este assunto. Ficou bem visível na reportagem, que  a maioria dos ingleses que vieram viver para o nosso país fazem uma vida à margem da sociedade portuguesa. Estão-se nas tintas para os problemas dos portugueses e pouco lhes dão a ganhar. Os seus consumos diários vão, esmagadoramente, parar aos bolsos de britânicos (ingleses e irlandeses) que têm negócios no Al(l)garve. A vida social desenvolve-se no círculo dos súbditos de Sua Majestade. A maioria-  apesar de alguns viverem em Portugal há duas décadas- não fala português, ou apenas usa a linguagem básica para se desenrascar.
O depoimento de um cidadão inglês, que se exprimiu num português razoável, foi esclarecedor: para quê falar português, se eu vou a qualquer sítio, começo a falar em português e recebo como resposta " pode falar à vontade em inglês" ?
Pois, pois, mas os malandros são os chineses, que têm uma cultura muito diversa da nossa e não raras vezes são alvo de xenofobia, até das instituições públicas portuguesas.

Calçada de Carriche


quinta-feira, 22 de março de 2012

A greve dos indignados

Passei um bocado da tarde a ver televisão. De manhã já tinha auscultado a opinião de algumas pessoas sobre a greve, queria saber o que outras pessoas diziam na televisão. Concentrei-me mais na SIC, onde José Manuel Fernandes debitava uma série de enormidades e proferia, com toda a lata que o caracteriza, um rol de inverdades.
Não vou comentar a prestação do ex-director do “Público” , responsável pela publicação da inventona de Belém, no Verão de 2009. O que me interessava era ouvir as pessoas que, na sua esmagadora maioria, se manifestaram contra a greve- algumas utilizando o insulto aos grevistas que invariavelmente apelidaram de comunistas – e, por arrastamento, contra o Partido Comunista.
Fiquei siderado ao ouvir pessoas que se diziam trabalhadoras, acusarem os grevistas de estarem a arruinar o país e defenderem os sacrifícios impostos pelo governo, “para desenvolver o país”.
Opiniões muito diferentes das que ouvi durante a manhã de pessoas que interpelei nas ruas. A maioria não aderiu à greve, com o argumento (legítimo e compreensível) de que já não aguenta perder um dia de salário. Algumas aderiram à greve metendo um dia de férias. Obviamente que estas pessoas não poderão ser contabilizadas como grevistas, mas foi uma forma de algumas pessoas manifestarem a sua adesão ao protesto promovido pela CGTP.
Pessoalmente, penso que esta greve não terá sido oportuna mas, pelo que ouvi nas televisões esta tarde, a conclusão a que chego é que muitos portugueses merecem bem o governo que escolheram. Também eles acreditam que a caridade e o assistencialismo resolverá os seus problemas, quando o desemprego ou a miséria lhes bater à porta.
Como dizia o meu pai, o problema deste país não está realmente nos governos. Está nos governados.

Com jeito vai, camarada!



Percebes que o mundo mudou, estás desactualizado e não soubeste adaptar-te aos tempos modernos desta democracia faz de conta, quando entras no Pingo Doce e vês um cartaz de Zita Seabra a promover marcas de vinho.
Com jeitinho, um destes dias ainda  vemos a “ comunista arrependida” a fazer publicidade a este precioso néctar.

Negócios em tempo de crise


 A velhota que há 10 anos perdia a camioneta todos os dias e deambulava entre o Saldanha e as Avenidas Novas pedindo a alguém que se apiedasse da sua má sorte, contribuindo com um pequeno óbolo, mudou de ramo. Agora anda no metro a vender pensos rápidos,  enquanto pede a compaixão dos passageiros, porque precisa de aviar uma receita. 
A sua postura também mudou. Já não se dirige aos passantes em surdina, contando a sua história de ir às lagrimas. Fala em voz bem audível, com a sonoridade  das canções de embalar.
Sempre ouvi dizer que a crise é uma boa oportunidade para fazer negócios.  Não percebo nada disso, porque nem em tempo de vacas gordas tive jeito para o negócio mas, pela amostra do caso vertente, estou em crer que deve ser verdade.
Quando é que Vítor Gaspar se lembrará de cobrar IRS aos pedintes de Lisboa? 

