segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Ela sabe do que fala...

"O modelo conservador que levou nosso país à estagnação, à perda de espaço democrático e soberano, aprofundando a pobreza, o desemprego e a exclusão hoje está sendo proposto novamente para a Europa"
Estas palavras foram proferidas por Dilma Roussef durante o Forum Social Mundial.( Ela também não vai com a cantilena de Davos). 
A cabrinha alemã - interessada em fomentar uma guerra na Europa para a dominar - e o coelhinho aldrabão, que lhe anda sempre a lamber a cueca, não prestaram atenção, porque ela anda a experimentar os Panzer e ele a pedir-lhe encarecidamente ser nomeado cônsul da Lusolândia.

O meu país inventado*


Nas últimas noites sonhei que os jornais acabaram e as notícias passaram a circular apenas via mail.
Ao fim de três noites, cheguei à conclusão que só saber notícias esporadicamente, através de e-mail, tem as suas vantagens. A partir de determinada altura passamos a perceber  que não são verdadeiras, mas sim conteúdos produzidos numa qualquer agência humorística ao estilo “5 para a meia-noite”, ou similar, com o objectivo de nos fazerem rir.
Assim se compreende, por exemplo, um mail sobre  os delírios do Álvaro acerca do franchising dos pastéis de nata e dos frangos de churrasco. A piada nem é nova, mas não deixei de dar uma bela gargalhada, como acontece quando leio algumas anedotas por vezes  com barbas, mas de que já me esquecera.
Há dias recebi  uma história de muito mau gosto, respeitante  a Cavaco. Lembro-me de ele ter criticado o corte nos subsídios de Natal e de férias, por considerar que eram contra a equidade e a ética social e, salvo erro, até considerou isso inconstitucional. Não posso deixar de me insurgir, por isso , contra  o autor de um mail que recebi no sonho de ontem, onde se dizia que Cavaco tinha deixado de fazer críticas, porque iria receber esses subsídios.  Estes mails pondo em xeque a figura de Cavaco revelam intolerável má-fé. Alguém acredita que o PR fosse capaz de receber  esses subsídios, sabendo que seria uma iniquidade? Francamente….
Ainda em relação ao PR um outro mail dizia que o homem de Boliqueime teve um deslize. Não me digam que largou uma bufa na reunião com a Merkel! Mas se foi isso também não terá havido grande problema, porque a mulher cheira mal que tresanda...
Mais piada têm outros dois mails sobre nomeações de bois do PSD e do CDS. Um deles diz respeito às nomeações para a EDP. Aqui já devo parabenizar os autores  pela sua criatividade. Nunca me passaria pela cabeça  tentar convencer alguém que  Eduardo Catroga, o Senhor dos Pintelhos, tinha sido nomeado pelos chineses para a EDP!  Sabem o que respondi a quem me enviou este mail? Só se fosse  para ligar os interruptores, porque o homem já está senil. Não tanto como o Rocha Vieira, ex-governador de Macau, igualmente incluído neste rol de nomeações com nomes absurdos, mas que me provocaram uma boa gargalhada. O Rocha Vieira na EDP? Essa é mesmo boa, malta!
Igualmente hilariante é o que me informa que um presidente de câmara do PSD, com um calote à Águas de Portugal, foi nomeado para presidente do Conselho de Administração  da empresa a quem não pagou! Apesar de inverosímil - uma nomeação dessas seria  equivalente a nomear  Oliveira e Costa ou Dias Loureiro  para governador do Banco de Portugal, ou Vale e Azevedo para o Supremo Tribunal de Justiça - a piada é impagável.
No âmbito do humor negro, está aquele mail em que se garante que a Segurança Social enviou 34 mil cartas a mortos, pedindo-lhes a devolução de dinheiro abusivamente recebido. Só faltou ao autor desta piada  infeliz  dizer que lhes estavam a pedir o reembolso do subsídio de funeral!
Com menos piada, mas igualmente inverosímeis, são os mails que visam denegrir Braga de Macedo. Um homem tão respeitável e com um curriculum invejável não ia sujar-se para pagar a promoção da filha com dinheiros públicos. Os mochos são animais decentes, porra!
Também não acredito nessa treta de que  a madama  Catherine Monteiro de Barros deu o golpe do baú, provocando a explosão da  central nuclear Papo d’Anjo com quatro milhões de dívidas. Gente séria e com pedigree não se comportaria assim. Os pobres é que são caloteiros, ómessa!
Mas, para além destes mails humorísticos, recebi um outro que tem toda a credibilidade e é merecedor dos meus mais fartos aplausos: António Barreto, numa demonstração de coerência que só o enaltece, demitiu-se da Fundação Manuel do Santos, alegando não poder pactuar com a deslocalização do Pingo Doce para a Holanda, por ( passo a citar)  “isso ferir  no meu âmago a ética e a postura de civismo e urbanidade por que sempre pautei a minha vida, em defesa dos supremos interesses do meu país, os quais me recuso a renegar".   É de homem! O grande mentor da destruição da Reforma Agrária penitencia-se assim da fraude que foi enquanto ministro da agricultura. Parabéns, António Barreto! (E agora não me venham dizer que este mail é aldrabice, está bem?)
Estranho é constatar, nestas deambulações oníricas a inexistência de notícias do governo do meu país, o que  me leva a pensar que o Coelho também emigrou a reboque do Portas e já arranjou um tacho ao lado do Barroso. Estará Portugal a ser agora governado por uma trupe circense, dirigida por  Relvas y sus muchachos? Deve ser isso… afinal o Francisco José Viegas que foi secretário de estado da cultura e passou a assessor do Coelho depois de ter acabado de vez com a cultura, tem perfil para exercer como palhaço e o Portas  fica bem  no gabinete da Popota que, segundo me disseram noutro e-mail, agora é directora do jornal Metro! Por este andar, o Carlos Abreu Amorim ainda acaba como ministro da Informação e Propaganda.
Esperem aí, acabo agora mesmo de receber outro mail, dizendo que o Mozart está em S. Bento! Isto está tudo doido, meus amigos. Não tarda nada, ainda recebo um mail com o Mozart de avental, a preparar um estufado de coelho na cozinha de Belém!
Passem bem e continuem a ser felizes. Recomendações ao Boca de Brioche  e salvem a Madeira. Se o caruncho quer a independência, façam uma manif de apoio.

