sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Devagar, devagarinho e bem aconchegadinhos

Que os coelhos não gostavam de lebres, já eu sabia, agora que fossem apreciadores de sardinha em lata nunca me tinha passado pela cabeça! Mas, pensando melhor, devia andar distraído, porque não me lembrei que sempre que o governo fala em cortar despesas, aumenta as lotações. Já tinha sido assim com as creches, os lares de idosos e as salas de aula...



No entanto gostaria que o senhor primeiro ministro respondesse a uma pergunta: quanto custou o estudo? É que eu, sem perceber nada de transportes, mas não sendo tão cretino como os autores, seria capaz de fazer o mesmo e muito mais barato.

Ensaio sobre a traição

Recebi sem surpresa, no caminho de regresso a casa, a notícia da abstenção do PS na votação na generalidade e na especialidade do OE 2012. Já ontem deixara aqui implícito que seria essa a decisão e as razões que a motivariam: (O meu palpite é que Seguro, de mãos a abanar, apareça a dizer que conseguiu introduzir alterações no OE na especialidade, apresentando umas migalhas como vitória. )
Consumada a abstenção do PS, é altura de dizer que não significa responsabilidade -o governo tem uma maioria confortável. Significa rendição e traição!

O que o PS acaba de fazer é zombar de milhões de portugueses. Confirma-se o que já aqui venho escrevendo desde 2009: António José Seguro é o melhor seguro de vida para a direita.

Abster-se na votação de um OE que penaliza barbaramente os portugueses é um acto de traição que os portugueses jamais perdoarão ao PS. Anunciar que, mesmo que nenhuma das propostas apresentadas pelo PS seja aceite pelo governo, a abstenção na especialidade está garantida, é rendição . Seguro nem sequer vai à luta?

É certo que Seguro mostrou o seu carácter quando, na noite de 5 de Junho, ainda o cadáver de Sócrates estava quente, se colocou na fila da frente para lhe suceder.Quando Seguro se demarcou de Sócrates, então primeiro-ministro,a direita teceu-lhe rasgados elogios, mas eu logo ali vi um traidor e não um combatente. A demarcação de Seguro foi pautada unicamente por interesses pessoais, que visavam marcar terreno na hora da sucessão.

No PS ainda existem socialistas. Espero que o impeçam de ser o candidato do PS em 2015. Terão, porém, de ser rápidos. Pelo caminho que as coisas estão a seguir, não me espantará que dentro de dois anos, quando este governo tiver perdido toda a credibilidade e a derrota do PSD se vislumbrar como inevitável, Seguro dê uma mãozinha a Passos Coelho e faça uma coligação com o PSD “ para defender o interesse nacional, digo, pessoal”.

O BE e o PCP, que se aliaram à direita para derrubar Sócrates, também já deviam saber que Seguro seria o seu melhor aliado, pois só por cegueira ou masoquismo alguém votará no PS enquanto estiver lá um líder que traiu os portugueses, apenas por oportunismo. Resta o conforto da (quase) certeza de que a liderança de Seguro está a prazo.

Ver o futuro pelo espelho retrovisor

Talvez não seja despiciendo começar a olhar o mundo com mais atenção através do retrovisor, para vermos melhor o futuro que nos espera. Ora vejam lá...




Na quinta-feira negra de Outubro de 1929, a fachada de papel bolsista, que alimentava o sonho de riqueza americano, ruíra como um baralho de cartas, zombando das profecias feitas meses antes pelo Presidente Hoover que, orgulhoso, anunciava ao povo americano estar próximo o triunfo sobre a pobreza.
O que aconteceu nos dias seguintes, com quedas sucessivas no mercado bolsista, foi o desespero, a miséria, o desemprego e o caos económico. A descoberta em 1930 de Plutão (que na mitologia grega simbolizava o deus do inferno) parecia premonitória de algumas desgraças e horrores. A crise americana reflectir-se-ia na Europa e daria pretexto à instalação de regimes totalitários. Hitler, Franco e Salazar chegariam aos mais altos cargos políticos. Apesar da Grande Depressão, a América dava sinais de poder sair rapidamente da crise e, em 1931, era inaugurado com pompa e circunstância o Empire State Building, um majestoso edifício destinado a escritórios, com 102 andares. Porém, o fausto do edifício não se coadunava com a crise que se vivia e os escritórios ficaram às moscas, o que levou os americanos a apelidá-lo de Empty (Vazio) State Building.

No ano em que Roosevelt chega ao poder (1933) e a Grande Depressão se instala inexoravelmente na Europa, uma canção faz furor. "Brother can you spare a dime?" ( Irmão, dispensas-me uma moeda?) retrata por palavras o cenário que se vive na Europa: actividade económica parada, desemprego, fome, miséria.