Poema melancólico a não sei que mulher


Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão...
( Miguel Torga)

quarta-feira, 21 de março de 2012

A mulher e a publicidade (5)


Hoje seria inimaginável ver uma marca fazer publicidade com uma imagem destas, mas este anúncio não é assim tão antigo como alguns podem pensar...

Coelho com os fusíveis queimados



A EDP queimou os fusíveis de Passos Coelho e destruiu-lhe o esquema. Incapaz de combater o lóbi das energéticas, o PM capitulou e deixou a descoberto, perante todos os portugueses, a sua fraqueza. Já todos perceberam que PPC só é forte perante quem trabalha. Quando tem de enfrentar os interesses dos poderosos capitula e mostra a sua debilidade e incapacidade política.
O maior atestado de incompetência e falta de coragem foi-lhe passado pelo ressabiado Medina Carreira, ao dizer “ os portugueses já perceberam que os sacrifícios não são para todos”.
Imprevidente e impreparado, PPC meteu os dedos na tomada e apanhou um choque eléctrico. Fundiu-se.

Um comboio rumo a Lisboa



Não sei se já vos aconteceu comprar um livro apenas por palpite. A mim acontece-me com alguma frequência, o que já me custou enfiar alguns barretes.
Foi por mero “feelling” que comprei o livro de Pascal Mercier “ Comboio Nocturno para Lisboa”, pois nunca tinha lido nada do autor.
Levei o livro comigo nas férias do verão passado e li-o de um fôlego. Enquanto “fazia  a viagem” , pensava que daria um bom filme e que talvez um realizador um dia pegasse nele e o transpusesse para o cinema.
Foi com surpresa que soube que se iniciaram na segunda-feira as filmagens. Jeremy Irons  será o realizador e, entre o elenco, está Nicolau Breyner – que me parece se coaduna bem com a personagem.
Gostei muito do livro, estou ansioso por ver o filme

Há sempre alguém que resiste...

Nogueira Leite também quer ser excepção.  No Contra-Informação chamavam-lhe Nojeira Leite. Há gente que faz jus ao nome.

Violada


Possuíram-te nas ervas,
Deitada ao comprido
Ou lívida a pé:
Do estupro conservas
O sangue e o gemido
Na morte da fé.

Chegaste a cavalo
Trémula de espanto:
Esperavas levá-lo
Com modos de amor:
O fátum, num canto,
Violento ceifou-te
O púbis em flor:
Dou-te
O acalanto
Mas não há palavras
Para tal horror!

Vem ainda em cós, mulher,
Limpa as tuas lágrimas no meu lenço:
Nem pela dor sequer
Eu te pertenço.

O cavalo fugiu,
Deixou-te em fogo a fralda:
Que malfeliz Roldão
Para tal Alda!
Ao frio, ao frio,
Tinta de ti é a água e sangue o chão.

Ponta Delgada a arder
Do próprio pejo, quis
Em verde converter
O incêndio do teu púbis.

Mulher, não me dês guerra,
Oh trágica enganada:
Tu és a minha terra
Na carne devastada
Como a Ilha queimada.
( Vitorino Nemésio)

terça-feira, 20 de março de 2012

Aviso à navegação

Por razões que desconheço, as actualizações dos meus posts deixaram de estar visíveis nos vossos blogs. Decidi, por isso, partilhá-los no Google +  Twitter e Facebook, até que o problema esteja resolvido.

As notas de que ele gosta são outras...

António Borges sempre gostou de lidar com notas. Porém, ao contrário de Frei Hermano da Câmara, o seu sonho  não foi ser fadista... as notas de que ele gosta não são as da guitarra portuguesa,mas as do banco a cair na sua conta bancária. Vai daí, em vez de se entregar a Cristo, entrega-se a Coelho, Alexandre Soares dos Santos e a todos aqueles que se prontifiquem a engordar-lhe a continha. Um verdadeiro artista, este novo recruta do Pingo Doce que ainda há meia dúzia de meses se demitiu do FMI e já colecciona três empregos de alto rendimento. Quem foi que disse que em Portugal há falta de empregos e os salários são baixos?

Paris/ Lisboa (sem portagens)


Com o lançamento do livro “Caminho Aberto”, António Costa transferiu de Paris para Lisboa a contestação a António José Seguro. O actual líder do PS passou a ser, definitivamente, um líder a prazo. Um alívio para os que exasperam com a inépcia de Seguro e uma dor de cabeça para o quartel da São Caetano à Lapa.