*Título roubado a Isabel Allende

domingo, 29 de janeiro de 2012

Adivinha cinéfila


De que filmes são as imagens do cartaz de promoção da cerimónia de entrega dos Óscares 2012? Eu, como sou muito mau nestas coisas só identifiquei cinco e depois tive de ir ver a cábula, mas há leitores do CR que não vão falhar uma! ( clicar na imagem para aumentar).

sábado, 28 de janeiro de 2012

Cambada!

Enquanto lia notícias sobre o inqualificável comportamento do comandante do Costa Concordia, lembrei-me do caso português. Quando daqui a um ou dois anos Portugal estiver na merda,  os primeiros a saltar fora do barco serão os comandantes Coelho e Portas. Alegando a importância de representar o país em instituições internacionais, seguirão o exemplo de Durão Barroso. Vão usufruir altos salários enquanto nos deixam à míngua. Os portugueses continuarão, ordeiramente, a aceitar que lhes ponham a canga. 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Hotel Bauen: Yes, we can!



Na Avenida Callao, bem no centro de Buenos Aires, fica o emblemático  Hotel Bauen.  Para a maioria dos que por lá passam, o Bauen é apenas mais um hotel e poucos conhecerão  a sua história, mas vale a pena contá-la….
Inaugurado em 1978, com o objectivo de  acolher adeptos endinheirados durante o  Mundial de Futebol, o Hotel Bauen foi construído com um generoso apoio do governo militar que concedeu ao seu proprietário um empréstimo de 40 milhões de dólares.  O sucesso do hotel foi enorme e, em poucos anos,  o empresário argentino Marcelo Yourkovich construiu, com os lucros do  Bauen um outro hotel em Búzios, no Brasil, mas nunca pagou na totalidade o empréstimo  que lhe fora concedido. O caso arrastou-se pelos tribunais argentinos e em Dezembro de 2001, durante o Corralito,  o Bauen fechou as suas portas lançando 200 trabalhadores para o desemprego. Nessa altura era já um hotel envelhecido e  decadente e o seu proprietário não via qualquer viabilidade de recuperação.
Um ano depois, quando o proprietário começou a vender os móveis e equipamentos do hotel, cerca de meia  centena de antigos trabalhadores ocuparam o hotel dia e noite. O seu único objectivo, numa altura em que a taxa de desemprego na Argentina ultrapassava os 20 por cento,  era recuperar os postos de trabalhos perdidos, de forma a garantirem o sustento das suas famílias. Por isso entraram de imediato em contacto com o Movimiento Nacional de Empresas Recuperadas, organização de apoio a trabalhadores que pretendam recuperar empresas falidas.
Organizados numa cooperativa, os trabalhadores promoveram vários eventos culturais para angariação de fundos. A resposta dos porteños  a essas iniciativas foi entusiástica e as receitas obtidas  permitiu  fazer obras de  recuperação  e modernização de  200 quartos do hotel e de algumas das partes comuns. 
Em 2005, com o hotel em plena recuperação, os trabalhadores  foram informados que o Bauen iria ser encerrado, porque o proprietário e seus herdeiros reclamavam a posse do edifício entretanto totalmente remodelado e modernizado. A ordem nunca foi cumprida e seis meses depois uma juíza reconhecia à cooperativa entretanto criada, o direito a explorar o negócio, embora permanecesse o diferendo sobre a posse do edifício. Enquanto os herdeiros reclamam a posse do edifício, os trabalhadores lembram que, uma vez que a dívida ao Banco Nacional da argentina não foi paga pelo proprietário do Bauen, este é propriedade  do governo.
Hoje em dia, o Bauen é um hotel emblemático de Buenos Aires, tendo recuperado o seu prestígio e a sua viabilidade económica e financeira,  mas só em Junho de 2011 o Senado anunciou a aprovação de legislação que irá permitir aos trabalhadores, organizados em cooperativas, tornarem-se proprietários de empresas falidas e insolventes, cuja recuperação tenha sido feita graças ao seu esforço. 
A medida permitirá garantir mais de 10 mil postos de trabalho e  legalizar a posse de mais de duzentas empresas recuperadas pelos trabalhadores após o Corralito, estimando o Movimiento Nacional de Empresas  Recuperadas que, com a sua entrada em vigor, seja possível recuperar mais de duas mil empresas entretanto encerradas pelos patrões. 
O caso do hotel Bauen – e outros que relatarei  noutros posts-  é uma prova de que é possível criar emprego sem patrões. A via cooperativa é uma possibilidade de relançar empresas encerradas em Portugal. Basta que o governo português crie incentivos à economia apoiando as cooperativas  e  tenha coragem de legislar no sentido de reconhecer aos trabalhadores a posse de empresas e fábricas por eles recuperadas. 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

