segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Geração K

O casal Kirchner celebrando a primeira eleição de Cristina


Numa época em que as jovens gerações europeias e norte-americana olham para o futuro sem esperança, é reconfortante saber que num longínquo país sul-americano há uma geração cheia de esperança no futuro, conhecida por Geração K.
Não, não é a geração que escreve Kuando, Kero ou Kompanheiro. É uma geração argentina, pós Corralito, grata a Gustavo e Cristina Kirchner por lhes ter devolvido a esperança num futuro melhor.
Em 2001, quando a Argentina mergulhou numa gravíssima crise económica e financeira, em resultado das políticas do ministro das finanças Caballo e da falta de escrúpulos do presidente Menem, os governos argentinos sucederam-se a uma velocidade vertiginosa. Chegou a haver dias marcados pela tomada de posse de três governos.
A Argentina estava a ferro e fogo, Buenos Aires parecia uma cidade a viver um período pós-guerra, os assaltos de populações famintas a supermercados eram uma constante, os ataques das populações aos bancos foram marcados, não raras vezes, por cenas de enorme violência, o lixo amontoava-se nas ruas que se assemelhavam a campos de batalha. Assisti a boa parte destes acontecimentos e, quando no aeroporto de Ezeiza apanhei o avião para regressar a Portugal, não pude conter as lágrimas, porque pensei que a "minha" Argentina ia mergulhar no caos e os militares se voltariam a aproveitar da situação, para impor uma nova ditadura
O período de turbulência civil conheceu uma acalmia quando o então desconhecido Nestor Kirchner assumiu a liderança do governo, enfrentou o FMI, os Estados Unidos e as oligarquias internas que ainda suspiravam pela ditadura.
Os agentes da ditadura ( entre os quais se encontravam muitos membros do clero) responsáveis por milhares de mortos e desaparecidos, começaram a ser julgados e condenados e, num gesto simbólico mas que os argentinos interpretaram como um sinal de mudança, retirou o quadro do ditador Videla da Casa Rosada ( sede do governo).
Nestor Kirchner devolveu aos argentinos a credibilidade na política, que eles tinham perdido com Caballo, Menem e os políticos "democratas" que se seguiram à ditadura, mas nunca tiveram coragem de afrontar os militares , nem o poder económico e financeiro que continuou a dominar o país.
A população foi sujeita a enormes sacrifícios mas, volvida uma década, tem esperança no futuro. Quando Nestor Kirchner morreu, a Argentina tinha começado a recuperar o seu estado social e, apesar de os destinos do país já estarem entregues à sua mulher Cristina, o país chorou a morte de Nestor Kirchner como se ele ainda fosse o seu presidente.
Enquanto a imprensa europeia e norte-americana enchia páginas de jornais a desacreditar as capacidades de Cristina Kirchner, ela ia conquistando o coração dos argentinos. Criando emprego, melhorando o estado social, promovendo a inclusão, preocupando-se com os mais desfavorecidos e, seguindo as pisadas do marido, enfrentando os mais poderosos.
Dir-se-á que a família Kirchner, já política e financeiramente poderosa quando chegou ao poder, tem hoje um peso demasiado forte em todo o aparelho do Estado. Será… mas quantas famílias políticas dominam o poder em Portugal há três décadas e a única coisa que fizeram, foi desbaratar o país?
Acredito que quando os argentinos sentirem que o poder dos Kirchner se pode estar a tornar perigoso, não vão ficar à espera do desmoronar das esperanças. A memória da ditadura ainda está bem presente naquele povo e o governo é o primeiro a dar o exemplo, para que a memória de uma época tão dramática e sangrenta da história azul-celeste seja transmitida aos mais jovens.
Estes são os factos. Determinantes para que Cristina Kirchner, acossada pela direita conservadora, obrigada a enfrentar gravíssimos problemas que lhe foram colocados durante o seu mandato pelos interesses económicos e financeiros que resistem à capitulação, tenha sido ontem reeleita Presidente da Argentina, com larga maioria. A vantagem mais dilatada ( 54%) obtida por um candidato, desde o ano de 1983, que marcou o fim da ditadura e o regresso à democracia. Em segundo lugar ficou o candidato da Frente Progressista Hermes Binner, com menos de 17 por cento.
A Geração K , esperançada no futuro do país, avalizou , sem tibiezas, a política de Cristina Kirchner, num acto eleitoral muito participado, onde a abstenção rondou os 24 por cento.
Que bom seria se por cá os jovens pudessem depositar a mesma esperança no futuro e eu pudesse escrever com o mesmo entusiasmo, sobre os governantes que conduzem os nossos destinos. Sonhar não custa...

Blowing in the wind

Ali estou, parado, cigarrilha bailando entre os dedos, um livro de contos de Tchekov esquecido sobre a mesa, pensamentos voando à rédea solta nas asas do vento.

As nuvens correm aceleradas, como querendo fugir do sobrevoo de um país que já foi rico, orgulhoso da sua História, dos seus heróis, navegadores, cientistas e escritores, mas começou a delapidar séculos de história às mãos de um jovem inconsciente, supostamente apreciador de mancebos, que pretendeu mostrar a sua virilidade combatendo mouros em Alcácer- Quibir.