A outra face das Mulheres de Ferro



Em 2006, Ellen Johnson Sirleaf  ficou conhecida no mundo inteiro.Motivo?  Era  a primeira mulher a assumir a presidência de um país africano,  sucedendo  a Charles Taylor, o ditador liberiano julgado pelo TPI por crimes contra a humanidade, da qual fora fervorosa apoiante.
Condenada a 10 anos de prisão – que não chegaria a cumprir-  por críticas ao regime militar,  Ellen teve uma vida profissional ligada a instituições financeiras como o CityBank e dirigiu a delegação africana do PNUD ( Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) . Conhecida no seu país como “ A Dama de Ferro”,  esta liberiana destacou-se pela sua luta em defesa dos direitos das mulheres, o que lhe viria  a valer a atribuição, em 2011, do Prémio Nobel da Paz.
Ellen Sirleaf,  exemplo da defesa dos direitos das mulheres, não tem igual opinião sobre a defesa  dos direitos humanos, que só devem ser aplicados a alguns.
Se houver alguma dignidade, espera-se que o Prémio Nobel lhe seja retirado. Em nome da defesa dos direitos humanos. Na verdade, nunca lhe deveria ter sido atribuído, pois uma pessoa que apoiou um criminoso como Charles Taylor, nunca deveria ter sido galardoada com um Nobel.

AUTOGÉNESE


segunda-feira, 19 de março de 2012

Ele tinha avisado...

Cavaco esteve no último fim de semana  em Trás-os-Montes e por lá  declarou, solene, " a confiança é uma chave que pode abrir uma janela".
Muito prá frentex , o nosso PR! Já vê janelas com fechaduras que, por agora, ainda só existem nas portas...
Um dia destes, quando uma empresa inventar fechaduras para janelas, ele dirá: " Eu já tinha avisado..."

The big mistake



Jean Claude Juncker – presidente do Eurogrupo- chegou à conclusão que a receita aplicada à Grécia foi errada e não resultou, sendo necessário fazer ajustamentos que permitam o crescimento económico.
Também Paul Thomsen – o homem do FMI que andou por cá a conhecer as praias e agora é chefe da missão na Grécia – admitiu,  “olhando para trás”, que as soluções deveriam ter sido diferentes, evitando o aumento de impostos e acelerando a redução da despesa pública.
Ainda há-de chegar o dia em que ambos irão dizer, expressamente, que a redução dos salários foi um erro crasso, porque o efeito imediato dessa medida  foi reduzir o consumo interno e o asfixiar de centenas de pequenas e médias empresa, com o inevitável aumento do desemprego.
Não percebo – mas deve ser problema meu - como é que estes tipos que andaram a estudar em excelentes Universidades, ganham rios de dinheiro e usam a auréola de sábios, não perceberam aquilo que o sr. Casimiro,  dono da mercearia daqui do bairro, ou o sr. Gervásio, proprietário de um restaurante na zona das Avenidas Novas, perceberam em 24 horas, apesar de terem como únicos estudos a quarta classe tirada à pressa.
A esta gente que atravessa a Europa várias vezes ao ano,  viajando em executiva, come em restaurantes de luxo, dorme  em hotéis de cinco estrelas e exibe canudos das melhores universidades, falta-lhe um diploma fundamental: o da escola da vida.
Todas as suas decisões assentam em fórmulas matemáticas, equações complexas, desvios padrões e curvas de Gauss  mas eles não percebem que as regras da vida dos cidadãos se baseiam apenas na contabilidade do DEVE e do HAVER e que foram eles, com toda o seu saber académico que desequilibraram as contas, ao incentivar  o crédito a taxas de juro baixas e o sobreendividamento das famílias. Nessa altura, o seu objectivo era fortalecer os bancos , porque acreditavam que isso seria bom para dinamizar a economia. Se tivessem perguntado ao sr. Casimiro, ele teria de imediato respondido “ não vão por aí, porque isso vai dar merda”. E deu!
O reconhecimento dos erros da troika vem demonstrar também, algo que não devemos esquecer: se Portugal tivesse pedido ajuda mais cedo, já estaríamos na situação da Grécia, o que vem demonstrar que quando PPC , Cavaco,  Medina Carreira, Vítor Gaspar  e os mixordeiros que nos estão a conduzir para o abismo,  dizem que devíamos ter pedido ajuda há mais tempo, estão a cometer o mesmo erro dos sábios da troika e a vender gato por lebre.
 Vítor Gaspar  teria agora oportunidade de corrigir o erro e exigir à troika o reajustamento do programa. O problema é que este governo não está interessado nisso, por uma razão muito simples: a sua política assenta em bases ideológicas que visam promover o empobrecimento dos portugueses e aumentar as desigualdades, favorecendo o capital. Como se viu com os casos da Lusoponte e da EDP, ou no empréstimo sem juros ao BPN vendido ao desbarato e em circinstâncias que até à União Europeia estão a levantar grandes dúvidas.