À minha maneira



No dia 24  de Janeiro, quando os  representantes da alta finança mundial e chefes de governo se reuniam  com pompa e circunstância  na cerimónia de abertura  do Forum de Davos, alguns milhares de pessoas  ligadas a diversas  ONG’s concentravam-se  na praça Glênio Peres, em Porto Alegre,  para   uma marcha de cinco quilómetros  que percorreu as  principais ruas da cidade,  assinalando o início do Forum Social  2012.
Subordinado ao tema  “ A Crise Capitalista e os caminhos para a Justiça Social e Ambiental”, o  Forum  Social  integra-se no âmbito do Forum Social Mundial e servirá de preâmbulo à Cimeira Rio+20, promovida pela ONU, que se realiza em Junho no Rio de Janeiro. 
Criado em 2001 nesta cidade de Porto Alegre, o FSM é um espaço de debate aberto às organizações da sociedade civil  que se recusam a aceitar os ditames do neoliberalismo e o domínio do mundo pelo capital financeiro, procurando demonstrar  que a sociedade civil tem  alternativas credíveis à ditadura dos mercados.
Educação, saúde, liberdade de imprensa, padrões de consumo, sustentabilidade e conexões globais serão alguns dos temas que até ao próximo dia 29 estarão em debate,  sendo no final formuladas diversas propostas a apresentar na Cimeira Rio+20.
Para além dos debates e seminários temáticos,  há dezenas de actividades culturais , desde workshops e  exposições  a  concertos, teatro e cinema. 
Uma alternativa  bem calorosa e animada aos circunspectos e herméticos discursos proferidos na conferência da gélida cidade de  Davos. É o Mundo à minha maneira…

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Melincué



Melincué é uma pequena aldeia rural de três mil habitantes na província de Santa Fé, no coração das pampas. Apesar de ser muito procurada pelos argentinos como estância de lazer,  desde os anos 80 do século passado,  o nome da  pequena povoação só transpôs as fronteiras em 2010 graças à perseverança de uma professora com memória que se recusou a esquecer as atrocidades dos militares durante a ditadura argentina ( 1976-1983). 
Juliana Cagrandi tinha 15 anos quando em 1976 a morte de dois  jovens na casa dos 20 abalou a pequena povoação. Os corpos, baleados,  foram encontrados na berma da estrada pelo proprietário de um terreno perto de Melicuén. Informadas,  as autoridades locais atribuíram as mortes a acto criminosos,  removeram os corpos- que “não conseguiram identificar ” - e enterraram-nos no cemitério local três dias depois. 
Juliana cresceu, tornou-se professora, mas nunca esqueceu a morte daqueles jovens e, em 2003, motivou os seus alunos para um trabalho de investigação sobre o caso. Os alunos empenharam-se e conseguiram ser recebidos pela secretaria dos direitos Humanos de Santa Fé que acedeu nomear um procurador para  investigar as pistas que os alunos lhe forneceram. 
Só que em 2004 o cemitério quase desapareceu, submerso pelas águas da lagoa de Melincué, dificultando as investigações. No entanto, a perseverança da professora e dos alunos  contagiaram as autoridades locais que não desistiram de prosseguir as investigações.
Em Maio de 2010 as autoridades identificaram o corpo de Yves Domergue, um jovem francês de 22 anos que emigrara com os pais para  Buenos Aires em 1959.Estudante de engenharia, o jovem militava no Partido Revolucionário dos Trabalhadores, ligado a uma organização guerrilheira que combatia a ditadura. Deslocava-se por isso com assiduidade a Rosário (a cerca de 300 quilómetros da capital argentina) onde conheceu uma jovem mexicana com quem começou a namorar. 
Foi daquela cidade que Yves mandou a última carta ao seu pai, Eric, no início de Setembro de 1976.O irmão, que todos os meses, em dia certo, se encontrava com ele num local secreto continuou a ir  aos encontros nos meses seguintes, mas Yves nunca mais compareceu.
 Semanas depois  da identificação do corpo do jovem francês, as autoridades identificaram também o corpo de Cristina Cialceta, na altura com 20 anos,  a mexicana namorada  de Yves.
Três décadas após o fim da ditadura, a Argentina continua a procurar  e chorar os seus mortos. E o seu governo a tudo fazer para que a memória da sangrenta ditadura não se apague. Por isso, dias depois, Cristina Kirchner recebeu na Casa Rosada a professora Juliana Cagrandi  e alguns dos seus antigos alunos, para prestar uma homenagem às vítimas e à perseverança dos que contribuíram para a sua descoberta. 
À saída da Casa Rosada, uma das alunas, então com 24 anos, dizia:
“ Nascemos em 1986, em democracia, nunca apreendemos os horrores da ditadura. O nosso trabalho abriu-nos a mente e agora sentimo-nos como se tivéssemos feito parte desse período negro da nossa história”.
À  mesa de uma bodega de Porvenir,  na Patagónia profunda, a milhares de quilómetros de Melincué, alguém lembra esta história para explicar a razão de o povo argentino quase venerar os Kirchner, pela coragem que tiveram ao recusarem-se a enterrar as memórias da ditadura argentina. Tão diferente este povo, da gente do meu país que parece ter saudades de Salazar e se esforça por branquear os crimes do Estado Novo. Nada que a forma diferente de encarar a função da escola e do ensino não explique…

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Bienvenido señor Parker!



