sexta-feira, 1 de julho de 2011

Dissertação sobre os "bufos"

Embora muitos os considerem figuras mitológicas do tempo do Estado Novo, que se extinguiram com os cravos de Abril, os bufos existem mesmo. Aparecem sob diversas formas e sofrem de metamorfoses constantes. Deixo aqui, com todo o gosto, a identificação de algumas classes em que se dividem:
Bufo pé de cabra- Actua normalmente nos locais de trabalho. Insinua-se junto do chefe e quando percebe que um colega vai ser nomeado para um lugar importante, inicia o processo de destruição. Põe a circular notícias falsas sobre o visado ou deixa cair junto do chefe alusões a factos da sua vida pessoal.

Bufo profissional- Vive do mexerico. A sua frase preferida: “Eh pá, se eu fosse jornalista tinha muitas coisas para contar sobre aquele tipo”. Há quem lhes dê muita importância e goza de popularidade por estar sempre a par das últimas fofocas. Normalmente, o que tem para revelar é falso ou não vale um caracol, mas é disso que se alimenta. Alguns jornalistas gostam de os utilizar como fontes não identificadas.

Bufo-osga- É um sedutor. Faz amizades facilmente. Procura cultivar a amizade de pessoas influentes, insinuando-se com uma ou duas histórias verdadeiras. Ganha a confiança, a falta de material atractivo leva-o a inventar histórias. Quando percebe que já não tem crédito, procura outro hospedeiro. Tanto pode ser um jornalista, como uma pessoa influente, ou do “jet-set”, disposta a fornecer-lhe novas histórias que depois utiliza para se insinuar junto de outro jornalista.

Bufo-oportunista- É o maior inimigo dos locais de trabalho. Não faz nenhum. Anda sempre à espreita, para saber o que corre mal. Assim que obtém informação suficiente, mesmo sabendo que o assunto já está resolvido, lança a notícia cá para fora.

Bufo-saudosista- Vive no tempo do Estado Novo. É um agente da PIDE falhado. Se pudesse, escreveria no BI- Profissão:delator. Prolifera nos partidos políticos, mas mais nuns que noutros. Bufo de sacristia- Resulta do cruzamento do bufo-osga com o oportunista. Videirinho, procura passar despercebido, mas está sempre atento a tudo o que se passa à sua volta. Recolhe um conjunto de elementos que parecem encaixar e passa a informação no seu círculo restrito ou para os jornais. Gosta de viver em tribunais.

Bufo - cordeiro- Dizem-me que vive na madeira e é uma espécie de bicho do caruncho. Só denuncia quando a vítima está longe. Assim que ele se aproxima, torna-se um cordeiro. Dizem que está em vias de extinção, mas eu não acredito.

Como vêem, bufos não faltam, é apenas uma questão de escolha. Há quem considere a denúncia "do mais saudável que pode haver” eu até vos apresentava alguns exemplares, mas acontece que não sou bufo e esses animais não gostam de ser desmascarados. Pessoalmente, continuo a preferir as fontes credíveis que não me atazanam e a acreditar que o “mais saudável que há” é uma democracia sã. Coisas de velho sonhador. Quem me manda a mim ler o Luís Sepúlveda?