quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Mais vale tarde do que nunca?


Estávamos sentados numa esplanada em Sidney, cosendo as horas até à partida para o aeroporto, com conversa de chacha e umas garrafas de vinho. Entre o esvaziar de uma garrafa e a chegada da seguinte, Enrique acendeu um charuto com desvelo e anunciou solenemente, sincopando as sílabas :
- De-pois des-te, nun-ca mais fu-mo!
Todos o olhámos incrédulos. Como era possível um homem habituado a fumar cinco ou seis charutos diariamente - a que ainda juntava um maço de cigarros, ou mais- anunciar, com aparente naturalidade, que não voltaria a fumar?
Marcella interrompeu o silêncio e perguntou:
- Quantos anos tens Enrique?
- Faço 65 daqui a duas semanas!
- Achas que vale a pena deixares esse prazer com essa idade?-perguntei. Que pensas ganhar com isso?
- Ora aí está uma boa pergunta que fiz dezenas de vezes a mim mesmo antes de tomar a decisão. Como quero morrer? Com falta de ar, ou com ataque cardíaco? Cheguei à conclusão que se deixar de fumar tenho mais possibilidades de morrer de ataque cardíaco, do que ligado a um ventilador. Por isso, escolhi deixar de fumar.
Passaram quatro anos. Enrique nunca mais fumou. Na segunda feira falei com ele, para acertar pormenores sobre um trabalho que decidimos fazer em Junho, no Rio de Janeiro, no âmbito da Cimeira Rio+ 20.
Esta manhã, o telefone tocou cedo. Era a Laura a dizer-me que Enrique morreu ontem à noite, na varanda da  sua casa de Viña del Mar. Com um ataque cardíaco… 

10 comentários:

  1. Carlos querido

    Ruim perder amigos queridos.
    A vida e a morte são feitas de escolhas.
    Beijinho saudoso

    Lucia

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  2. Morreu como desejava! Mas nem por isso a notícia é melhor... Lamento a morte do seu amigo!

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  3. Lamento pelo seu amigo, Carlos. Mas sobre o tabaco acho que tomou a decisão correta. Eu fumei 34 anos seguidos e tomei a mesma decisão há cinco anos. Não sei do que quero morrer, se calhar preferia até não morrer, sei lá, mas deixar de fumar deu-me uma qualidade de vida que só quem experimenta fazê-lo o entende. Quanto à sua forma de nos dar esta notícia é como sempre magistral por quem sabe escrever tão bem. Um abraço.

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  4. Deixei de fumar dia 23 de Agosto de 2010...fumei 46 anos ...e muito; não volto a fumar, mas , nem sou mais feliz por isso.
    Ganhei alguma liberdade, não estou preocupada se tenho cigarros ou não em casa.Vou ter cancro na laringe ?! É o que menos me importa....M.A.A.

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  5. Amigo Carlos:
    A morte de um amigo é sempre triste independentemente de como aconteceu, mas como foi como ele escolheu resta essa consolação.

    beijinhos

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  6. Lamento pelo seu amigo, ainda em idade produtiva, infelizmente a vida é mesmo assim… abraço

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  7. Antes de mais, os meus pêsames pelo falecimento do amigo.
    Mas a decisão de deixar de fumar foi uma boa decisão (deixei em Maio de 2008 e nunca mais lhe toco!!)

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  8. Pelo menos morreu como queria...tabus à parte, eu queria morrer dormindo.
    Imagino que aonde estiver, seu amigo esteja, no mínimo, mais conformado que a grande maioria.

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  9. Morrer é o que mais temos de garantido, ao menos que nos deixem escolher!

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