Robert  Leroy  Parker era um cidadão americano, nascido no Utah,  educado no seio dos mórmons. Aos 24 anos comprou uma fazenda no Wyoming e rapidamente fez muitos amigos. No início do século passado, um tio deixou-lhe 30 mil dólares em testamento e Parker  convenceu o seu melhor amigo ( Harry)  a  viajar com ele até à Patagónia.  Seduzidos por esta terra de oportunidades, compraram uma enorme fazenda na província de Chubut, onde viveram confortavelmente durante pelo menos uma década…
Mas que interesse tem este post? Perguntarão alguns leitores.
Se vos lembrar que Robert Leroy Parker era Butch Cassidy e o seu amigo e compincha Harry, o Sundance Kid,  talvez comecem a perceber.  Com efeito, são inúmeras as histórias que se contam na Patagónia sobre esta dupla que  aqui chegou em 1901, depois de ter feito um rentável assalto ao First National Bank of Winnemucca (  o tal tio que Butch dizia ter-lhe deixado uma fortuna em testamento…).
Ao contrário do que alguns pensam, a dupla ( a que se juntou Etta Place, namorada de Kid) não foi para a Patagónia gozar a reforma. Depois de conhecerem bem o terreno voltaram a "exercer". O seu primeiro assalto na Patagónia foi a um banco em Rio Gallegos e o motivo, diz-se, era bastante nobre: arranjar dinheiro para irem assistir ao Festival de  Bayreuth ( É bom lembrar que Kid era fã de Wagner e o último acto deste trio nos Estados Unidos, antes de fugir para a Patagónia, foi assistir a um concerto na Metropolitan Opera em Nova Iorque, pelo que talvez a lenda tenha um fundo de verdade).
Verdade ou lenda, o importante é que na Patagónia há histórias que libertam as asas do sonho.


Missing you!

Já em Setembro prenunciara a sua morte, mas só hoje soube do seu desaparecimento. Obrigado por todos os momentos que me  permitiste capturar em álbuns envelhecidos que fazem parte da história da minha vida. Provavelmente não voltarás a viajar comigo e vou sentir saudades. Também eu fui derrotado por elas. Para mais tarde recordar...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Por aqui, coelhos... só no tacho!



Muitas vezes me perguntam o que procuro na Patagónia.
Invariavelmente respondo com um indisfarçável brilho no olhar: “Nada!”
A minha resposta deixa a maioria das pessoas atónita e algumas não resistem a perguntar-me:
-Então o que vais lá fazer?
 Nessas ocasiões acrescento: “ procurar o Nada”.
É o imenso vazio da Patagónia,  fora dos locais invadidos pelas hordas de turistas, que me fascina. É percorrer centenas de quilómetros na companhia do silêncio, passear num barco a remos, solitário, nas águas imensas do Parque Nacional de Los Alerces, chegar à noite a uma aldeia índia , ficar horas sentado numa escarpa em Península Valdez a observar o comportamento dos animais selvagens,  encontrar turistas solitários que como eu procuram a reconciliação neste Nada que a Patagónia oferece aos viajantes  e nos deixa tão deslumbrados como o corpo esbelto de  uma mulher que se desnuda e se oferece para ser amada. 
Viajar pela Patagónia provoca a sensação do momento do orgasmo, quando o pensamento fica vazio e nos concentramos no prazer daquele momento único de união. Na Patagónia não procuro nada, a não ser o acaso do momento. Tanto pode ser o prazer de sentir o silêncio, como o desfrutar de uma paisagem, ou o encontro fortuito com alguém que nos conta uma das mil lendas que fertilizam esta terra. Não interessa! O importante é não estar à espera de nada, porque de certeza algo acontece. Nem que seja a constatação de que durante dois dias seguidos não aconteceu absolutamente nada!
Viajar na Patagónia não é ter encontro a hora marcada com o Perito Moreno, os elefantes marinhos em Península Valdez, ou  os pinguins na Terra do Fogo. É ter encontros fortuitos, é bater à porta de uma casa perdida na imensidão de uma planície, sem saber   se vamos ser recebidos por um tipo de caçadeira em punho, ou por alguém que nos convida amavelmente para tomar um mate e,  entre duas fumaças, nos conta uma história de encantar que tanto pode ser verdadeira , como uma lenda enraizada, ou  fruto da imaginação do momento. 
Viajar na Patagónia é despojar-me de tudo o que é material e conviver com a Natureza, deixando-me impressionar pela beleza ou pelas paisagens inóspitas que ela nos proporciona. É poder gritar a plenos pulmões e esperar pelo eco projectado a quilómetros de distância. É estar de espírito aberto para mergulhar  naquela sensação de paz eterna, num cenário de simplicidade rural, onde um John  Williams, ou uma Betty Sheffield nos falam em espanhol porque não sabem uma palavra de inglês, mas são capazes de nos convidar para um chá gaélico, com a maior das naturalidades, porque o têm mais enraizado na tradição, do que ao mate. É chegar às proximidades de Esquel e ouvir estórias variadas sobre Butch Cassidy e Sundance Kid que ali viveram e partilharam os ardores amorosos de  Etta Place, depois de terem fugido dos Estados Unidos com pompa e circunstância. 
A Patagónia é uma imensa - por vezes inóspita-  região polvilhada de lendas e habitada por monstros e gigantes que nunca ninguém viu, porque apenas existiram na mente dos seus criadores, mas em cuja existência gostaríamos de acreditar, para tornar mais suave a dura realidade deste tempo dominado pelo adamastor da economia e das finanças.

