terça-feira, 19 de abril de 2011

Reciprocidade

As vindas ao Porto com tempo primaveril devolvem-me alguns prazeres antigos. Estou , por isso, sentado numa esplanada da praça que para mim sempre será de Velásquez e aproveito para dar uma vista de olhos pela imprensa de fim de semana.No “Público” uma pergunta:

“ O Estado deve pedir desculpas à Igreja Católica pelos erros da I República?”
Devolvo a pergunta:

“ A Igreja Católica deve pedir desculpa aos portugueses pelo apoio que deu ao Estado Novo?”
Embalado, aproveito para reformular a pergunta:
“A Igreja Católica deve pedir desculpa aos cidadãos de todo o mundo pelo apoio que tem dado às ditaduras em todo o mundo, especialmente na América Latina, onde combateu as democracias?”
A resposta é inequívoca. À memória vêm-me os filmes de Costa Gravas, as recentes condenações de padres que pactuaram com a ditadura argentina e foram responsáveis por dezenas de crimes, o apoio de membros do clero a Pinochet, a cumplicidade com os voos da morte e muitos, muitos outros crimes de que a Igreja é responsável em todo o mundo.

A troika lê o CR

Alguém da troika anda a visitar o CR mas, como não querem reconhecer que andam a espiolhar os blogs portugueses, optaram por esta ideia. Menos lucrativa para as nossas contas e mais penalizadora para os portugueses do que a venda da Madeira que eu aqui propusera.
Já agora, senhores do FMI, do BCE e da UE, será desta que vão acabar com os governos civis? Era uma boa ideia, sabem?

Do Tachele a Christiana, ou o apagão da História europeia













Em apenas uma semana, duas notícias me fizeram estremecer tanto como a chegada do FMI, ou os ataques à Líbia. No entanto, ambas estão intimamente ligadas com estes factos e numa diferente perspectiva de abordagem da que os media insistem em impingir-nos, são também um sinal da decadência da Europa.
A primeira veio de Berlim. Falava-me do Tacheles, ( à esquerda) o edifício da contra –cultura europeia que vai desaparecer . Um milhão de euros foi quanto alguém (sem rosto) pagou aos okupas para abandonarem o local. Um milhão de euros foi o preço para apagar uma parte da História berlinense, mas também da História da Europa, cada vez mais despida de referências que a façam orgulhar-se do seu passado.
Um dia ainda hei-de escrever sobre este edifício que simboliza(va) a liberdade daqueles que insistiam em manter-se à margem de um modelo social que aniquila a criatividade. Hoje, porém, limito-me a fazer referência à segunda notícia que me fez eriçar os pêlos e aguar os olhos. Christiania, a cidade da Liberdade e da Utopia, às portas de Copenhaga, que simboliza(va) a revolta contra o capitalismo, paraíso de hippies , artistas e músicos, está à beira do extertor. Mais uma vez, o establishment venceu. A aldeia global dominada pela economia de mercado, onde a ideologia é o capitalismo selvagem, está a um pequeno passo de enterrar mais um pedaço da sua cultura, em nome dos sagrados direitos do dinheiro.

Sobre Christiania e a visita que lá fiz em 2009, podem ler o que então escrevi. Estive a reler e senti-me bem a recordar aqueles dias. Sobre o Tachele, escreverei noutra oportunidade .

Traições da PDI

No sábado, quando fui para o Porto, já ia atrasado para apanhar o comboio, quando saí de casa. Peguei nas coisas à pressa e lá fui apanhar o metro até à estação do Oriente. Só dentro do comboio é que percebi que ia leve demais. Levava a mala, mas esquecera-me de lhe acoplar o portátil que normalmente viaja comigo. Resultado: três dias sem internet e a escrever à mão. Quando ontem à noite regressei a casa, o portátil lá estava, em cima da secretária. Creio que ao ver-me esboçou um sorriso e murmurou:

- Deixa-me agradecer à tua PDI pelo fim de semana descansado que me proporcionou. Já tinha saudades de passar um fim de semana descansado. Espero que ela te faça esquecer-te de mim mais vezes.

Vá lá, vá lá, que sou um tipo prevenido e agendei os posts antes de partir, caso contrário ainda iam pensar que eu estava em greve.

Late night wander (87)

É bom lembrar que nos últimos anos o FMI foi obrigado a rever sistematicamente em alta as previsões negativas que fez sobre Portugal. Anunciar, na véspera da chegada a Lisboa, um cenário catastrófico para 2012, só pode ser entendido como uma forma de valorização do dinheiro que nos vai emprestar, legitimando as medidas draconianas que pretende impor como contrapartidas.


E se alguém tiver dúvidas sobre o total desconhecimento da realidade portuguesa, por parte do FMI, então o melhor é ler isto, para ficar esclarecido. Classe média forte? Devem estar a brincar connosco.