segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A dívida

Só hoje soube que os croniqueiros e bloguistas se escandalizaram com umas afirmações de Sócrates sobre a dívida portuguesa. Terá dito o ex-primeiro ministro que pensar pagar a dívida é uma coisa de crianças.
Não percebo a razão de tanta indignação. Algum grande país ( a começar pelos Estados Unidos que têm a maior dívida do mundo, reconhecidamente incobrável) vive obcecado com a sua dívida? Existe algum país que não tenha dívidas?
Mais interessante ainda é constatar que PPC acaba de aceitar levar mas reguadas da senhora Merkel se o défice estrutural do nosso país for superior a 0,5%. Mas alguém acredita que essa meta é atingível? Então, se PPC assinou um compromisso sabendo que não o irá cumprir, qual a razão para tanto alarido com as declarações de Sócrates?

Cimeiras

Terminaram este fim de semana duas Cimeiras importantes para o nosso futuro. Em Durban, alguns países assinaram um acordo sobre alterações climáticas que em nada irá evitar o aquecimento global, com consequências catastróficas para as zonas ribeirinhas. Sem saber o que dizer, a ministra Cristas afinou pelo discurso britânico e considerou a cimeira de Durban um passo em frente. Esqueceu-se foi de clarificar que, em frente, está o abismo...
Festejar o prolongamento da vigência do protocolo de Quioto até 2015 e acreditar que até lá será encontrado um novo acordo global, é desconhecer todo o historial de Quioto, ou acreditar em contos de fadas.
Entretanto, em Bruxelas, a maestrina Merkel impunha à Europa a sua vontade, perante o assentimento de 25 cordeirinhos prontos a imolarem-se na fogueira berlinense.
Se a Europa estava doente, esta cimeira não lhe deu qualquer esperança de cura. Tudo continua como dantes, com todos (excepto Inglaterra) a fingirem que acreditam na salvação. Lá no íntimo, porém, sabem que extinta a democracia, a morte da Europa é uma questão de tempo. Amputaram-lhe um braço, ofereceram-lhe um garrote para estancar a hemorragia, mas a infecção continua a alastrar, porque ninguém encontrou o antídoto para o vírus dos mercados que lhe está a minar as entranhas.
Parece que PPC está moderadamente satisfeito.Vendeu Portugal aos interesses estrangeiros e deve sentir a consciência do dever cumprido Ele gosta de punições e de ver o país empobrecer. Acredita que teremos de espiar os pecados para nos purificarmos e depois nos oferecer em holocausto no altar dos sacrifícios de Berlim. Ainda ninguém lhe explicou que um país cada vez mais empobrecido e sujeito a drásticas medidas de austeridade, jamais conseguirá pagar a sua dívida. Mas também não é isso que o preocupa. Ele está mais interessado em cair nas boas graças da senhora Merkel, do que em defender os interesses de Portugal.

A lição de Frederico



Por razões de ordem profissional, Frederico teve que se deslocar a Bruxelas. Uma noite, foi convidado por um belga para jantar, a fim de ultimar a preparação de uma reunião que teria lugar no dia seguinte. Jantaram num daqueles restaurantes contíguos à Grande Place onde as conversas se travam em surdina - para não perturbar as moscas que mergulham na manteiga e se poder apreciar o melodioso tilintar dos talheres de prata a roçar os copos de meio cristal.



Consultada a lista de fio a pavio, Frederico decidiu-se por um rosbife, enquanto o seu anfitrião optava por um bife com cogumelos. Depois de uma sobremesa “caseira” com sabor a instantânea e de um café sofrível,o empregado apresentou a conta em pergaminho, encerrado num cofre a fazer lembrar uma “loja de Trezentos” (bem agora são lojas do 1,5€, mas como não dá jeito nenhum, prefiro a velha designação...) e perguntou , entre salamaleques, se estavam satisfeitos com o repasto.

Embora estivesse plenamente consciente deque a única coisa que se safara fora o vinho, criteriosamente escolhido, Frederico respondeu, com um sorriso amarelo, que sim senhor, estava tudo bem. Do outro lado da mesa, porém, o seu companheiro de ocasião não esteve pelos ajustes e, calmamente, com um sorriso nos lábios e voz suficientemente audível, foi dizendo que o jantar não estava nada bem, não senhor.