À atenção da D.Teresa

A D. Teresa  deve andar a sonhar com o dia em que possa exibir uma cena destas, mas talvez a guarde para quando o governo privatizar um dos canais da RTP e a guerra de audiências estiver ao rubro.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Sopa de letras

Laura  tentava convencer a minha afilhada a comer a sopa, recorrendo à estratégia velha e relha de lhe juntar massa de letras.
- Ahora vamos terminar com la palabra Abuelo, Mercedes. A empezar vas a comer el A.
-No, no, mama!  No le quiero bajar el rating!

Give me a break, mr Cameron!

Cameron decidiu fazer prova de que é um idiota. Vai daí, lançou esta bujarda!. Claro que há uma explicação para estas palavras. Ou melhor...duas. Em primeiro lugar, o facto de se ter descoberto a existência de petróleo e depois a visita  do principezinho William ao local onde o conflito eclodiu há 30 anos.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Mais vale tarde do que nunca?


Estávamos sentados numa esplanada em Sidney, cosendo as horas até à partida para o aeroporto, com conversa de chacha e umas garrafas de vinho. Entre o esvaziar de uma garrafa e a chegada da seguinte, Enrique acendeu um charuto com desvelo e anunciou solenemente, sincopando as sílabas :
- De-pois des-te, nun-ca mais fu-mo!
Todos o olhámos incrédulos. Como era possível um homem habituado a fumar cinco ou seis charutos diariamente - a que ainda juntava um maço de cigarros, ou mais- anunciar, com aparente naturalidade, que não voltaria a fumar?
Marcella interrompeu o silêncio e perguntou:
- Quantos anos tens Enrique?
- Faço 65 daqui a duas semanas!
- Achas que vale a pena deixares esse prazer com essa idade?-perguntei. Que pensas ganhar com isso?
- Ora aí está uma boa pergunta que fiz dezenas de vezes a mim mesmo antes de tomar a decisão. Como quero morrer? Com falta de ar, ou com ataque cardíaco? Cheguei à conclusão que se deixar de fumar tenho mais possibilidades de morrer de ataque cardíaco, do que ligado a um ventilador. Por isso, escolhi deixar de fumar.
Passaram quatro anos. Enrique nunca mais fumou. Na segunda feira falei com ele, para acertar pormenores sobre um trabalho que decidimos fazer em Junho, no Rio de Janeiro, no âmbito da Cimeira Rio+ 20.
Esta manhã, o telefone tocou cedo. Era a Laura a dizer-me que Enrique morreu ontem à noite, na varanda da  sua casa de Viña del Mar. Com um ataque cardíaco… 

A Ressurreição

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Informação de interesse público

Como já vos disse, o CR foi nomeado pelo blog Aventar para a  eleição de melhor blog do ano na categoria Actualidade Política (individual). Renovo os meus agradecimentos e aproveito para informar os leitores que  votação começou  no dia 15 e termina no dia 21 podendo, os interessados, votar aqui nos blogs que mais apreciem nas diversas categorias.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Postal de Buenos Aires

Calle Florida

A calle Florida é uma das ruas mais emblemáticas de Buenos Aires. Aristocrática mas popular, histórica e turística, calcorreei-a centenas de vezes, a todas as horas do dia, entre a Av de Mayo e a Plaza de San Martin. Muitas das minhas  boas memórias de Buenos Aires passam por lá, pelos estabelecimentos quase centenários, pelas lojas de grandes marcas, pela Guemes onde viveu Saint- Exupery e, principalmente, pelo centenário café Richmond desaparecido em setembro, de cuja história vos falei aqui.
Ao longo dos anos a Florida tem vindo a perder algum do seu glamour e, nos últimos tempos, a invasão de vendedores ambulantes ( os manteros), tornou o passeio por esta via pedonal cada vez menos aliciante para as 850 mil pessoas que por lá passam diariamente.
Na quarta-feira, correspondendo às reclamações dos comerciantes e dos porteños em geral, a Polícia bonaerense impediu que os ambulantes montassem as tendas. Grande alívio para os comerciantes, protestos imediatos dos manteros, que cortaram a Av Corrientes, deitando-se no chão. Diariamente, logo pela manhã, policias e manteros ocupam posições. Os primeiros na tentativa de evitarem que os manteros montem as tralhas, os segundos tentando driblara a polícia. Os manteros prometem resistir, mas o governo bonaerense não se mostra disposto a ceder nas suas pretensões: devolver a calle Florida às pessoas e preservar a sua identidade. Os porteños agradecem e os turistas também.