Mães da Plaza de Mayo em Lisboa

                                                              Foto: Casa da América Latina

Ontem, ao princípio da tarde, telefonaram-me a dizer que no Teatro do Bairro em Lisboa, seria apresentada a peça " Más de Mil Jueves ", que tive a oportunidade de ver representada, em 2001, na Plaza de Mayo.
A peça - que relata a história das mães da Plaza de Mayo- é representada por uma das mães que todas as quintas-feiras se juntam  naquela praça emblemática de Buenos Aires, para reclamar os corpos do seus filhos desaparecidos durante a ditadura argentina.
Num texto enternecedor e comovente, a protagonista relata a história de um filho que lhe foi roubado pelos militares e que nunca mais viu. O seu drama, para além da perda, é não ter uma campa para chorar o filho.
Trata-se de uma bela homenagem às vítimas da ditadura argentina e a essas corajosas mulheres que nunca desistiram e persistem na sua luta para condenar os cafagestes que cometeram atrocidades infames durante aquele período negro da história da Argentina.
Mais informação sobre as Mães da Plaza de Mayo aqui

Dia do Pai



Pai:
Se fosses vivo, terias feito há dias 100 anos. Infelizmente, partiste cedo. Demasiado cedo,quando eu ainda precisava tanto dos teus conselhos e da tua sabedoria. Não tivemos uma relação isenta de discussões e a minha rebeldia irreverente provocou-te algumas lágrimas.   
Não, hoje não venho pedir-te desculpas,  penitenciar-me pelos erros que cometi, ou lamentar que não tivesses sido mais compreensivo em determinados momentos.
 Hoje, só te quero dizer que tenho saudades das nossas passeatas, das férias em praias outrora desconhecidas, da maneira como me deslumbravas quando me explicavas o que devia guardar de cada lugar por onde passávamos, das conversas à mesa sobre História e Geografia, das tuas reprimendas quando não estava sentado à mesa às oito em ponto, da dor que sentiste quando decidi partir.
Na altura, lembrei-te que também o avô deixara o Brasil para vir para a Europa e que anos mais tarde foras tu a atravessar o Atlântico, em sentido inverso, em busca da terra do teu pai. Tentei convencer–te que estava na genética da nossa família renegar o solo onde nasceu e que, além disso, Portugal era demasiado pequeno e mesquinho para mim. ( Vê só, até o meu bisneto  Arturzinho, que ainda não fez um ano, já vai emigrar para o hemisfério, que foi sempre o nosso, no próximo mês de Julho. É genético mesmo, não te parece?
Respondeste que não haveria revolução nenhuma que mudasse as coisas em Portugal, porque o problema não estava nos governantes, mas sim nos governados. 
Hoje vejo que tinhas razão, mas ficarias certamente indignado com a passividade deste povo que nunca amaste, porque como eu sempre tiveste o coração e a mente no hemisfério sul. Nesse aspecto, tivemos o mesmo destino. Não foi lá que fomos felizes como tanto desejámos. Mas algo nos separa. Foi  por cá que ficou o teu corpo, eu espero não deixar cá nem as cinzas.
Talvez te alegre saber que, apesar de ter regressado, continuo a olhar para Portugal como um país mesquinho, onde campeia a inveja, o espírito de capelinha, o corporativismo, a pequena intriga, a maledicência e o boato pérfido. “Isto” é um país de anões com a arrogância de Adamastores, Pai!
Regressei cedo demais, mas agora talvez seja tarde para voltar a partir. Partiste cedo demais e deixáste-me muita coisa para descobrir.
Ah, só mais uma coisa... Quando em breve voltar a Buenos Aires, vou ao Tortoni. Ouvirei contigo "La Cumparsita" e, como sempre faço, pedirei à orquestra que toque o tango que me cantavas quando estava apaixonado.
Como não sei se por aí tens acesso ao You Tube, deixo-te a letra e tu trauteias a música, ok?
Obrigado, Pai. Tenho saudades de ti!