Enviada por Neptuno, uma folha de jornal dá-me conta de outra derrota: a da dignidade de um país, perdida entre os corredores de Bruxelas e os escritórios de Wall Street.Estico o pé, amordaço a folha na sola do sapato e leio “ Portugal pode chegar a uma crise no sistema democrático”.O aviso é da Associação Sindical de Juízes. Não aqueles que consideram legais os cortes de vencimentos, a subtracção dos subsídios de Natal e de férias, o aumento de meia hora de trabalho, mas sim dos que não conseguem meter na cadeia um político corrupto, ou um banqueiro desonesto,porque demoram décadas a decidir um processo, impotentes para ultrapassar as manobras dilatórias. Daqueles que são lestos a condenar os pobres que não têm dinheiro para pagar a advogados que façam enrolar o processo em recursos e outras artimanhas processuais.

Ao lado, outra notícia anuncia que um ministro renunciou ao subsídio a que legalmente tinha direito, mas a que devia ter renunciado por princípios éticos e morais, tendo em conta a situação do país e não porque a opinião pública o condenou no tribunal da civilidade.

Olhos cravados no chão, pergunto se valeu a pena ter pautado a minha vida por princípios éticos na minha relação com o Estado.

Se valeu a pena ter sempre pago os meus impostos pontualmente, mesmo quando vivia no estrangeiro e sabia que nunca seria reembolsado das verbas que estava a descontar.

Pergunto-me se valeu a pena ter sempre reclamado facturas, para evitar que comerciantes e prestadores de serviços fugissem ao IVA.

Questiono-me se deveria ter aceite propostas para receber honorários pelos meus trabalhos sem passar recibos verdes, eximindo-me assim a pagar IRS.

Sempre cumpri com os meus deveres, mas não posso dizer o mesmo do Estado em relação a mim. Essa entidade abstracta que devia ser pessoa de bem avisou-me tarde e a más horas, depois de eu ter entregue o meu trabalho, que só poderia pagar-me se aceitasse uma redução de 20 por cento nos honorários que acordara comigo em Janeiro.

Essa entidade toda poderosa, que negoceia esgrimindo o seu poder, faz tábua rasa da outra parte e remete-a para os tribunais quando não cumpre com a palavra dada.

Olho para o relógio. Está na hora de regressar a casa, porque dentro de alguns minutos um profissional vai lá reparar uns estragos efectuados ontem pelo vento em fúria.Pago a conta. O empregado pergunta-me se quero factura. Desta vez não esbugalho os olhos e respondo agressivamente “claro que quero factura!” . Respondo “Não, não vale a pena...”

No caminho de regresso a casa, enquanto penso num país que convida os seus cérebros a emigrar, condena a classe média à míngua, mas concede aos seus governantes e à classe financeiramente poderosa, a manutenção de privilégios e mordomias, pressinto que me transformei.

Quando o profissional me disser “ é X com IVA, ou Y sem factura”, responderei:“ Sem factura. Poupo no bolso e poupo o ambiente”.

Tornei-me um mau cidadão. Mas tinha alternativa?

Gracias a la vida

Nunca partilhei deliberadamente com os meus leitores a data do meu aniversário, embora todos os anos seja surpreendido por alguns que aqui a lembram. Este ano, por causa de um maluquinho que previu o fim do mundo para o último sábado, dei por mim a escrever um post em que anunciava a efeméride ao mundo blogosférico…com três dias de antecedência!
Nunca gostei de festejar o meu aniversário com bolos e velas, amigos a cantarem o “Parabéns a você”, porque esse momento me deixa constrangido e a interrogar-me:
“ Parabéns, porquê? Que fiz eu na vida para merecer que me cantem os parabéns? Tive algum poder de decisão na escolha de vir ao mundo? Fiz alguma coisa pelo mundo que mereça ser celebrado?"
Se alguma influência tive na forma como construí a minha vida, foi quando abandonei a casa dos meus pais e passei viver a minha vida por conta e risco.
Rumei a Lisboa, com 17 anos - para frequentar um curso de Direito que nunca me empolgou - sabendo que seria um porto de escala para o mundo que decidi abraçar com ambas as mãos, percorrendo-o em lugares expostos e recônditos, sentindo o pulsar de outras vidas mais desfavorecidas que a minha e a daquelas que nunca almejei alcançar, porque há padrões de vida que não me despertam qualquer interesse.

