sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Da mobilidade e dos caramelos Vaquinha


Aviso prévio: Este post foi escrito com o propósito de elogiar uma medida do governo.
Já fecharam a boca? 
Então, fiquem a saber que acaba mal. Apesar de me ter esforçado, não consegui provar a bondade do governo com a medida anunciada. Ora leiam lá…

Sempre fui a favor da mobilidade dos funcionários públicos. Defendi, inclusivamente, que todos os técnicos da função pública, antes de serem admitidos, deveriam fazer um estágio de um ano no interior em duas zonas diferentes do país. Penso que um funcionário público – especialmente na área técnica- que passe a vida encerrado num gabinete em Lisboa não pode cumprir cabalmente a sua missão ( que sempre entendi no sentido anglo-saxónico de civil servant). 
A minha convicção não assenta apenas em teoria. Levei-a à prática  quando decidi abandonar o privado e experimentar a função pública, disposto a vestir a camisola. Vivi três meses  nos distritos de Évora, Beja, Portalegre e Castelo Branco  e, ainda que por períodos mais curtos, também em Vila Real,  Leiria e Santarém.  
Nesse tempo não havia auto-estradas, chegar de Castelo Branco ou Vila Real a Lisboa não era fácil e muita gente me chamava maluco, por eu andar feliz da vida. Devo dizer-vos que foi um período muito enriquecedor. Conheci o país para além das fronteiras de Lisboa e Porto, vi o pulsar do interior, aprendi a compreender os problemas de quem vive longe dos centros de decisão.
Estávamos no dealbar do "cavaquismo" quando percebi que a função pública se enquistava cada vez mais nas refregas partidárias, os dirigentes eram nomeados por acordo tácito do Centrão, a preocupação de grande parte dos dirigentes era servir-se dos organismo para progredir na hierarquia do partido e os interesses das pessoas ficava cada vez mais para segundo plano. Voltei a emigrar e o regresso a Portugal  só se deu quando acreditei que o "cavaquismo" estava definitivamente enterrado.
Abracei com paixão um projecto editorial e voltei à minha vida de andarilho pelo país. Encontrei um país mais curto, por força das auto-estradas que então se tinham construído. Embora a minha base fosse Lisboa,  percorria todos os meses milhares de quilómetros pelo país( ainda o continuo a fazer, mas agora com muito menos frequência). Percebi que o interior tinha mudado muito, que em diversas cidades do país se tem mais qualidade de vida do que em Lisboa e no Porto e constatei que as pessoas tinham uma mentalidade diferente.  Nem sempre melhor-  diga-se- porque a melhoria da qualidade de vida não significa obrigatoriamente melhores pessoas.
Bem, mas adiante… porque o propósito deste post é dizer-vos que quando ouvi o governo dizer que pretendia promover a mobilidade dos funcionários públicos quase me apeteceu aplaudir. Pensei, ingenuamente, que fosse criar incentivos para eles se deslocarem para o interior. 
Quando um indigente crescido à sombra das jotinhas ousa afirmar “quem não está bem, mude-se!” percebe-se que o objectivo deste governo não é incentivar nada nem ninguém. Nem sequer devolver aos serviços públicos a missão de satisfazerem os interesses das pessoas. É, apenas, promover o despedimento de forma encapotada. Já devia ter percebido isso, sem necessidade de ouvir as explicações de um imbecil, mas às vezes continuo a ser um ingénuo.

9 comentários:

  1. Ao contrário do Carlos, nunca considerei a mobilidade de profissionais muito salutar. Aliás, mais fonte de preocupações várias do que de outra coisa, embora reconheça que não se ficar unicamente a trabalhar em Lisboa ou Porto dá uma maior e melhor noção do país real.

    Quanto ao caramelo, é evidente que está ansioso por protagonismo. Pior, é que lho dão... :S

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  2. Há gente muito ignorante e este é um deles...Eu já estou aposentada , mesmo assim , quem nos acode ?!.
    M.A.A.