“Dejate de locuras, muchacho,
pensá bien lo que haces.
Me han dicho que te han visto borracho
Llorando por una mujer...
Como el dolor te ha cambiado,
que ya no sos el de ayer!
Volvé pa' la milonga,
que un fuelle rezonga
como llamándote.


Al compás de un tango
la habrás de olvidar,
con una pebeta
que sepa bailar,
una piba buena 
que, al mirar tus ojos,
comprenda la pena
de tu corazón.


Al compás de un tango
habrás de encontrar
esa mujercita
sincera y leal,
y veras, un día,
lleno de alegría
a la que lloraste
ni recordarás.


Dejate de locuras, muchacho,
tenés que reaccionar.
El hombre debe ser de quebracho
pa' resistir el mal.
Si esa mujer te ha hecho daño
perderla ha sido mejor.
Volvé pa' la milonga,
que un fuelle rezonga,
pa' darte más valor.


Al compás de un tango
la habrás de olvidar,
con una pebeta
que sepa bailar,
una piba buena
que, al mirar tus ojos,
comprenda la pena
de tu corazón.


Al compás de un tango
habrás de encontrar
a esa mujercita
sincera y leal,
y veras, un día,
lleno de alegría
a la que lloraste
ni recordarás.”
Letra:Oscar Rubens

Borrar a pintura



Assunção Esteves- pessoa que  prezo e já aqui foi figura da semana- portou-se bastante  mal quando impediu  a ida de Passos Coelho à Comissão de Defesa, para explicar o enredo das secretas.
Na sexta-feira, pelo contrário, foi de grande firmeza e comportou-se de acordo com os valores que lhe conheço. Saiu prestigiada e ganhou  simpatias.
No dia seguinte, porém, voltou ( aparentemente) a estar mal. Quando a imprensa noticiou que ela ameaçara demitir-se se o PSD e o CDS inviabilizassem a Comissão de Inquérito ao BPN proposta pelo PS,  apressou-se a desmentir. Fez mal.  Tanto quanto sei, a notícia é baseada em boas fontes e até lhe é favorável. 
Assunção Esteves será, muito provavelmente, candidata a Belém em 2016. Se começa desde já a entrar na guerra dos desmentidos, só tem a perder. Pessoalmente, lamento, porque preferia ver uma mulher como ela em Belém a ter de suportar o empregado de cafeteria dos Açores que, terminado o cargo em Bruxelas, vai voltar a tentar a sua sorte por cá. Assunção Esteves não se pode dar ao luxo de desperdiçar oportunidades como esta, só para não pôr em xeque os partidos da coligação.

Música e poesia

Poema de José Carlos Ary dos Santos

domingo, 18 de março de 2012

Blog da semana

Penso que, tal como eu, nenhum dos meus leitores gosta de guerras. Mas há sempre uma excepção e desta guerra eu gosto. Guerra Silenciosa é o meu blog da semana

