Podia prestar-te homenagem colocando aqui uma das tuas canções, mas gosto de quase todas e a escolha seria sempre difícil e talvez injusta. Optei, por isso, por recordar o dia em que te conheci.
Não me lembro exactamente do dia, apenas sei que era um fim de tarde de uma quarta-feira de Inverno ( penso que Fevereiro, pois a Faculdade de Direito estava fechada) de 1970. Estava num “convívio” na Faculdade de Letras, onde as músicas que passavam contribuíam para aproximar os corpos e aprofundar amizades. A determinada altura começou a correr em surdina na sala a mensagem “ O Zeca vem cá tocar ao fim da tarde”.
Pensei, como muitos, que era mais um boato e continuei a dançar. Lembro-me bem quem era a minha companheira no momento em que a “notícia” nos chegou e, devo confessar, estava mais interessado em aprofundar uma relação que se tinha iniciado no sábado anterior, do que em me certificar da veracidade da mensagem que corria. Creio não ter sido o único. Depois de alguns momentos de agitação que foram percorrendo a sala como uma leve brisa, os corpos voltaram a enamorar-se ao ritmo da música ( sim, caros leitores mais jovens… naquele tempo a dança ainda oscilava entre os acelerados ritmos de rock ou twist e o “slow”, género muito apreciado por rapazes e raparigas, quando tinham o par certo).
Já o Sol se escondera, quando um murmúrio voltou a agitar a sala. O Zé Jorge Letria acabara de me confirmar a tua chegada iminente, a música subira de tom e era perceptível a excitação pairando no ar. Lembro-me que houve um longo compasso de espera. Quase toda a gente parou de dançar. Quem tinha par apertava a mão da(o) parceira(o) com mais força, como se esse gesto apressasse a tua chegada. Sabíamos que na sala havia “bufos” e pides. Alguns continuavam a dançar.Tememos, por isso, que não chegasses a entrar. Finalmente chegaste. Sentaste-te sem uma saudação e começaste a cantar, quase em surdina e aparente enfado. No final de cada canção afinavas a guitarra. Sem dizer uma palavra. Saíste de novo em silêncio. Era a primeira vez que te via e tive uma enorme decepção. Achei-te antipático e arrogante.
No final desse ano parti para Inglaterra e só voltei a ver-te depois do 25 de Abril, quando estava a cumprir o serviço militar e participava, um pouco por todo o país, nas denominadas “campanhas de dinamização cultural”.
Estive contigo várias vezes , quando a doença já te corroía o corpo e abafava a voz, mas nunca te minou a esperança. Um dia contei-te a minha reacção na primeira vez em que te vi. Reagiste com um encolher de ombros complacente. Há 25 anos acompanhei-te à tua última morada. Disse-te um último “obrigado” e, meses depois, voltei a partir.
Estejas onde estiveres, Zeca, quero dizer-te que neste momento precisávamos de ti. E do Adriano, do Cília e de todos quantos nos cantaram a revolta- mas também a esperança- durante a “longa noite de trevas”. Vinte e cinco anos depois de teres partido, voltámos a mergulhar no abismo e não temos quem nos desperte e agite. Estamos de braços caídos, acomodados, amorfos,aceitando com resignação a condição de colonizados cada vez mais empobrecido. Se cá estivesses não ias gostar. Reagias e contagiavas-nos. Pronto, está bem, não encolhas os ombros. Eu sei que tens razão. Este povo agora só acorda com canções dos Deolinda. Também há quem lhes chame cantores de intervenção, sabes? Coitados... que parvos que são, Zeca!

Faz hoje 25 anos que partiu, mas deixou muitas saudades. E não será esquecido tão depressa, que ainda vive nas memórias de todos nós! E na sua música! :)
ResponderEliminarZeca is forever!
"que parvos que são Zeca"!! A falta que nos fazes!
ResponderEliminarCaro Carlos barbosa de Oliveira.
ResponderEliminarJá uma vez lhe disse que os seus textos já me fizeram rir, mas também chorar. Este é daqueles que me embaciam o monitor. Não é só por recordar o Zeca, mas também pelo que escreveu na parte final.
Hoje vai um abraço dos grandes.
Rodrigo
Na verdade
ResponderEliminarmaior que o pensamento
Emocionante...
ResponderEliminarAdorei o post.
Beijos.
Uma bela homenagem!
ResponderEliminarAbraço
Pelos vistos fui eu a única pessoa que não mencionou o Zé Afonso no blogue, embora o tenha conhecido numa festa da Uni e, cantado:
ResponderEliminarGrândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
É já hora de ir para a rua gritar!
ResponderEliminarLembremos um homem inteiro
Grande texto. O parágrafo final é fabuloso. Um abraço de Aveiro, terra que viu o José Afonso nascer
ResponderEliminarComovida, só posso dizer que também o recoredi hoje - como sempre. Mas não com essa mestria de texto.
ResponderEliminarUm abraço enorme , Carlos, ---aos dois
Carlos.
ResponderEliminarSe eu tivesse de falar, para te dizer que esta tua mensagem ao Zeca Afonso é das homenagens mais comoventes que alguma vez li, não conseguiria. A voz sair-me-ia embargada de emoção.
Carlos Barbosa de Oliveira, tu não poupas duras críticas a todos os cretinos que nos andam a destruir, mas tens uma alma linda e um grande coração.
Pronto, já estou a chorar.
Um grande beijo, Carlos.
Nem imaginas o orgulho que sinto em te ter como Amigo!
Meu amigo, um texto íntimo e comovente de alguém que escreve com a alma e a dor da saudade.
ResponderEliminarZeca Afonso faz-nos tanta falta!
Obrigada por este momento.
beijinhos
"Mesmo na noite mais triste /em tempo de servidão/há sempre alguem que resiste/há sempre alguém que diz não!" Será que ainda é assim, Carlos? Será que, nesta dita democracia, podemos encontrar ainda quem resista, da mesma forma como se fez no tempo da ditadura? É com uma grande frustação que verifico que já não há "Zecas" como antigamente. Um bom fim de semana.
ResponderEliminarA lembrança ultrapassa barreiras nacionais e o tempo.
ResponderEliminarLá se vão 25 anos sem ele!
A melhor homenagem é continuar a ouvi-lo, Carlos.
ResponderEliminarNada melhor que isso
Sim, faz-nos falta. Muita falta mesmo.
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