sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

No cinema com um sem abrigo

Em tempos, estabeleci amizade com uma socióloga, colega de voluntariado, que nunca recusava uma esmola a um pedinte. Muitas vezes levava-os a comer e ficava a conversar com eles durante algum tempo.

Um dia veio fazer-me um pedido. Tinha conhecido um sem abrigo que, depois de muitas horas de conversa, lhe pedira para o levar ao cinema. Não para ver um filme qualquer . Queria ver um filme de Woody Allen que à época estava em reposição em Lisboa :“ Toda a Gente diz que te Amo” . Ela queria satisfazer-lhe o pedido, mas não queria ir sozinha, por isso me pediu que a acompanhasse.

Inicialmente o pedido do sem abrigo pareceu-me bizarro, até mesmo algo excêntrico, mas ela rapidamente me convenceu da sua razoabilidade. Afinal, por que razão não pode um sem abrigo ter interesses culturais, gostar de ir ao futebol e ao circo, ver um filme ou uma peça de teatro? Nem só de esmolas vivem os sem abrigo. Se não precisassem de comer, talvez gastassem o dinheiro das esmolas noutras actividades que lhes alimentassem o espírito. Como informação complementar, esclareceu-me que o sem abrigo lia todos os dias os jornais, pedia-lhe livros e depois discutiam-nos.

Nem eu nem a minha “amiga” tínhamos visto o filme, pelo que anuí acompanhá-la. Ela levou-lhe roupa de um filho e lá fomos os três num final de tarde ao King, ver a Julia Roberts ( eu aventara à minha amiga, estupidamente, a hipótese de ser a escanzelada Julia a razão da curiosidade cinéfila do sem abrigo).

A meio do filme a minha “amiga” segredou-me:

“ É impressão minha, ou ele está a chorar?”

Estava . Alguma cena lhe devia ter tocado numa zona sensível e exacerbado as emoções.

Quando o filme terminou fomos comer qualquer coisa a uma cervejaria da Almirante Reis, perto da “sua casa”. Falámos, obviamente, sobre o filme, mas sem fazer qualquer alusão à quebra emocional que lhe provocara. Fiquei surpreendido com a desenvoltura da sua análise. O seu discurso, apesar de arrastado, era coerente, sustentado e sem falhas, encaixando mal naquele corpo desengonçado de maltrapilho, agora vestido a preceito com um casaco de malha e uma camisa lavada, umas calças ainda impecavelmente vincadas.

Para acompanhar o bife com ovo , apenas pediu água, fazendo questão de sublinhar que nunca bebia. Apenas fumava. Muito.

Deixámo-lo na sua soleira depois de a minha amiga, naturalmente, ter rejeitado a roupa que ele insistia em devolver. De regresso a casa conversámos sobre aquela personagem.

Fiquei convencido com a teoria da minha amiga. Criámos estereótipos que nos habituaram a ver num sem abrigo, uma pessoa que apenas precisa de comida e de roupa. Quiçá, de dois dedos de conversa. Quando nos pede que lhe alimentemos o espírito, achamos uma extravagância e a tendência é recusar. Passamos ao lado daqueles corpos estendidos na rua como sombras de indiferença, ou temos pena e lançamos-lhe uma moeda, prosseguindo o caminho de consciência aliviada.

Um sem abrigo pode sê-lo apenas por opção de vida. Como era o caso deste. Mas sobre isso vos falarei noutro dia.

Miguel de Vasconcelos



Muito provavelmente, os lusitanos assistirão hoje à reencarnação de Miguel de Vasconcelos. Quase cinco séculos depois, o secretário de estado que em 1640 servia os interesses dos Filipes renascerá trajado de alemão ( ver foto) fará uma genuflexão diante da senhora Merkel, será ungido, agradecerá anomeação como governador da Lusitânia e regressará ao Terreiro do Paço, para ser aclamado pelos restantes traidores da Pátria.

Daqui a uns anos- espera-se que sejam menos de 60!...- um grupo de heróis lusitanos se encarregará de o mandar da varanda abaixo. O 1º de Dezembro voltará a ser o feriado do Dia da Independência.

Deixem passar os blues (7)


Sammy Davis Jr e Count Basie, para terminar bem o feriado.