Lonely nights


Na véspera de fazer 40 anos, soube que a fábrica onde trabalhava desde os 20 ia fechar. Antes de regressar a casa deambulou pelas ruas, pensando no que seria o seu futuro. Com aquela idade, sabia que a possibilidade de encontrar um novo emprego seria nula. Tinha apenas o 9º ano, a única coisa que sabia fazer era a tarefa rotineira da lida com a máquina que lhe caíra em sorte e a quem até arranjara um nome: Leopoldina.
Sabia que o marido lhe preparara uma festa surpresa e, por isso, não lhe disse nada sobre o que a atormentava. No dia de aniversário fingiu-se surpreendida e feliz. Esperou pelo fim de semana para dar a notícia. Ele tentou animá-la. Haviam de se arranjar com o salário dele.
Na segunda-feira, quando saiu da  empresa,  foi à agência de viagens. Apesar de saber que todo o dinheiro lhes faria falta, decidiu compensá-la da amargura com a viagem a Paris com que ela sempre sonhara.
Quando chegou a casa, anunciou-lhe que partiriam no sábado seguinte. Ela respondeu com um sorriso triste e enlaçou-o num longo abraço.
Passaram  cinco dias felizes em Paris. Dois dias depois de regressarem ela queixou-se de uma dor na barriga. Nos dias seguintes a dor persistiu. Foram ao médico. Muitas análises  e exames  radiológicos depois, o veredicto: tumor no pâncreas. Seis meses de vida.
O funeral foi na primeira terça-feira de Outubro de 2011.
Ele está agora  sentado, sozinho, na mesa do restaurante onde jantavam todos os sábados. Pede o Balchão de camarão do costume e meia garrafa de vinho. Faz um brinde no ar. Com o café, pede um whiskey. Tira da carteira uma fotografia, onde os dois posam com a Torre Eiffel por fundo. Olha-a durante uns momentos. Beija-a e pousa-a sobre a mesa. Quando termina o whiskey pede a conta. Paga, volta a meter a fotografia na carteira e sai em passo lento, como se carregasse o mundo às costas. Os empregados despedem-se com um “até sábado, senhor engenheiro”.
Ele responde algo imperceptível e desaparece na calçada da rua quase deserta.
“ Coitado, está só à espera da morte, para ir ter com ela”- diz-me o empregado.
Peço um café e um Bushmills e deixo-me transportar até Península Valdez. Da próxima vez, trago a tua fotografia.

Le premier bonheur du jour

Hoje sem mensagem. Deixo o espaço aberto às vossas sugestões para legendar a imagem
Tenham um domingo feliz

sábado, 17 de março de 2012

Noites de cinema

hoje deixo-vos com um video que nos ensina a lição de quem vive com um dólar por dia. É um pouco longo, mas vale mesmo a pena. Ora vejam lá, clicando aqui

Humor fim de semana


Dois alentejanos, zangados há muito tempo, passam um pelo outro, num caminho.
Um deles leva um bovino à frente.
Diz o outro:
- Atão, vais passear o boi?
O outro, muito admirado:
- Atão essa agora, compadre? A gente nã se fala há tanto tempo, e vem agora cá com conversas! Além do mais enganou-se isto nã é um boi, é uma vaca. 
Resposta do primeiro:
- Ê cá nã falê consigo. Foi com a vaca!

Dos cromos da bola...à política dos cromos


Esta semana, algumas personagens ligadas ao futebol devem ter pensado que chegou a altura de equiparar o jogo da bola ao clima social e político que se vive em Portugal. Vai daí, começaram os disparates.

Primeiro episódio: a Liga de Clubes aprovou o alargamento  da I Liga para 18 equipas. Se a decisão de aumentar o número de clubes no primeiro escalão já é uma argolada, o facto de a Assembleia Geral ter decidido que este ano os dois últimos classificados não desceriam à II Liga é uma javardice que falseia a verdade desportiva. Os argumentos invocados pelo presidente Mário Figueiredo - eleito porque prometeu o alargamento- estão ao  nível dos de Miguel Relvas, quando sai a terreiro para defender algumas medidas do governo que prejudicam gravemente os cidadãos portugueses. Empate, pois entre política e desporto.
No prolongamento, o presidente da Federação Portuguesa de Futebol mostrou a Cavaco para que serve um presidente. Em vez de andar a despachar bolas pela linha lateral, pegou na bola, foi por ali fora e decidiu. 
Em vez de   lamentar  a falta de equidade e violações da Constituição, agiu e obrigou a Liga a cumprir a lei. Marcou um golo decisivo, dando a vitória ao desporto sobre a política.

