terça-feira, 26 de abril de 2011

Da Síria aos acordos de Schengen

Não tencionava vir à net durante estes dias. Mudei de ideias, porque pouco antes de regressar a Lisboa vejo as notícias da hora do almoço e fico a par dos últimos acontecimentos na Síria. Já terão morrido mais civis naquele país do que na Líbia mas, ao que parece, ninguém está preocupado com o assunto ( pelo menos a notícia não faz qualquer referência a reacções ocidentais e jornais é coisa que não leio desde quinta-feira).



Não acredito, porém, que a indiferença dure muito mais tempo, por isso interrogo-me: será que a Europa e os Estados Unidos vão abrir mais uma frente de guerra, para evitar que o líder sírio continue a matar os civis que se manifestam contra o regime?Até quando terá a Europa capacidade para intervir nestes conflitos?



Entretanto, fico também a saber que Berlusconni e Sarkozy querem suspender os acordos de Schengen. Mais uma machadada na construção europeia, ou a confirmação de que a intervenção na Líbia foi o abrir de uma caixa de Pandora de consequências imprevisíveis?



Regresso a Lisboa (só por quatro dias) com algumas dúvidas e muita apreensão. Este ano do Coelho que os chineses prometiam ser um ano tranquilo, está a transformar-se num barril de pólvora.






Gato por lebre

Creio já vos ter dito que me irrita esta mania de o Ocidente querer exportar a democracia e impô-la a outros povos, como se o mundo globalizado tivesse de submeter-se ao pensamento único emanado da Casa Branca ( a Europa já não conta, porque é uma cópia rasca do modelo americano).


Ninguém pode ficar indiferente face às atrocidades cometidas no Irão, ao desrespeito pela liberdade de pensamento na China ou aos massacres étnicos em África. Mas a indignação dos democratas não pode circunscrever-se ao que se passa no “mundo bárbaro”. É altura de olharem também para dentro dos seus países e se indignarem com a situação a que a democracia formal, praticamente reduzida à possibilidade de votar e dizer ou escrever ( quase) tudo o que nos apetece, se reduziu.
Numa democracia sã, os cidadãos devem indignar-se contra o obsceno tráfico de influências que permite a umas famílias perpetuarem-se no poder e a outras transformar os mercados e o sistema financeiro num regabofe, explorando quem trabalha e cumulando-se mutuamente de privilégios.


Estou-me marimbando para as democracias parlamentares formais, onde um séquito de encartados com o cartão partidário se limita a aplaudir ou a apupar, a jogos de bastidores onde a manipulação anda de braço dado com a corrupção e se trocam favores entre o sistema financeiro e político.


Estou-me borrifando para uma democracia onde o sistema educativo incentiva as pessoas à péssima conduta do “salve-se quem puder” e o dinheiro, os mercados e a economia se erigiram, quais deuses pagãos da velha Grécia, a seres supremos que comandam a vida dos povos.


Estou-me nas tintas para uma democracia onde o poder político, para alimentar os seus vícios privados, vai distribundo prebendas a uns e extorquindo o dinheiro de quem trabalha, castigando-os com aumentos de impostos e redução de salários.


É-me indiferente uma democracia onde o sistema de ensino não promove a cidadania, não condena a insídia, e não incute nos cidadãos o respeito pelo direito à diferença, ao aborto, ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, ou os direitos dos imigrantes e das minorias étnicas…
Quero lá saber da democracia, se a justiça que ela promove é a do favorecimento dos ricos e poderosos e a condenação do cidadão comum.


Que se dane uma democracia que se preocupa em adormecer os cidadãos com o consumismo desenfreado, condenando-os a pagar em dobro o endividamento a que foram incitados e, quando a classe dominante se vê à rasca, obriga-os a pagar novamente.


Que se lixe uma democracia onde os velhos são vistos como um fardo, os desempregados como uns malandros e os doentes um peso para o erário público.


Quero lá saber de uma democracia onde o povo adormecido pelo embalo da sereia consumista erigiu o desfrute dos bens materiais como o supremo valor da liberdade!


Que me interessa uma democracia onde os media desenham o mundo a preto e branco, dividem as pessoas entre boas e más, inventam notícias, ou criam factos políticos, para defesa dos patrões? Eu quero é que me devolvam a democracia activa e não um modelo pronto a vestir tamanho único.
Um pais que não consegue educar o seu povo nos valores democráticos e só reclama esses valores para que uma elite se mantenha no poder, apaparicando a alta finança, é um país democrata? É esta sociedade merdosa, dominada pelo capital, onde campeia o individualismo e o salve-se que puder, o consumismo se tornou num culto incensado pelo mercado e as cotações da bolsa são a nova bíblia, que define o modo de conduta de uma sociedade, que queremos exportar? A troco de quê? Da liberdade de expressão que permite a um qualquer parasita encartado envolver um primeiro –ministro num escândalo de contornos obscenos, sem que tenha de provar em tribunal as suas acusações?


O Ocidente está a querer vender gato por lebre e, por isso, acho muito bem que a China nos mande dar uma volta e que os novos líderes sul-americanos, preocupados com o bem estar do seu povo, se riam dos que os acusam de populistas e totalitários. Rigoberta, a guatemalteca galardoada com o Prémio Nobel da Paz em 1992 percebeu isso, na hora de receber o prémio.