terça-feira, 28 de junho de 2011

Onze minutos






A Eva lançou este desafio e eu acedi prontamente. Como estava para partir de férias não tive tempo de escrever um texto original e pedi-lhe autorização para participar com um texto já publicado, que serve para homenagear o blog onde a conheci: The Big Chill . Então, aqui vai:



Não, não vou falar daquele livro do Paulo Coelho em que a protagonista é uma miúda que foi para Genève, porque acreditava que ganhar a vida na horizontal entre um abrir e fechar de pernas era “fixe”.
O título deste post reproduz um facto real, que ocorre na minha vida, e por vezes me provoca mais incómodos e transtornos do que à protagonista de Paulo Coelho, que ganha a vida em Genéve entre um bar de alterne e quartos de pensões esconsas. ( Se lerem até ao fim, verão que a minha estória, tem um final feliz...)

Acreditem ou não, onze minutos é o tempo que dura a viagem de metropolitano entre minha casa e o meu gabinete de trabalho. O tempo exacto que demora Maria ( na versão de Paulo Coelho) a abrir e fechar as pernas, a troco de umas centenas de francos suíços.
Nesse tempo que dura a minha viagem - cronometrei várias vezes e deu sempre certo- não ganho um chavo ( isso fica para os ceguinhos que andam a pedir esmola entre ladainhas e toques de acordeão, ou para crianças-mendigas acompanhadas de cãezinhos amestrados) , mas passo momentos tão desagradáveis como os da Maria.

Não levo com nenhum gajo em cima a arfar , é certo, mas ...ouço conversas indiscretas; aturo telemóveis a tocar; levo com jovens generosos que colocam os i-pod nos ouvidos em altos berros, para que os vizinhos possam partilhar a sua música; senhoras com carteiras gigantescas que a meio da viagem decidem procurar um qualquer objecto no meio da bagunçada que deve ser aquele espaço; jovens de mochila às costas que se esquecem que não viajam sozinhos e a cada movimento que fazem atingem o vizinho; crianças romenas ranhosas a pedir esmola; crianças portuguesas a fazer birras, perante o ar complacente das mamãs; ucranianas de decotes generosos e saias justas a fazer lembrar a Maria; sovacos suados a pedir uns esguichos de desodorizante... enfim, uma parafernália de protagonistas que confundem uma viagem de metropolitano com o sofá da sala, onde se esparramam diante do televisor a ver um filme, enquanto comem pipocas e libertam fluidos.
No Verão, quando pernoito em Lisboa, costumo fazer o trajecto a pé, mas hoje estava atrasado para mais uma daquelas sessões do Portugal Sentado* e por isso vim de metro. A viagem começou mal. Logo na Quinta das Conchas, senta-se ao meu lado um fulano, na casa dos 50 e muitos, artilhado com i-pod, de onde saía em doses generosas de decibéis, música dos MetalliKa!!! Em pé, junto a mim, um jovem ouvia música que não consegui identificar. Levantei os olhos do jornal, na busca de um lugar mais sossegado. Reparei que vários jovens iam de auscultadores enfiados nos ouvidos, outros faziam exercícios físicos, ginasticando os dedos em teclas de telemóveis e outros acumulavam as duas funções. Havia também gente com olhar distante e algumas jovens lendo livros. Fiquei onde estava.

Entre o Campo Grande e Entre Campos, começou o recital dos telemóveis a tocar. Fim de concentração na leitura. Senhoras a remexer nas carteiras à procura do aparelho e, depois, as conversas. Uma senhora dizia em altos berros ( para a filha, presumo) o que devia fazer para o almoço; outra, mesmo em frente a mim, telefonava para a empresa a dizer que estava atrasada, porque a camioneta que a devia ter trazido até ao Campo Grande avariara; um jovem mandava beijinhos sonoros ( presumo que à namorada, mas nos tempos que correm nunca se sabe...); outro, nervoso, anunciava à mãe que ia ter com ela ao local de trabalho porque “20 euros para almoçar e ir ao cinema não dá para nada, mãe!”. Já em Entre Campos o ceguinho - que pessoa amiga afiança ter encontrado a passar férias no ALLGARVE- irrompeu pela minha carruagem na sua lenga-lenga quase milenar. A escassos metros seguia uma velhota, que conheço há anos, exibindo uma receita. Pede, também há anos, que os passageiros comparticipem em despesas que deveriam ser suportadas pelo Estado.
Chegámos finalmente ao Saldanha. Já não posso mais...Estou na fila para passar a cancela onde devo colocar o passe a oscular a célula fotoelectrica . Vai chegar a minha vez. O Portugal Sentado* espera por mim. À minha frente só há uma senhora. De súbito, uma “murraça” no olho direito. A senhora à minha frente trazia o seu passe na carteira e, para o ir buscar, lançou inadvertidamente a carteira para trás, levando uma daquelas peças metálicas a atingir-me com violência.
É então que me lembro dos “Onze Minutos”. Fico na dúvida. Afinal, Maria é capaz de ter razão. Aguentar cenas destas todos os dias, e ainda ter de pagar por cima, é capaz de ser mais doloroso do que apanhar com um gajo em cima a arfar, a troco de umas centenas de francos suíços.Garanto que não vou tirar a prova, mas que fiquei a pensar na Maria, lá isso fiquei.O olho direito, infllamado, ainda me dói! A imagem de aflição da senhora e os sucessivos pedidos de desculpas, não me aliviam a dor.Logo à noite, quando for jantar com ela, talvez a dor passe... Para quem não saiba o que é o Portugal Sentado: ler aqui
* Post publicado em 26 de Junho de 2008