Segundo episódio: um juiz assistente queixa-se de ser alvo de difamação por parte de Jorge Jesus. Em causa estão as afirmações do treinador do SLB por causa da validação do terceiro golo do FC do Porto na Luz.
" Ele viu o fora de jogo... não quis foi assinalar"- afirmou o técnico benfiquista.
Que o golo foi marcado em fora de jogo, ninguém discute. JJ está no seu direito ao afirmar que o árbitro assistente não quis assinalar o fora de jogo, porque é livre de emitir a sua opinião. Não tem é o direito de dizer que não ofendeu o árbitro e argumentar que vivemos em liberdade e por isso pode exprimir livremente a sua opinião.
Infelizmente há muitos portugueses que pensam como JJ e confundem liberdade de expressão e democracia  com irresponsabilidade.  As suas afirmações são tão irresponsáveis como a do secretário de estado Sérgio Monteiro que, para se defender da argolada da Lusoponte, afirmou:
" O governo não pagou duas vezes! A Lusoponte é que recebeu duas vezes"
O argumentário de JJ está, pois,  ao nível do  utilizado pelo secretário de estado. Novo empate, mas desta vez a três. Com  futebol, política e povo a  equipararem-se na argumentação
Azar!Lá se foi a vantagem moral do futebol que sempre argumentou, em sua defesa e para justificar tratamentos de excepção, ser uma das indústrias mais lucrativas do país. Equiparou-se ao primeiro ministro que anunciou ( e negociou com os parceiros sociais) a eliminação de apenas quatro feriados, mas com a manha da gente pouco séria, eliminou pelo caminho as tolerâncias de ponto da terça feira de Carnaval, véspera de Ano Novo e quinta-feira santa.
Valeu ao futebol António José Seguro. É tão trapalhão, que passa vida a marcar golos na própria baliza. Há quem diga que não é  só falta de jeito... há por ali um remorso pela forma como tratou o anterior treinador e o receio de ser substituído antes do fim do jogo.  

Arte Urbana (3)


Gentil Camponesa


Tu és pura e imaculada,
Cheia de graça e beleza;
Tu és a flor minha amada,
És a gentil camponesa.

És tu que não tens maldade,
És tu que tudo mereces,
És, sim, porque desconheces
As podridões da cidade.
Vives aí nessa herdade,
Onde tu foste criada,
Aí vives desviada
Deste viver de ilusão:
És como a rosa em botão,
Tu és pura e imaculada.

És tu que ao romper da aurora
Ouves o cantor alado...
Vestes-te, tratas do gado
Que há-de ir tirar água à nora;
Depois, pelos campos fora,
É grande a tua pureza,
Cantando com singeleza,
O que ainda mais te realça,
Exposta ao sol e descalça,
Cheia de graça e beleza.

Teus lábios nunca pintaste,
És linda sem tal veneno;
Toda tu cheiras a feno
Do campo onde trabalhaste;
És verdadeiro contraste
Com a tal flor delicada
Que só por muito pintada
Nos poderá parecer bela;
Mas tu brilhas mais do que ela,
Tu és a flor minha amada.

Pois se te tenho na mão,
Inda assim acho tão pouco,
Que sinto um desejo louco:
Guardar-te no coração!...
As coisas mais belas são
Como as cria a Natureza,
E tu tens toda a grandeza
Dessa beleza que almejo,
Tens tudo quanto desejo,
És a gentil camponesa

( António Aleixo)

sexta-feira, 16 de março de 2012

Ópera "low cost"



Durante o fim de semana será exibida no teatro S. Luiz uma versão da ópera “La Boheme” em português.  Os preços – entre 13 e 17 euros - são verdadeiramente “low cost” , mas o que leio sobre a promoção do espectáculo  ( ler aqui)  deixa-me  com  a sensação  de que esta versão destinada a “levar a ópera a audiências mais vastas” é muito capaz de ser equivalente àqueles resumos de História de Portugal que os alunos cábulas usavam para estudar à pressa para o exame. 
Visto por outro prisma, porém, a iniciativa deve ser aplaudida, pois pode despertar em muitos o gosto pela ópera e aguçar-lhes a curiosidade para ver o original e até outras óperas. Uma experiência a seguir com atenção.