Tangueros si, manteros no!

domingo, 15 de janeiro de 2012

Globos de Ouro



Realiza-se hoje a cerimónia de entrega dos  Globos de Ouro. Entre toda a pompa e circunstância que rodeia este tipo de eventos, este ano destaca-se o menu, abrilhantado com uma sobremesa incluindo ouro comestível! (Se não acreditam, confirmem aqui).
Numa época de crise mundial há quem não se poupe a esforços para satisfazer as estrelas com mimos, escarnecendo do facto de existirem mais de 40 milhões de desempregados nos Estados Unidos ou de 70 em cada 100 crianças no Corno de África  não sobreviverem à seca. Há meses, o secretário-geral da FAO pediu a ajuda urgente da comunidade internacional, pois precisa de  1,5 milhões de euros até ao Verão, para suavizar os efeitos ta catástrofe que assola a região.
Espero que o polémico Rick Gervais - anfitrião  da cerimónia pelo terceiro ano consecutivo  que ano passado deixou a assistência estupefacta com a revelação de algumas histórias picantes sobre estrelas do cinema -  cumpra o prometido e seja ainda mais polémico. Organizando, por exemplo, uma colecta entre os comensais pedindo-lhes que correspondam ao apelo do secretário – geral da FAO, sendo generosos nos seus contributos.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Tic, tac, tic, tac...

No domingo, durante a digestão do churrasco que animou o almoço, a conversa desenrolou-se em torno da crise global que pode afectar ( creio mesmo que já está a afectar) a América do Sul e  dos elevados índices de desemprego que acentuam a crise na Europa que podem proporcionar uma nova onda migratória para o hemisfério sul. 
Lembrei que os números oficiais referentes ao desemprego jovem são demasiado impressionantes no seio da UE ( mais de 40% em Espanha e na Grécia, entre os 20 e os 30 por cento nos restantes países, com excepção da Alemanha, Áustria e Holanda) e que são mais uma prova de que os governos europeus têm andado a empurrar os problemas com a barriga, já que estudos realizados nos anos 90 - quando ainda não se falava da crise -  apontavam que chegaríamos a esta situação na segunda década deste século, se as políticas de emprego não fossem alvo de uma profunda reestruturação. 
Argumentei que apontar a crise como culpada do desemprego jovem é um nonsense  e só serve para justificar as políticas de direita que vêm florescendo na (des)União Europeia ao pretender combatê-lo com medidas completamente erradas de adiamento sucessivo da idade de reforma, aumento do horário de trabalho, baixos salários e maior facilidade nos despedimentos. O que está errado é o modelo de desenvolvimento económico e social europeu e, enquanto não houver mudanças drásticas, o problema do desemprego continuará a agravar-se inapelavelmente.
Alguém lembrou que o adiamento da idade da reforma é apenas um expediente para adiar outro  problema ainda mais intrincado: a falta de dinheiro para pagar as reformas, que lançará milhares de velhos para a miséria.
Pareceu-me ouvir um cadenciado tic, tac, tic, tac!. Era, provavelmente, o ruído da bomba relógio que vai explodir quando se conjugarem  dois factores: desemprego jovem e incapacidade de garantir as reformas aos mais velhos. Não gostaria de andar por cá para ver... Prefiro assistir ao linchamento da actual classe política europeia confortavelmente instalado num caldeirão do Inferno.

Totomamas

A propósito das declarações da aia de Cavaco e a decisão do governo em pagar a remoção dos implantes mamários da PIP, desafio os leitores do CR  para um passatempo.
Porque é que  não há dinheiro para pagar a hemodiálise aos velhos com mais de 70 anos, mas há dinheiro para mamas?
1- Porque há uma ministra a precisar de mamas novas.
X- Porque há uma mulher ou filha de membro do governo a precisar de mamas novas
2-  Porque o governo não tem mamas suficientes para dar de mamar aos boys?

