terça-feira, 12 de julho de 2011

Praias da minha vida (2)

Benidorm (España)- 1963


Comecei a passar férias em Benidorm, com os meus pais, em 1960. Nessa altura, Benidorm era praia e arvoredo, duas ruas alcatroadas, meia dúzia de ruas de terra batida, quatro ou cinco hotéis e eu uma criança.


Foi lá que aprendi a nadar, conheci o prazer de tomar banho em águas de 25º e não ter de andar à procura de espaço na praia para jogar à bola ou estender a toalha.


Todos os anos, durante mais de uma década, passávamos três semanas de Julho em Benidorm e esse tempo foi para mim, desde logo, um tempo de aprendizagem. Foi lá que aprendi a fazer ski e, como os meus amigos eram todos franceses, belgas, italianos e alemães ( nem espanhóis demandavam Benidorm nessa época) foi com eles que comecei a aprender a falar outras línguas. Foi lá que entrei pela primeira vez numa discoteca. Chamava-se Safari ( era a única que existia) e tinha cinco pistas de dança, três delas ao ar livre.


Foi lá que me tornei definitivamente francófono. Foi com alguns desses meus amigos que, já nos anos 70, percorri a Europa, durante meses, numa carrinha Volkswagen “pão de forma”. Foi com eles que descobri outros mundos, outros modelos de vida e alguns ficaram amigos para sempre.


Por tudo isso, Benidorm ficará eternamente gravada, na minha memória, como “a praia da minha vida”. Talvez seja por isso que ao ver Benidorm, 50 anos depois, transformada numa espécie de Hong –Kong mediterrânica, com todos os predicados para ser uma praia detestável no meu conceito de férias, não consiga desligar-me da nostalgia de outros tempos . Apesar de ter estado quase 20 anos sem lá pôr os pés, de ter encontrado as Playas de Poniente, Levante e Rincon de Loix, unidas como de uma única se tratasse, continuo a conhecer cada palmo de terreno da Playa de Levante do meu tempo. A saber o que (não) existia no lugar de um hotel ou de um gigantesco edifício de apartamentos. A entrar no hotel onde todos os anos nos hospedávamos e a lembrar-me de episódios passados na piscina, na sala de jantar, no quarto onde afogava lágrimas de desespero por um amor não correspondido.


Dentro de alguns dias voltarei a passar por lá, durante umas horas. Já lá não vou desde 1998, mas sei que o hotel ainda existe. E quase adivinho que, ao entrar no recinto da piscina, vou sentir o mesmo nó na garganta, a mesma emoção ao relembrar caras que cresceram comigo em verões sucessivos e episódios tristes e alegres. Depois, ao final da tarde, irei contemplar a praia, aquelas belas águas cristalinas, recordar mais alguns episódios e, por fim, jantarei à beira –mar uma paella acompanhada por um belo Rioja. Mas quando regresar eu conto…