segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Blog da semana

Gosto muito de beber desta fonte. Infelizmente saio de lá quase sempre sem um pio, porque sou bastante mau a decifrar os enigmas que ele coloca com uma grande imaginação e criatividade, mas não dispenso uma visita quase diária ao Rui. Coisas da fonte é o blog da semana

Reflexões em dia de ressaca




Caminho pela rua sem destino. Só quero sentir na face a brisa fresca e cortante da manhã e  queimar  as calorias ingeridas em excesso  durante dois dias.  Na rua, anda um número inusitado de homens  sem abrigo. Como eu, caminham com destino a lugar nenhum.
Há pouco bulício nas ruas. Os estabelecimentos comerciais por onde passo estão quase todos fechados. Passam pessoas por mim. Não têm pressa. Vão com o rosto tão fechado como as portas das lojas, que ainda há dois dias recebiam gente atarefada na compra das últimas prendas de Natal e agora se fecharam num silêncio de domingo. 
Este ano, a ressaca natalícia deixou nos rostos uma expressão grave. Talvez as pessoas que passam  por mim vão a pensar no ano que se avizinha. No próximo Natal em que o corte do subsídio já não dará sequer para disfarçar a crise. No desemprego que pode bater à porta numa manhã  de um dia qualquer.
Entro num estabelecimento de ferragens para comprar um aloquete para a minha mala de cartão. O proprietário fala-me do seu Natal , ensombrado pela ausência de um filho que partiu para a Austrália no Verão em busca de uma vida melhor. Não, não sentiu a crise no bolso, sentiu-a no coração, que é onde ela mais dói. 
Ao final da manhã  estou de regresso a casa. Procuro o conforto do sol que se espraia na varanda.  O mar que se me oferece  até à linha do horizonte, não me provoca a sensação de bem estar  de outros tempos. Ao longe avisto uma embarcação. 
Recordo as palavras do homem do leme  “ este ano vamos  ter de ultrapassar o cabo das Tormentas”. Pelo que vi na rua, durante a manhã, os marinheiros estão pouco motivados para enfrentar os perigos. Sinto-os desanimados. Sem força para lutar, depois de terem apanhado tanta tareia do comandante em quem não acreditam.  Já perceberam que ele está desorientado e perdeu o rumo, mas recusa admiti-lo. 
O  homem do leme   sabe que não iremos dobrar nenhum cabo das Tormentas, porque a embarcação é frágil, os instrumentos de navegação estão avariados e o barco anda à deriva.  Olha para o convés e vê homens de braços caídos, gente deitada  sem força para lutar, à espera da morte misericordiosa.
 Num esforço derradeiro para animar a tripulação, lança umas palavras ocas em que nem ele próprio acredita. É um autómato à deriva. Tão descrente nas suas capacidades, como no Adamastor que construiu na sua mente delirante. 
O homem do leme, promovido a comandante, sabe que só um  daqueles barcos de cruzeiro, cheio de  turistas endinheirados, os pode salvar, mas a loucura já o invadiu e prefere rumar  ao encontro da morte, a pedir socorro. Insano, persiste em correr atrás da glória salvando a sua pele, mas  condenando a tripulação ao sofrimento e à morte.


Olhe que não, olhe que não...

Depois de ter dito que este governo é o mais escrutinado de sempre, o sr Presidente da República veio dizer, neste Natal, que os portugueses tiveram uma vida fácil. O PR deve sofrer de dislexia, mas  percebo as suas palavras, se as contextualizar no percurso de vida de Aníbal Cavaco Silva.
Tudo começou quando decidiu ir fazer a rodagem ao Citroen até à Figueira da Foz e saiu de lá com uma carta de alforria para ser primeiro ministro. Governou em tempos de vacas gordas, quando a União Europeia enviava camiões de dinheiro para Portugal. Isso permitiu-lhe fazer umas flores e criar a imagem, falsa, de que estava a desenvolver o país. Como o dinheiro era muito, poucas foram as vozes que se levantaram quando Cavaco destruiu a nossa agricultura, as nossas pescas e começou a desmantelar a via férrea.
Dez anos depois Cavaco percebeu os seus erros, abandonou o cargo de PM e, falhada a candidatura à PR, remeteu-se à sua zona de conforto. Foi dar aulas.
Entretanto, os amigos que convidara para o governo compensaram-no com enriquecimento fácil. Oliveira e Costa ofereceu-lhe a  oportunidade de construir uma casa na Coelha e fez rentabilizar umas acções do BPN. Acabou acusado de diversos crimes, mas com a certeza que nunca seria condenado, pois Cavaco não deixaria de reconhecer os seus préstimos. Quem pagou as favas foi Sócrates e, por tabela, todos os portugueses, que estão a sofrer os desvarios de um trio de vigaristas ( Oliveira e Costa, Dias Loureiro e Duarte Lima).
O preço que Cavaco teve de pagar foi engolir Passos Coelho como PM, em vez de Manuela Ferreira Leite, que falhou a oportunidade- que parecia fácil- de correr com Sócrates. Um preço baixo, atendendo a que entretanto Cavaco conseguira tornar-se PR e subir ao altar dos impunes.
Portanto, senhor presidente, se alguém neste país teve vida fácil foi V. Exª e os seus amigos corruptos, não os portugueses obrigados a pagar as prebendas com que o senhor foi mimoseado e que, ao longo de duas décadas, foram convidados a endividar-se - por si e pelos seus amigos- para satisfazer todos os desejos consumistas. 
Não nos venha agora com discursos moralistas e recheados de hipocrisia, fingindo estar condoído com as desigualdades sociais e a falta de equidade das medidas impostas aos portugueses para pagar a ruína do BPN, de que Vocelência foi um dos beneficiários.
Se realmente estivesse condoído e quisesse reparar as injustiças, tinha uma maneira de o demonstrar, chumbando o OE 2012, por conter diversas inconstitucionalidades, como V.Exª aliás reconheceu. Mas o senhor não tem coragem de o fazer e, ignorando o juramento que fez, de zelar pelo cumprimento da Constituição, irá aprovar o OE que nos obrigará a recuar 40 anos, mas espera  lavar a sua imagem e não vir a ser acusado por ter sido o primeiro responsável pela crise que vivemos.
Não, senhor presidente, os portugueses não tiveram vida fácil. Apenas alguns beneficiaram de facilidades  e esses são todos seus amigos.