Roosevelt lança o New Deal- um programa de emergência que visa o renascimento da América. Os trabalhadores organizam-se em sindicatos, aparece a primeira legislação laboral, são fixados por lei os salários mínimos e o horário de trabalho, são atribuídos subsídios de desemprego e pensões de reforma e invalidez. A política social estava em marcha, mas o estado social só surgirá depois de uma guerra violenta.

No ano que se segue (1934) tem início "A Grande Marcha" comandada por Mao Tse Tung , que irá conduzir anos mais tarde à vitória dos comunistas chineses. Cansados da Depressão, animados com o New Deal, os americanos jogam ao Monopólio, numa tentativa de reaprender o caminho do sucesso capitalista.

Em Portugal, o ano começa com uma greve geral que pretende derrubar Salazar, mas acaba em efeito “boomerang”, com a destruição do já frágil movimento sindical, que vem a ser consumada em Julho, na “Noite das Facas Longas”.

Em 1938 é assinado o acordo de Paz de Munique, pretexto para Hitler anexar parte da Checoslováquia e quando acaba a Guerra Civil em Espanha, vai iniciar-se uma à escala mundial.



Oitenta anos depois, a Europa mergulhada numa profunda crise económica e financeira, mas também de valores, estende a mão à China, a Sérvia acabada de sair de uma guerra fratricida nos Balcãs, que quase incendiou a Europa, está prestes a ser admitida no seio da União Europeia, o estado social laboriosamente construído está à beira do extertor. Em Portugal o ministro da educação admite que as tecnologias de informação são mais apreciadas pelo poder como forma de controlar os cidadãos, do que para promover a sua educação.

Em Cannes, não se assiste à estreia de “E tudo o Vento Levou”, como em 1939, mas há uma reunião entre os mais poderosos do mundo para tentarem reeditar o New Deal. Talvez seja um flop de bilheteira...
França e Alemanha jogam ao Monopólio, ditando as regras e tentando dividir entre si o tabuleiro, mas na Grécia levanta-se uma voz a dizer “o rei vai nu”, porque enquanto bancos e multinacionais acumulam milhões, uma multidão de desempregados e famintos protesta nas ruas. Não cantam “ Brother, can you spare a dime”, mas gritam “Arranja-me um emprego”, frase que também já foi título de canção de Sérgio Godinho nos idos de 70. À falta de empregos, os governos oferecem em alternativa o “Voluntariado”

"Ajudem-se uns aos outros, porque nós já não temos mão no incêndio que provocámos", clama a direita instalada no poder em quase toda a Europa e se passeia pelos corredores de Estrasburgo e Bruxelas de extintor na mão, ignorando que o incêndio não está circunscrito à sala dos fundos, onde se acomodam os PIGS. Já vai no quinto andar, é altura de chamar os bombeiros para proceder ao rescaldo e tentar ainda salvar algumas jóias de família.
A China - que entrou no jogo quase em silêncio- comprou discretamente em África , na Ásia, na América Latina e na própria Europa, posições estratégicas que lhe permitirão, a breve prazo, dominar os principais recursos do planeta e vencer o jogo facilmente.
Enaltece-se a chegada de uma Primavera árabe, mas as alterações climáticas distorceram as estações. Por aquelas bandas já começam a cair as folhas prenunciando o Outono e o jasmim deixou de florir. Na Líbia, enquanto a ONU se prepara para atribuir a Kadhaffi um prémio de Direitos Humanos, a NATO apoia os rebeldes no derrube do ditador.

O grego que levantou a voz para dizer que o rei vai nu paga caro a ousadia. Quarenta e oito horas depois, está na iminência de resignar ao cargo, entregando o governo de mais um país europeu à direita. Um golpe militar pode estar iminente, perante a indiferença da Europa democrata.

Dentro de dias, será a vez de a Espanha transferir o testemunho.
O contaquilómetros do mundo marca 666. Quem virá mudar-lhe a bateria?





Peste suína

A Europa dos ricos anda muito preocupada e lamuriosa, porque está a ser contaminada pelos PIIGS, que andaram a gastar dinheiro demais. Talvez seja bom lembrar que a peste suína é, em boa parte, resultado de um mau diagnóstico daqueles que agora se mostram preocupados. Em 2008, em plena crise, o "directório" europeu recomendou, como cura, políticas expansionistas. Foi mais ou menos como se um médico recomendasse, a um doente com gripe, que abrisse as janelas todas da casa e se expusesse às correntes de ar.

Grande lata!

O BE "exige" ao PS que defina rapidamente o seu sentido de voto no OE 2012. É preciso ter muita lata! Depois de se ter aliado à direita para derrubar o governo PS, o BE não tem qualquer legitimidade para exigir ao PS o que quer que seja. O que eles querem, já a mim me esqueceu.

Grandes Bandas ( 27)


Esta é a mensagem que o governo deve ouvir no próximo dia 24 de Novembro- dia de greve geral.