terça-feira, 14 de junho de 2011

Momento "bunga-bunga"

No arremedo de democracia que é o país de Berlusconni, os italianos pronunciaram-se por um rotundo e clamoroso não sobre coisas tão importantes como a privatização da água. Por cá, Pedro Passos Coelho pretende privatizar as Águas de Portugal e há por aí uns imbecis que aplaudem.

Recordando Borges

Jorge Luis Borges


(1899-1986)




Com seis anos disse ao pai que queria ser escritor. Foi não apenas escritor, mas um dos melhores de sempre. Morreu no dia 14 de Junho de 1986. Podia deixar-vos aqui um excerto de Aleph, para o homenagear. Mas optei por este passeio pelas ruas de Buenos Aires que ele tanto amava.

Férias em Lisboa




Já não me lembrava de passar quatro dias de descanso absoluto em Lisboa. Sem trabalhos para entregar, nem compromissos para cumprir, seria natural fazer como muitos portugueses e rumar ao Algarve para desanuviar, ou ficar mais uns dias pelo Porto, cumprindo obrigações familiares. Optei, no entanto, por ficar em Lisboa, fugindo do reboliço algarvio.
Tinha saudades de gozar uns dias em casa, sem horas para levantar, deitar ou refeiçoar. E que bem me souberam estes dias!


Cinemei, preguicei, volteei a pé, por Lisboa e pelo Rochedo, tapeei a desoras no Cockpit e no Bairro Alto, namorei, li e, na véspera de Santo António, vagueei pelos bairros de Lisboa depenicando uma febra na Graça e um chouriço assado em Alfama. Tão descontraído andei, que até fui surpreendido em poses menos próprias pela máquina fotográfica da Baixinha ( como a fotografia documenta) em véspera de Santo António.


A careca do padroeiro sobre a minha farta cabeleira tem uma história, mas fica para outro post. Por agora, apenas vos quero dizer que gozei quatro dias magníficos de férias, a preço muito acessível, enquanto Coelho e Portas discutiam o novo governo, esgrimindo um Nobre ( que até a uma lata de salsichas dá má reputação) como moeda de troca para as negociações.

Valor Acrescentado

Praça Duque de Saldanha (Lisboa)



Entro no Dolce Vita, no Atrium Saldanha ou no Saldanha Residence e pergunto-me: que valor acrescentado trouxeram aqueles centros comerciais a esta zona de Lisboa? Mais escritórios, comércio impessoal, restauração inóspita e standardizada, com nomes tresandando a globalização linguística e gastronómica. Perdeu-se um teatro e edifícios símbolo de uma época.

Olho para a fotografia e lembro-me do alfarrabista do Saldanha nos anos 60, onde era possível comprar, à socapa, livros que a Censura proibia. Foi lá que, com um grupo de amigos, comprei a trilogia do Henry Miller (Nexus, Plexus e Sexus) .

Foi lá que, dias depois da sua morte, “conheci" António Sérgio, personagem por quem me empolguei e me sensibilizou para o cooperativismo. Com um grupo de amigos criei a primeira cooperativa de que fiz parte. Tínhamos grandes planos que Marcello Caetano cortou cerces com a publicação do decreto-lei 520/71 que proibia as cooperativas de consumo de exercerem actividades culturais.

Olho para o Dolce Vita e lembro-me do Teatro Monumental, de Laura Alves e Palmira Bastos. Desço um pouco, pela Fontes Pereira de Melo e lembro-me de mim, puto, a beber informação à volta da mesa nas tertúlias do Monte Carlo, hoje substituído por uma loja da Zara.

O Monte Carlo era considerado por muitos “a catedral” dos cafés. Naquele imenso corredor cruzavam-se jornalistas, escritores, estudantes, actores de teatro e actrizes de revista, numa autêntica Babilónia. Havia muita gente que não ia ao Monte Carlo...vivia lá, desde manhã até à noite. Tertuliava, lia, comia, bebericava, jogava bilhar, damas ou xadrez, pregava partidas a partir de uma cabine telefónica que lá estava instalada ( ficou célebre a "estória" de alguém a chamar o Humberto Delgado ao telefone) e até cortava o cabelo!

Volto atrás, entro na Av da República e lembro-me da Colombo, rivalizando frente a frente com a Versaillles. Procuro valor acrescentado nos inóspitos centros comerciais que descaracterizaram o Saldanha e não encontro. Provavelmente estou mesmo a ficar velho e ainda não percebi…

O Direito à preguiça*



Parece que anda por aí muita gente escandalizada, pelo facto de os lisboetas terem tido o privilégio de um fim de semana com “extensões”, graças aos feriados de 10 e 13 de Junho. Provavelmente, essas pessoas voltarão a escandalizar-se na próxima semana, quando as gentes do Porto e de outras localidades a Norte tiverem fim de semana idêntico, por força do feriado nacional do dia 23 a que se segue o dia de S.João.
Já houve este ano, em todo o país, um fds de quatro dias. Foi em Abril, quando à sexta-feira santa se juntou o feriado do 25 de Abril na segunda-feira seguinte. Ninguém parece escandalizar-se com o facto de o dia 26 de Dezembro ser feriado na Madeira, esse sorvedouro de dinheiros públicos pagos pelos contribuintes do “Contenente”mas não faltam jornalistas que, em cada fim de semana prolongado, vêm com a ladainha do dinheiro que Portugal perde com os feriados.
Poderia perguntar a esses jornalistas porque não renunciam ao legítimo direito de acumulação de folgas, que lhes concedem em cada ano um número significativo de dias de férias suplementares. Mas não vou por aí. Desafio-os a aprofundarem um bocadinho a sua investigação e verificarem se isso é exclusivo do nosso país. Não é. Podia adiantar-lhes algumas pistas, mas não estou aqui para lhes poupar trabalho, apenas para lançar o desafio de trabalharem um bocadinho em vez de escreverem e dizerem disparates.
O problema deste país não é o número de feriados. Como já escrevi aqui, mais do que uma vez, Portugal não é o país da Europa com mais feriados. O grande problema deste país é trabalhar mais horas do que a maioria dos países europeus, mas não se rentabilizarem essas horas.
Já trabalhei muitas vezes em feriados, trabalho quase todos os domingos, nunca deixei de entregar um trabalho por ser dia de descanso semanal. Se querem procurar bodes expiatórios para a falta de produtividade dos portugueses, que tal irem procurar entre os nossos gestores? É aí que reside um dos grandes problemas da falta de produtividade lusa. Outro, são os horários desadequados de trabalho, pouco compatíveis com um país do sul. Obviamente que há muitos mais, mas não culpem os feriados, porque isso é de uma indigência confrangedora e demonstra a preguiça de quem escreve e debita disparates como um disco riscado.

* Recomendo a todos os indignados que aproveitem a reedição do livro de Paul Lafargue (O Direito à preguiça) e aprendam um pouco sobre as origens burguesas do trabalho e o direito à diferença, que nenhuma globalização, por mais tremendista que seja, tem o direito de eliminar.