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  3. Carlos
    "Quem não está bem mude-se". Tudo dito. A questão é que quem não está bem são esses "caramelos" e acho que está na hora de se começar a pensar em mudá-los.
    A grande questão é se temos força para isso, antes que isto fique tudo de pantanas.
    Abraço
    Rodrigo

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  4. Dizes bem "caramelo" ou camelo, perdendo uma sílaba!
    Quanto à mobilidade teria as suas vantagens mas para todos os profissionais, começando nos médicos que fogem do interior como o diabo da cruz...
    Mas não nos moldes que esta criatura apresenta!

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  5. Presenteiem-me com um rechonchudo vencimento mensal igual aos detentores de cargos políticos, às subvenções consignadas: abonos para despesas de representação, ajudas de custo e demais abonos complementares ou extraordinários, mordomias e regalias previstas na lei, eu me mobilizo.

    Arghhh, que caramelo mais amargo...

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  6. Sou a favor da mobilidade e como o Carlos refere também disso fiz lema. Na função pública passei por várias zonas do país: Coimbra, Paços de Ferreira, - sou natural de Freamunde – Guimarães, Felgueiras, novamente Paços de Ferreira, Funchal e novamente Paços de Ferreira. Convém acrescentar que prestava serviço no Ministério da Justiça, Serviços Prisionais, do Corpo de Guardas, e todas estas movimentações foram a meu pedido, exceptuando a primeira, que foi onde tomei posse como Guarda Prisional.
    Mais tarde quando fui promovido a Subchefe, depois de efectuado o concurso e seu estágio, ia haver movimentações de outros subchefes há mais tempo na categoria, pedi para ser colocado em Guimarães, - o subchefe de Guimarães ia ser transferido a seu pedido - por que entendo que deve de haver a mobilidade por várias razões: bastante tempo no local, confiança com colegas e superiores, etecetera e etecetera.
    Como disse sou a favor que o governo pratique a mobilidade para acabar com um certo número de coisa mas, para isso tem que dar contrapartidas: subsídio de renda de casa, de transporte e outras coisas mais.
    Por todos os lugares que passei adquiri conhecimentos tanto a nível profissional como local. Tive como lema, uma média de seis anos em cada lugar e cheguei à conclusão - já o previa - que se lucra com isso, não me refiro ao aspecto monetário, mas sim profissional.
    Agora quando é por represália com os funcionários públicos, que se mudem eles – deputados e AR – de ano a ano pelas várias cidades de Portugal. Assim certamente não eram tão apelativos como esse caramelo que se dá pelo nome de João Almeida.

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  7. Olá! O meu novo blog está aqui: http://petitpain-auchocolat.blogspot.com/

    (só agora vi o comentário, peço desculpa.

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  8. Mas claro que concordo com a mobilidade.
    Fiz parte dela (parte da minha carreira foi feita longe de casa) mas para isso recebia ajudas de custo e pagavam-me o alojamento, já não me pagavam as malas destruídas por excessos de viagens, as roupas gastas e perdidas em lavandarias de pensões e hoteis, o não me recordar do meu filho dos três aos onze anos, o chegar a casa às tantas da nite de tantas sextas para sair a meio da tarde de outros tantos domingos, etc.
    Aguentei essa mobilidade, pois apostava numa carreira e gostava do que fazia.
    Agora imporem tudo isso e dizer que não pagam mais nada por isso é apenas caciquismo e falta de respeito por quem tyrabalha.

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  9. Também fui durante alguns anos "mobilizada" na FP mas sem nenhum subsídio. Issso era coisa que não se usava, não se usa e não se usará nos professores. Corria-se o país de norte a sul, de este a oeste, ia-se parar "onde Judas perdeu as botas" e as despesas "extras" ficavam sempre por nossa conta. Mas já "quase" toda a gente entendeu que esta "mobilidade" é o despedimento encapotado: duma forma ou de outra, ás claras ou de forma encapotada acabarão por conseguir despedir ou forçar o auto despedimento de funcionários públicos. Acho que está na hora de os despedirmos a eles, com justa causa, por inadaptação ao cargo, sem direito a indemnização e com um bilhete de avião (em lowcost, Carlos, em lowcost e, se possível, na parte de fora do avião) para bem longe daqui!

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