quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Postal do Alentejo

Entrevistas feitas em Évora, rumei a Monsaraz onde amanhã terei de fazer uma reportagem. Ao chegar ao hotel, onde já pernoitei várias vezes, pergunto à simpática recepcionista:
-Então, há novidades por aqui?
Responde-me com um sorriso:
- Hoje não, mas ontem houve...
- Então conte lá...
- Houve um tremor de terra!
( Bem, vou mas é jantar. Tenham um bom feriado por mim, tá?)

Arte com sentido crítico (10)



E se falassemos um pouco da Madeira?

Ou ando distraído, ou um manto de silêncio caiu sobre as medidas de contenção a aplicar à Madeira. Lembrei-me, por isso, de vos contar a história que vos prometera há dias.

Creio já vos ter dito que, durante alguns anos, passava três semanas na Madeira em Janeiro ou Fevereiro, a trabalhar. Durante esses períodos contactei com muitos madeirenses e continentais – a maioria jovens como eu - que tinham optado pela Madeira para “fazer a vida”.

Era já notório, nesses tempos remotos onde ainda não se volatizara o espírito de Abril, um clima de medo na ilha. As pessoas não falavam à vontade e, quando queríamos ter conversas políticas, eram travadas dentro de casa e nunca em público.Já nessa altura me advertiam que seria melhor não frequentar determinados cafés, porque a minha presença por ali poderia ser encarada como uma opção política.

Na altura atribuía os avisos e precauções ao facto de os ares de Abril ainda não terem chegado à Madeira e considerava aqueles exageros uma forma de provincianismo. Outros desafios profissionais afastaram-me desse ritual madeirense. Fui mantendo alguns contactos esporádicos com algumas pessoas, nomeadamente com um familiar que optou por ir para lá viver. Estive vários anos sem ir à Madeira mas, no final da década de 90, fui convidado para ir lá fazer duas conferências.

Encontrei uma ilha muito diferente por fora, mas igual por dentro. As pessoas revelavam então ainda mais medo de falar sobre determinados assuntos e cheguei a sentir algum incómodo durante a minha estadia. Na véspera de regressar a Lisboa, o meu familiar convidou-me para jantar . O restaurante onde me levou estava parcialmente vazio e já estávamos sentados, quando entraram dois fulanos. Olharam em redor, como quem domina o espaço com à vontade e saudaram o meu familiar. Falaram durante alguns segundos em surdina e de seguida dirigiram-se à nossa mesa, perguntando se podiam sentar-se.

Percebi a aquiescência contrariada do meu familiar, mas rapidamente o diálogo se soltou. A caminho da sobremesa começaram a fazer-me diversas perguntas. A princípio respondi sem problema, mas a determinada altura comecei a sentir-me incomodado, pois percebi que estava a ser alvo de um interrogatório. Invoquei uma pretensa necessidade fisiológica para me esgueirar e pôr fim ao interogatório.

Quando regressei à mesa a conversa tomara outro rumo e não voltei a ser importunado. Na hora de pagar a conta, um deles insistiu em assumir a despesa, facto que me incomodou bastante, pois não gosto de ser “convidado” por pessoas com quem não tenho qualquer relação. O meu familiar também tentou opor-se, propondo que cada um pagasse a sua conta. Debalde. Enquanto discutíamos, o empregado cheio de salamaleques já trazia a factura ao “senhor doutor” perguntando se podia mandar receber no dia seguinte.

Na despedida, agradeci (contrariado) ao inesperado convidante que logo tratou de me esclarecer dizendo numa sonora gargalhada:

- Não tem nada que agradecer ! Ao fim e ao cabo são vocês que nos pagam tudo, entenda o jantar como um empréstimo…

A caminho do hotel, manifestei ao meu familiar o incómodo que sentira com a presença dos intrusos e ele respondeu-me o que eu esperava: queriam saber quem era o visitante e por que razão o meu familiar amesendara comigo. Durante a minha ausência, haviam completado o interrogatório, socorrendo-se dos conhecimentos do meu familiar Nunca mais voltei à Madeira. Nem penso lá ir nos anos mais próximos, apesar de ser uma ilha linda.




















Dêem lá os vossos palpites

Como iremos ser representados nos próximos dias em Bruxelas? De corda ao pescoço...
Ou de mão estendida?
Bem, pouco importa... Fundamental que nos apresentemos com o habitual sorriso de abóbora.

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Keep on dreaming with Pinetop Perkins