segunda-feira, 20 de junho de 2011

Já não há homens como dantes (2)



Depois da notícia da renúncia de Fernando Nobre ( podia ter evitado a humilhação de duas votações) , a confirmação de que André Villas Boas abandonará o FC do Porto para treinar o Chelsea.

Toda a gente tem direito a procurar melhores condições de vida e André Villas Boas não é excepção. Apenas me desgosta o facto de, há apenas um mês, André Villas Boas ter afirmado repetidamente que estava sentado “ na cadeira de sonho” e rejeitar qualquer hipótese de abandonar o FC do Porto.

O seu portismo não está em causa, mas podia ter levado até ao fim a sua dedicação ao clube que lhe deu protagonismo, tentando a conquista da Liga dos Campeões Europeus. As libras falaram mais do que o coração e – segundo a comunicação social- André vai para Londres, seguindo o trajecto de Mourinho.

Desejo-lhe felicidades, mas não posso deixar de lamentar que tenha trocado a sua palavra e o seu amor ao clube, por um punhado de libras. Já não há homens de palavra. Já não há homens como dantes…

Já não há homens como dantes (1)




No remanso do meu Rochedo, enquanto contemplo o mar, recebo um SMS dizendo que Fernando Nobre não foi eleito nem à primeira nem à segunda volta. Respondi: se tiver um mínimo de dignidade renuncia, evitando mais embaraços ao PSD e ao futuro governo.


O problema é que tenho muitas dúvidas quanto à dignidade de Fernando Nobre... que em virtude da polémica em torno da sua eleição, deveria ter recusado a candidatura e regressado à AMI.

Saúde privada, pecados públicos



O nome pouco importa, mas chamemos-lhe Luísa.

Trabalhadora dedicada numa fábrica nos arredores de Lisboa, há mais de uma década, começou há cerca de um ano a queixar-se de insuportáveis dores que lhe tolhiam os movimentos e quase a impediam de andar. O facto de trabalhar sempre em pé, entre oito e doze horas diárias e muitas vezes ao fim de semana, agravavam o problema.Um dia, o chefe convenceu-a a ir ao médico.

A empresa tem um seguro de saúde para os seus trabalhadores ao qual Luísa recorreu. Chegada ao hospital (privado) o diagnóstico foi rápido: hérnia discal. Estávamos em Dezembro e rimava com Natal, mas Luísa não foi bafejada com a bênção do menino Jesus, como adiante se verá.

Dois meses de tratamento depois as dores não abrandavam e o médico decidiu que teria de ser operada. A intervenção cirúrgica foi marcada para Março. Uma semana antes da data aprazada, Luísa foi à consulta. Ia trémula, porque a ideia da operação a assustava, mas saiu de lá com um sorriso de orelha a orelha. O médico disse-lhe que afinal não tinha de ser operada. Ia fazer um novo tratamento que lhe aliviaria as dores e dispensava a operação.

Nos meses seguintes as dores persistiram. Continuava a ir semanalmente às consultas, queixava-se, mas o médico insistia que devia ter paciência. Seria uma questão de tempo, mas ia ficar boa sem ser necessário recorrer à operação.

Luísa regressou a casa visivelmente feliz, elogiando a dedicação do médico e enaltecendo os serviços do hospital. Não que ela tivesse queixas dos hospitais públicos-bem pelo contrário- mas aquele hospital era um "luxo e tratava os doentes como deve ser".

No início de Junho, quando entrou no consultório do médico ele recebeu-a com ar grave. No hospital ( privado, repito) tinham-lhe trocado os exames. A operação era inevitável e devia ser feita urgentemente. Luísa perdeu por momentos o sorriso, mas ficou aliviada com a ideia de que se ia ver livre das dores que a atormentavam.

Marcada a operação para o dia 15, Luísa apresentou-se no hospital à hora marcada. Surpresa! Não seria operada, porque se tinham "esquecido" que naquele dia não tinham anestesista. Marcaram nova data para a intervenção: dia 28…

Entretanto, a empresa vai pagando o seguro e continua privada de uma trabalhadora.


(Há dias, o Observatório da Saúde divulgou um relatório aterrador sobre os atrasos no atendimento nos hospitais públicos. Um estudo com resultados à medida das intenções de Pedro Passos Coelho, que pretende privatizar a saúde. Vários hospitais reagiram, refutando as conclusões do Observatório e apontando várias irregularidades. Ameaçam mesmo recorrer aos tribunais, para que seja reposta a verdade. Luísa continua à espera de uma operação, cujo atraso e peripécias não constam do estudo do Observatório da Saúde ).

A história é verídica e, quando regressar de férias, espero poder dizer-vos que Luísa foi operada com sucesso e está restabelecida.

Eu já tinha avisado...

Escrevi isto no dia 11 de Março, a propósito da manif da "geração à rasca". Infelizmente, parece que tive razão. A geração à rasca preferiu ir para a praia em vez de votar e o regime em Portugal mudou. Retrocedeu 40 anos, como em breve perceberemos.

E a pergunta é...

Temos governo. Mas teremos futuro?