Pedira o bife mal passado e fora-lhe apresentado um naco de carne assada. Além disso, o molho de cogumelos estava frio e quanto à “mousse caseira” não passava de uma miscelânea instantânea, “acaseirada” por um toque de um qualquer generoso licor. E rematou com uma ironia cortante, que deixou o empregado sem pinta de sangue: “mas não se preocupe, pois não tenciono cá voltar e vou recomendar aos meus amigos que façam o mesmo.”

Murmurando entre dentes pedidos de desculpa e prometendo que tal não voltaria a suceder, o empregado afastou-se com cara de poucos amigos. Um casal que se encontrava na mesa contígua sorriu com ar de aprovação, deixando em Frederico a impressão de que no final do jantar não teriam qualquer rebuço em tomar a mesma atitude.O nosso compatriota, pelo contrário, sentia-se indisposto e envergonhado. Não pela atitude do seu comparsa, mas pela sua. Pressentiu um rubor invadir-lhe a face, que se avolumou no momento em que o seu parceiro interrompeu o silêncio para dizer:

“ Esteja à vontade! Eu conheço bem os portugueses e sei perfeitamente que se constrangem muito em reclamar!”

Frederico sentiu-se pequenino, carente de um subsídio de periferia e com vontade de se enfiar pelo chão abaixo. De regresso a Portugal contou a cena a um grupo de amigos, a quem afiançou ter aprendido, naquela noite em Bruxelas, uma grande lição: é que os portugueses, talvez porque tenham da palavra reclamação um conceito de mau carácter, de mesquinhez, quiçá de mau feitio, inibem-se de reclamar, principalmente em locais que gozam do estatuto de serem de luxo.

Reclamar, de forma cordata, é um acto de bom senso e até deve ser visto como uma atitude amiga, para quem não tenha da amizade a noção de “palmadinhas nas costas”. A realidade é esta: se somos todos consumidores, também somos todos produtores , diariamente, na nossa vida profissional. Por isso, agimos. E ao agir, é óbvio que estamos sujeitos a errar. Mas se erramos e ninguém nos chama a atenção, corremos o risco de errar novamente, o que não é agradável para nós nem para as vítimas dos nossos erros. Por outro lado, quem nos fornece produtos ou serviços e se habituou a não ter que enfrentar reclamações, terá eventualmente menos pudor em nos enganar.

É por essas e por outras que me interrogo qual será a razão porque a imprensa, sempre solícita a aconselhar-nos a visita a um determinado restaurante ou hotel, não se faz eco de verdadeiros logros em que podemos cair. Basta a um restaurante ser citado como “local de culto” em duas ou três publicações de prestígio, para se alcandorar ao altar dos intocáveis. E quem disser mal, que se cuide, porque certamente será julgado como indivíduo de má índole ou mesmo mau porte, cliente indesejado, por ser capaz de pôr à vista de toda a gente os podres de determinado estabelecimento que caiu do pedestal e se recolocou na mediania do panorama gastronómico português.

Bairro Alto

Bairro de Norrebro (Copenhaga)

Desde hoje e até ao próximo domingo, o Bairro Alto está em festa. Entre as várias iniciativas que assinalam o 498º aniversário do tradicional bairro lisboeta, destaque para uma exposição de fotografias que vai animar as fachadas dos edifícios.
Gracia(Barcelona), Marais(Paris), Vila Madalena(S.Paulo), Oltrarno(Florença), Norrebro (Copenhaga), Russian Hill (S.Francisco), Kreuzberg (Berlim) ou Brick Lane ( Londres) são alguns dos bairros que poderá descobrir através das objectivas de Pedro Costa e Ricardo Lopes.
Um bom pretexto para ir ao Bairro Alto durante o dia, podendo também desfrutar de uma visita guiada, organizada pela Hemeroteca, que permitirá conhecer melhor a História e os segredos de um Bairro de visita obrigatória para qualquer turista e foi ponto de referência para qualquer jornalista durante décadas.

Deixem passar os blues (9)

Agora que as SCUT já começaram a ser pagas, deixo-vos com este aviso de BB King