Não sei se a minha vida é boa ou má. Talvez já tenha vivido outras mas, como não me lembro, vivo esta como se fosse a primeira- a única- sem fazer comparações.Sei que não gostaria de viver certas vidas. Daquelas muito organizadinhas, com empregos das 9 às 5, regresso a casa com passagem obrigatória pela escola para ir buscar os filhos que alguém deixou lá pela manhã, fazer o jantar, tratar dos filhos, pô-los a dormir e depois de uns minutos diante do televisor ir para a cama à espera do dia seguinte. Jantar uma vez por semana em casa dos pais ou dos sogros, almoçar fora no domingo, ou jantar no sábado,Natais alternados em casa dos pais ou dos sogros, férias em Agosto, porque as aulas dos filhos, a profissão, ou outra merda qualquer, a isso obrigam. Nem sei se vidas destas são realmente vidas, ou programas de computador delineados com algum cinismo por alguém que decidiu divertir-se. Mas isso é argumento para outra história…
Também não gostaria de ter vida de político. Alternando entre concessões a amigos e oposições e consensos com os lobbies que têm mais poder do que os governos. Em deslocações constantes de carro ou avião, mas sem tempo para saborear os prazeres dos locais por onde se deslocam. Com a sensação, permanente, de que estaria a gastar dinheiro dos impostos dos contribuintes que, com o esforço do seu trabalho, me pagam o salário e as extravagâncias. Está bem, eu sei que o Berlusconni vai às putas com dinheiro dos contribuintes e não se chateia nada com isso, mas comigo não dava…
Também não gostava de ser vedeta. Nem do desporto, nem do espectáculo. Passar a vida a ser assediado por fanáticos a pedirem-me autógrafos, perseguido por “paparazzis” ansiosos por me apanharem a “curtir” com uma fulana numa piscina ou numa praia, fazer anúncios idiotas a produtos que nem consumo, frequentar festas do “jet set” e deixar-me fotografar com um sorriso nos lábios, quando a minha vontade é correr tudo à lambada, não faz o meu género.
Sou demasiado preguiçoso para ser vedeta. Gosto da minha privacidade e do convívio, em paz, com gente que valha a pena. Detesto sorrisos de celofane, beijar mamas de silicone, conversar com idiotas, aturar gente burra que gasta a vida nos convívios do croquete, a beber whiskey marado. Vedeta, para mim, também não dá!
Não sei se a minha vida é boa ou má. É a que tenho e não faço comparações com as vidas dos outros. Sei que sempre fiz escolhas de trabalho, com base no prazer. Trabalhar não pode ser uma angústia permanente, um sacrifício que arrastamos, como se estivéssemos agrilhoados a cumprir uma penitência. Tive sorte. Perdi algumas oportunidades, mas ganhei experiências de vida que não trocaria por ordenados milionários. Creio ter razões para considerar que, apesar de todas as agruras com que a vida me presenteou, tenho sido uma pessoa feliz.
Enquanto as minhas células não destrambelharem, os neurónios funcionarem sem percalços, os órgãos não se queixarem que os ando a tratar mal, as pernas me permitirem dar caminhadas à beira mar e os olhos me permitirem ver as belezas do mundo, continuo a achar que tenho uma boa vida.
Continuo a viver na angústia de saber que a democracia que nos vendem é uma mera contrafacção, fabricada pela direita dura que hoje está no poder em Portugal, disfarçada de coelho manso.
Continuo sufocado com a ideia de a Europa ser governada por disléxicos egoístas, dominados pelo valor do dinheiro, que não hesitam em roubar aos pobres para dar aos ricos.
Chego a esta idade, com a sensação de que pertenço a uma geração que perdeu a oportunidade de ser feliz, porque deu mais valor aos bens materiais, do que às pessoas. Porque acreditou que o povo pretendia a democracia, e não apenas ser igual aos ricos. O povo é ingrato, ignaro e insaciável na sua ânsia de se realizar no acesso aos bens materiais que a sociedade de consumo lhes proporciona.
Cheguei à curva descendente da vida sem me arrepender de ter abdicado de construir um lar, ter uma família, filhos, porque esse desejo ficou definitivamente enterrado no dia em que uns crápulas filhos da puta da ditadura militar argentina, me roubaram o direito a ser feliz.
Não sei se foi egoísmo ou inconsciência. Sei apenas que, talvez por isso não saber, continuo a cantar com Violeta Parra e a ter a certeza que estou disposto a dar a minha vida em defesa daqueles que sofrem na pele, as agruras provocadas por uns déspotas que lhes roubam o direito a ser felizes.
Durante a minha vida assisti à desvalorização a palavra amizade, vi muita pobreza, miséria,fome e injustiças, mas também aprendi, ao longo destas décadas, que o povo não merece que alguém se sacrifique por ele. O povo vota à direita. É ignaro, ingrato e egoísta.
A minha luta é ao lado ds que sofrem, dos injustiçados e dos que lutam por uma vida digna. Talvez também por isso, logo à noite, quando estiver a assinalar o meu aniversário, não ouvirei cantar os parabéns, nem terei velas para apagar. Sei, que a exemplo de outros anos, irão cantar comigo esta canção.
Depois, antes de me deitar, farei mais um risco no livro da minha vida e pensarei como Galileu, até adormecer…

Quantos anos tens?- perguntaram um dia a Galileu

- Oito ou dez, respondeu.
Perante o olhar atónito do seu interlocutor, esclareceu:
Tenho os anos que me restam de vida, porque os já vividos não os tenho mais.

Grandes Bandas (17)


Habituemo-nos então ao silêncio, porque dizem que é de ouro e em tempos de crise...