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Os 3 Porquinhos

Ontem, não li apenas a notícia das nomeações da EDP. Também li a história dos 3 Porquinhos adaptada à era em que vivemos. Como era de calcular, nesta nova versão são todos economistas e nenhum deles trabalha, limitam-se a explorar os incautos e a ir à Missa ao domingo para se penitenciarem, com a bênção do sr cardeal Patriarca.
Quando é que os economistas percebem que o mundo não é apenas números, deve e haver, taxas de juros, défices, cotações na bolsa, ratings, PIBs , defaults,   e essas merdas todas com que gostam de brincar como adolescentes em fase masturbatória? Quem é capaz de lhes explicar que no mundo também há pessoas e leis para respeitar? 
 Vítor Gaspar além de não saber fazer contas ( pelo que percebi, ao fim de 10 dias já há um buraco no orçamento de 2012 ) se está marimbando para as ordens dos tribunais porque, certamente, sabe que nunca será punido.   E se por acaso for condenado a pagar alguma multa, também não haverá problema, porque os nossos impostos servem para isso mesmo, não é verdade?
Mas se a arrogância do ministro das finanças me encanita, as declarações da aia de Cavaco, afirmando qualquer coisa como “ quem quiser ter acesso a cuidados de saúde a partir dos 70 anos, tem de pagar…” deu-me vontade de ir a correr ao Pingo Doce do Restelo onde ela faz as compras para lhe fazer uma pergunta. Então para que andamos a pagar impostos toda a vida, Manuela? Para  gastar no BPN, em submarinos, em apoios às escolas privadas à revelia da troika e para pagar as reformas milionárias da gente do Banco de Portugal entre as quais a senhora se inclui?
Para terminar ainda li que Pedro Passos Coelho (  um economista beneficiado pelas Novas Oportunidades que se licenciou aos 37 anos, idade em que eu já era avô) nomeou para as Águas de Portugal um tal de Frexes - que tive o (des)prazer de conhecer em tempos- presidente de uma autarquia que deve uns milhões …às Águas de Portugal. Para quem se proclama um paladino da transparência e honestidade, esta nomeação não está mal…mas que os santinhos me protejam e afastem de mim gente com o seu grau de honestidade, senhor Passos!
Ia terminar com uma outra pergunta: será que os economistas são imunes à sensibilidade?  Mas logo outra notícia me deu a resposta. Pelo menos PPC tem sensibilidade. E muita! Então não é que fez nomear o seu antigo patrão (Ilídio Pinho) para um daqueles cargos de ouro da EDP? 
Desforrei-me vociferando uma dúzia de palavrões diante do computador cuja imagem tremilicava tanto, que me deu a sensação de estar ainda mais revoltado do que eu e prometi que pelo menos durante mais uma semana não volto a ler notícias. Se não cumprir, paciência…

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Estrelinha que os guie...

Aproveito a pausa de almoço para ir à Net e  dar um rápido olhar pelos jornais on line que não leio desde ano passado. Começo a sentir alguns sintomas febris. Será que os arrepios em frémito pelo meu corpo são  resultado do impacto térmico, porque lá fora estão 40 graus e o ar condicionado aqui dentro mantém a temperatura a  18, ou porque ao ler  isto  fiquei com a sensação de que é um exemplo típico de regimes totalitários como a Coreia do Norte?  
Bom, o melhor é fazer mais uma semana de cura e não dar importância a  estes pin... mexerucas
Moral da estória: o governo aposta nas privatizações para poder ter as empresas sob controlo do Estado, sem ter o ónus do pagamento dos salários chorudos, nem ser acusado de ser ele a fazer a nomeação dos boys. Maquiavel não faria melhor...

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Tragam-me um guardanapo, ó faxavor!


Durante a semana não pude visitar blogs nem  vir ao Rochedo mas, na noite de Reis, arranjei uns minutos para  ler os vossos comentários da semana que muito agradeço. Qual não foi o meu espanto ao ler  este comentário da Fada do Bosque! 
Pensei que estivesse a gozar comigo mas, pelo sim pelo não, fui confirmar e é mesmo verdade! Este Rochedo errante foi nomeado pelo blog Aventar como candidato a melhor blog do ano na categoria de Actualidade Política. 
Obviamente que, face à concorrência, as expectativas de  chegar à final são nulas, mas  só o facto de ter sido nomeado já é motivo de satisfação.
Os meus agradecimentos  aos  Aventar por terem  tido a amabilidade de se lembrarem de mim e à Fada por me ter dado a notícia, pelas simpáticas palavras e...pelo voto! Quanto aos leitores do CR, se quiserem votar, podem fazê-lo  a partir do dia 15 seguindo as instruções.
A mim, resta-me fazer um esforço para não andar tão ausente, mas não vai ser fácil aparecer por aqui  e por aí com a frequência habitual. I'll do my best! 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012



Pensavam que eu me esquecia que hoje é Dia de Reis? Não só não esqueci, como ainda vos deixo uma romã. Não se esqueçam de chupar doze bagas, uma por cada mês, e invocar o nome dos três Reis Magos, dizendo: Baltazar, Belchior e Gaspar ofereço-vos esta semente para ter e para dar.
Depois peguem nas sementes  ( não as vão comer, pois não?)  embrulhem-nas numa nota e guardem-na num mealheiro até ao próximo dia de Reis. 
Conselho muito pessoal: durante a cerimónia desliguem a televisão, não vá o Gaspar ver o que estão a fazer e sacar-vos a nota...
Fica também um bolo-rei. Pronto, está bem, confesso que já o pus aqui  no dia 30 de Dezembro, mas não tinha alternativa. Tostem-no no forno e barrem com queijo da serra (ou outro amanteigado), porque fica muito bom!
Continuem a ser felizes. Até breve!

