sexta-feira, 8 de julho de 2011

Mistérios de Londrina

Londrina (foto Internet)






Hong Kong 1991



Terminado o Congresso Mundial das Associações de Consumidores, tinha de fazer um dossiê para o jornal “Tribuna de Macau” do sábado seguinte. Em vez de regressar a Macau, optei por ficar um dia na praia de Stanley, para escrever.



À hora do almoço fui comer qualquer coisa a uma esplanada cheia de ingleses. A empregada, mulher na casa dos 30, distinguia-se das loiras que animavam o espaço, pelo seu cabelo negro, mas também por uma beleza exótica que não compaginava com o estilo britânico. Desconhecendo a sua nacionalidade, fiz o pedido em inglês e peguei no livro que levara comigo ( A Casa do Pó de Fernando Campos).



Quando ela veio com o pedido olhou discretamente para a capa e, num português com sotaque adocicado, comum a muitos estrangeiros naquelas paragens, perguntou-me se era português. Feita a confirmação, perguntei-lhe se era brasileira. Era. De Londrina, uma cidade do Paraná de que já tinha ouvido falar, mas onde nunca estivera.A azáfama do restaurante e o trabalho que eu tinha para fazer, não permitiram grande conversa mas umas semanas depois fui passar o fim de semana com uma amiga a Stanley e, à noite, encontrei-a. Ela reconheceu-me, ficámos um pouco a conversar e acabámos por convidá-la para ir connosco a um bar. Conversámos até tarde, confessei-lhe o meu fascínio pelo sul do Brasil e ela não se fez rogada para enaltecer a sua cidade natal, de onde saíra dez anos antes e não voltara a visitar.Encontrámo-nos mais duas ou três vezes e prometi que um dia que fosse a Londrina, lhe mandaria um postal. Não cumpri a promessa, porque nunca lá fui.



……………………………………………………………………………………………



Vinte anos depois, nas vésperas de novo congresso mundial das associações de consumidores realizado em Hong Kong, refugio-me numa praia algarvia para repousar um pouco e preparar um trabalho sobre os temas que lá serão discutidos… Almoço tardiamente numa esplanada cheia de veraneantes descoroçoados com o tempo cinzento e frio que se faz sentir. Há muitas inglesas loiras. Peço uma salada que o patrão afiança ser uma especialidade e, enquanto espero, abro o livro que me acompanha e há já uns meses repousava numa longa fila de espera para ser lido: “A Loja das duas Esquinas” de…Fernando Campos.



A salada é normalíssima e, quando o patrão me pergunta “ Então que tal?” respondo com sinceridade “assim assim”. Percebo-lhe um ar de desconsolo na resposta, mas nada a fazer e acrescento: “Não fique triste. Voltarei aqui mais vezes, porque as pessoas são todas simpatiquíssimas e isso torna a comida mais apetitosa do que em alguns restaurantes onde se come bem, mas se é mal atendido”.



Ele agradeceu reconfortado.Na hora do café, uma das empregadas ( brasileira) perguntou:



“Então, gostou da salada?”



Respondi-lhe o mesmo que respondera ao patrão, adversativa incluída, para que percebesse as razões de tencionar voltar.Ela riu-se.Quando me trouxe a conta, aproveitou para explicar que o patrão era uma jóia de pessoa que dividia o ano entre o Algarve e o Canadá e confiava às empregadas toda a gestão do restaurante durante as suas longas ausências.Palavra puxa palavra ( o restaurante estava com bastante menos gente) perguntei-lhe de onde era no Brasil.De uma cidade do sul, que os portugueses não conhecem, mas que é muito bonita: Londrina!



Contei-lhe então a história da única brasileira de Londrina que conhecera até então…em Hong – Kong . Regressado a casa, não resisti e fui à Internet visitar Londrina antes de começar a trabalhar. Depois fiquei a pensar se são os Congressos das Associações de Consumidores realizados em HK, ou os livros do Fernando Campos, que estabelecem esta relação estranha entre mim e Londrina. Serão apenas coincidências?