Psicologia de Metro


Sento-me e coloco entre as pernas a pequena mala de fim de semana. A mulher sentada à minha frente olha-me de alto a baixo. Pressinto, pelo enrugar do rosto e um ligeiro menear de cabeça, um sinal de reprovação. Olho discretamente para baixo, a ver se tenho a braguilha aberta. Acontece aos melhores, mas comigo está tudo bem. Pego na revista e começo a ler.
Na paragem seguinte entra um jovem. É preto. Caminha ao ritmo da música que ouve no MP3 e generosamente partilha com os restantes passageiros do metro. Senta-se ao lado dela. 
A mulher olha-o uma…duas…três vezes. Cada vez que o olha, os seus lábios em forma de quarto minguante, cujas extremidades apontam em direcção ao baixo ventre encolhem-se, reduzindo o diâmetro  da boca. 
Ela não sabe que a observo, porque finjo ler, protegido pelos óculos escuros. De qualquer modo, nunca saberia o que estou a pensar, enquanto a metro perfura os túneis por onde me conduz ao destino desejado. 
Da primeira vez o olhar dela fixou-se na postura do jovem, sentado sobre uma das pernas, cabeça em constante movimento, para cima e para baixo, ao ritmo da música. Ela não deve ter gostado. Da segunda, fixou-se nos auscultadores de plástico azul e branco. Talvez tenha pensado “ foram comprados na Feira do Relógio. Se fossem giros e de boa qualidade eram gamados”. Da terceira e última vez olhou-o de alto a baixo, levou as mãos aos ouvidos, pressionou-os durante dois segundos com os indicadores, deixou escapar um esgar de desconforto e, ostensivamente, virou-lhe as costas, meneando a cabeça em sinal de reprovação. 
A sua nova posição permite-me observar-lhe melhor o perfil. Lança-me um olhar rápido pelo canto do olho. Talvez esteja a desafiar-me a adivinhar a sua idade. Aceito o desafio.
A base disfarça-lhe o vincado das rugas, mas não os pés de galinha. As sobrancelhas são finas, retocadas a lápis. Tem um ar pesado de quem já viveu muito e a expressão austera de quem está habituada a impor-se. 
Não é advogada, nem juíza. Nada a liga às leis, estou seguro. Aposto que é professora.
Detenho-me no vestuário. Casacão cinzento a  três quartos, assertoado, sobre uma camiseta branca com discretos bordados  que abre discretamente junto ao pescoço, de onde emerge uma écharpe estampada em branco, preto e cinza, animada por pequenos desenhos geométricos debruados a vermelho. A saia é preta e, quando se levantar, vai seguramente tapar-lhe por completo os joelhos. Um gorro de lã fina cobre-lhe os cabelos pintados num tom acobreado. Não usa aliança. Nem anéis.
Remato. De inglês! Penso um pouco melhor. De alemão?

Qual é a tua, ó Meo?



Há seis meses que mantenho um contencioso com o Meo. Primeiro as facturas começaram a extraviar-se, porque estranhamente mudaram o meu endereço, para outro que não existe.
Reclamei.  47 minutos depois  desistiram de insistir para que eu passasse a pagar por débito directo na minha conta bancária. Escaldado que estou, recusei  e resignaram-se. Acordámos que a factura  passaria a ser enviada por mail. No mês seguinte , a factura chegou… pelo correio e com o endereço correcto. Este mês recebo um SMS avisando que ainda não pagara a mensalidade. 
Voltei a telefonar.  Disseram-me para pagar pelo multibanco. Isso já eu sabia, mas cadê a facturazinha? Não pago sem factura, tá?
Pausa de sete minutos. A voz volta à linha para confirmar a minha morada. Depois pede o e-mail. OK. Agora espero pela factura e depois pago.
“Não, pague primeiro e nós enviamos a factura depois”
“ Já chegámos à Madeira? Onde é que já se viu isso?”
Mais quatro minutos de espera. Passam a chamada para  outra assistente que me atende com voz de enfado.   Repito a história toda desde o princípio. Começo a irritar-me, porque a cena já dura há seis meses.  
“Pronto, está bem, mas não lhe podemos enviar a factura, temos de enviar uma segunda via”
“Nas tintas! Quero é a factura, nem que seja em quinta via, mas sem factura não pago!”
“Não quer que lhe enviemos antes a factura… quer dizer a segunda via, por mail?”
“ Já tínhamos acordado isso há três meses!”
“ Então envio-lha já”
A conversa decorreu na segunda-feira. Escrevo este post na noite de quinta-feira. Vá a gente fiar-se na celeridade das novas tecnologias...

Ao serviço de Sua Majestade

Não há dúvida... quem sabe, sabe! Tudo indica que este sabe demais e, por isso, é preciso tratá-lo nas palminhas.