A crise europeia vista do hemisfério sul




Já por diversas vezes lembrei aqui o “Corralito” argentino, a propósito da crise portuguesa. Quando soube  que o governo grego, escolhido e empossado pela dupla Merkel/Sarkozy, após terem derrubado Papandreous,  ameaça  abandonar a zona euro se não lhe  derem 130 mil milhões até final de Janeiro, voltei a recordar esse episódio e os dias então vividos na Argentina.
Há várias coincidências, mas são maiores as discrepâncias, como a seguir tentarei demonstrar.
Em 1990, a Argentina optou por indexar o peso ao dólar, optando pela paridade entre as duas moedas. Durante 10 anos,  sob a batuta de Menem e do seu ministro das Finanças Caballo, o país das pampas viveu um período conhecido como “ dolarização económica” mas, em 2001, o incumprimento da dívida obrigou a uma desvalorização brutal e os argentinos viram as suas poupanças  reduzidas a ¼  do seu valor. Ou seja, em vez da paridade ( 1 peso= 1 dólar)  passaram a ser necessários quatro pesos para perfazer um dólar. 
Abstenho-me de reproduzir o  que se passou nos meses seguintes, até à chegada de Nestor Kirchner  à Casa Rosada, remetendo os leitores para o que então escrevi aqui. 
Após  dois anos de recessão económica violenta ( 2001 e 2002), a Argentina  começou a crescer à media de 9% ao ano até 2009, ano em que a crise financeira mundial travou o crescimento e a inflação disparou, atingindo  em 2011  cerca de 10 por cento.
Este ano, embora a queda de 5% nas exportações para a Europa registada em 2011 possa acentuar-se,  a inflação deverá baixar dos 8% e o crescimento  estimado é de 4,5%.
O “pequeno milagre” argentino -apesar de ainda não estar consolidado, pelas razões já explicadas- só  foi possível graças ao boom económico da região e aos países emergentes, que favoreceram um aumento muito significativo das exportações de produtos argentinos. 

O cenário de recessão e/ou estagnação  dos países da  zona euro e da Europa em geral, não permitem aos gregos ( nem aos portugueses) sonhar com a repetição do milagre argentino, no caso de decidirem abandonar o euro. A Grécia (  tal como Portugal) não tem uma indústria forte, o seu tecido empresarial é débil e o mais provável, no caso de abandono do Euro, seria uma sucessão de falências e uma corrida aos bancos que destruiria o sistema bancário.
 Como justificar então a ameaça grega de abandonar o euro, no caso de não receber até final de Janeiro 130 mil milhões de euros da troika? Como uma chantagem do governo,escolhido pela dupla Merkel/Sarkozy, sobre os trabalhadores gregos. Foi uma mensagem para dentro do país e não para fora. Traduzindo, o que o governo grego disse aos trabalhadores gregos,  foi:
" Ou aceitam reduzir os vossos salários, aumentar o desemprego, flexibilizar os despedimentos e perder os direitos conquistados, ou a troika não nos dá o dinheiro de que precisamos e temos de abandonar o euro e regressar ao dracma"
No entanto,   a ameaça ( chantagem) da Grécia não pode ser encarada de ânimo leve pelo directório europeu, já que poderá ter um efeito boomerang, no caso de os sindicatos gregos permanecerem na sua luta, recusando abdicar dos subsídios de férias e de Natal, ou aceitar a redução do salário mínimo de 750 para menos de 500 euros . 
Desesperados, sabendo que  o pagamento da dívida é impossível e perante o cenário de viverem décadas sucessivas de empobrecimento, os gregos  podem jogar uma cartada decisiva: nós vamos ao fundo, mas arrastamos a Europa connosco.   

Pode parecer uma jogada suicida, mas talvez não seja tanto assim. É natural que os gregos esperem apoio dos espanhóis e italianos ( com os portugueses  não podem contar, porque preferem lutar pelo título de povo mais dócil da Europa) países igualmente em grandes dificuldades que, a breve prazo, poderão estar a confrontar-se com a impossibilidade de pagamento das suas dívidas. 
Se é expectável que em  2012 os portugueses continuem  a ser elogiados pelo seu bom comportamento e resignação, o mesmo não deve acontecer nos restantes países  com problemas. 
O clima social na Grécia está em brasa, em Espanha e Itália os próximos seis meses serão determinantes e poderão marcar o início de manifestações de descontentamento e em França uma vitória de Hollande nas presidenciais de Abril/Maio poderá provocar arrufos  no eixo franco-alemão.
O ano que agora começa pode, por isso,  ficar na História, como o início de uma transformação profunda na Europa que, em minha opinião, dependerá mais do que se passar nas ruas e nas urnas, do que nos corredores de Bruxelas ou em Wall Street. 
É por  tudo isto  que recuso esta ideia  que nos querem impingir, de que  as medidas de austeridade são uma purga necessária que devemos aceitar com resignação para nos purificarmos e, daqui a dois ou três anos podermos voltar a ter um nível de vida aceitável. Ora essa é a maior patranha que mr Coelho e seus acólitos nos têm estado a vender. A resignação conduzirá o país a maiores desigualdades, a um empobrecimento irreversível  da classe média e à perda total da nossa soberania.  Aceitar com conformismo   tudo o que nos impõem, é padecer de cegeuira crónica  irreversível.
Os gregos já perceberam isso. Espanhóis e italianos também, mas ainda estão expectantes e aguardam o anúncio das medidas dos seus governos, antes de decidirem as formas de luta. Os portugueses comportam-se como cordeirinhos dispostos a ser imolados no altar de sacrifícios da senhora Merkel, sem oferecer resistência? Então talvez tenham o que merecem: a justa recompensa pela sua subserviência, torná-los-á o povo mais pobre  ( e estúpido) de toda a Europa, governado por um grupelho que representa a direita mais retrógrada e indigente que pisou solo europeu nos últimos 60 anos e se dá ao luxo de ser o que mais penalizou as classes trabalhadoras e poupou sacrifícios aos endinheirados. 
Os sul –americanos, habituados a pagar com a vida a  luta contra ditaduras sanguinárias, falam com desprezo  da nossa falta de “cojones”. E é triste sentir esse desprezo e ouvir essas críticas, acreditem...