sexta-feira, 15 de julho de 2011

Crónicas do meu bairro



Hoje, pela manhã, cumpri o ritual de domingo com algumas horas de avanço. Levantei-me cedo. Como habitualmente, quando passo o fim de semana em Lisboa, fui comprar os jornais do dia, mas surpreendi-me com o aparato pouco comum num bairro tradicionalmente pacato. Duas carrinhas da polícia de intervenção pejadas de agentes, aguçaram-me a curiosidade. Perguntei ao dono do quiosque o que se passava:

-“ Dizem que andam à procura dos tipos que assaltaram o ferro velho”

(Sim, leitores, para minha desgraça, tenho varanda virada para a sucata. Algo inexplicável numa zona de Lisboa onde, ainda há meia dúzia de anos, via as ovelhas a pastar e podia comprar legumes frescos, arrancados da terra no momento, a um lavrador que ousava resistir. Agora, o meu horizonte restringe-se a um ferro velho e dezenas de prédios em construção, que a breve prazo ameaçam invadir a minha privacidade).

Voltemos à história, ouvindo o resto da narrativa . Acrescentou o sr. Abílio que lhe tinham contado pormenores do assalto:

- “ Parece que não roubaram nada do ferro velho, mas cortaram uma perna com uma serra ao guarda...”

Saí arrepiado com a narrativa e fui até ao café. Fiz a mesma pergunta ao proprietário. A narrativa sr Alberto foi ainda mais arrepiante. Que sim senhor, que tinham cortado a perna ao homem, que tinha uma barra de platina.

- “ Veja lá o que estes malandros fazem pelo dinheiro. Ouvi dizer- mas nem acredito- que também lhe tiraram um rim!”

Lidos os títulos dos jornais e tomada a bica, fui passear para o jardim. Encontrei um vizinho que manifestava idêntica surpresa com o aparato policial. Contei-lhe o que ouvira na tabacaria e no café e ouvi a sua versão:

- “Ah sim? Olhe, fui ali à mercearia e o sr Alcides ( é verdade, caros leitores, no meu bairro os proprietários dos estabelecimentos mais populares têm todos nomes começados por A. Podem crer que não é ficção, é mesmo verdade!) contou-me que o assalto tinha sido num ferro velho da Charneca! Por acaso o guarda de lá até parece que é irmão deste daqui! Mas o que ele me disse é que o homem fez frente aos ladrões e deram-lhe um tiro numa perna. Parce que a perna lhe foi cortada, mas foi no Hospital!”

Bom, apesar de tudo, esta era uma versão mais “soft”. Despedi-me confortado, continuei o meu passeio e acabei por me sentar à sombra de uma árvore acolhedora, para continuar as minhas leituras. Ao fim de algum tempo alguns polícias entram discretamente no jardim. Aguardei algum tempo, a ver o que se sucedia, mas os polícias depois de se deterem junto a uns recipientes de lixo deram meia volta e foram-se embora.Regressei a casa. No elevador encontrei um outro vizinho. Satisfeito por ter alguma coisa para dizer que extravasasse o âmbito metereológico que sempre serve de desbloqueador de conversas nos elevadores, perguntei-lhe se sabia as razões de tanto aparato policial.-

“ Parece que andam à procura de uma miúda de 14 ou 15 anos que desapareceu ontem à noite de casa. Saiu com uns amigos para irem até à esplanada, a miúda levantou-se para ir à casa de banho e nunca mais apareceu!”.

Surpreendido com esta nova versão dos acontecimentos, contei-lhe as versões que ouvira ao longo da manhã.~

-“ Nada disso! Essa história foi na semana passada, ali na Musgueira. O homem saiu ontem do Hospital numa cadeira de rodas. Imagine o que lhe havia de acontecer! A atravessar a estrada e é atropelado por um carro de uns ladrõezecos que tinham acabado de assaltar umas casas ali na Alta de Lisboa. E eram tudo miúdos, meu amigo! Acho que o mais velho tinha 18 anos...”


Aviso: Isto é um repost. Como foi publicado em Setembro de 2007, acredito que a maioria dos leitores não o tenha lido, por isso não vão levar a mal.