terça-feira, 5 de abril de 2011

Obrigado!

Há pouco fui ver o site meter. Surpresa! No mês de Março o CR bateu o record de visitantes: 13 588! ( o anterior tinha sido batido em Fevereiro com cerca de 10 mil) Se me perguntassem há uns tempos que acreditava ser possível ter uma média superior a 450 visitantes por dia, respondia convictamente que não. O meu tempo para visitar os blogs de que gosto já é pouco, quanto mais para me apresentar a novos, na tentativa de captar mais leitores... Fiquei por isso muito surpreendido, mas também muito grato, a todos os que têm a amabilidade de me visitar, comentar ou fazer links nos seus blogs. Obrigado a todos!

Estou quase a atingir os 250 mil visitantes em três anos e meio de vida do CR ( quase 2oo mil desde que tenho o site meter, há 28 meses). Nesse dia vou tentar retribuir a vossa fidelidade com um presente. Valeu?

E eu a vê-los passar...


E lá vai o esqueleto a descer do Castelo para a Rua da Palma, depois de duas entrevistas e um almoço mal amanhado numa baiúca de circunstância, cuja gastronomia o estômago que o acompanha nunca antes experimentara.

Move-se à velocidade de uma noite mal dormida, em celebrações para que já não tem idade, levando a tiracolo máquina fotográfica, gravador e toda a parafernália de equipamentos necessários ao sustento do corpo que o transporta. Não sabe se está calor ou vai demasiado agasalhado para a época do ano. De manhã, ao levantar, só tinha memórias de água jorrando de torneiras sobre um relvado subitamente escurecido. Talvez por isso pensou que ia chover nesse dia e preveniu-se.

Pelas ruelas do caminho, recorda-se das fugas da noite da véspera, por transversais da Av. da República tentando escapar de uns emboscados que lhe queriam tirar o cachecol do seu clube. Debalde. O amado símbolo acabou na mão de uns meliantes que num ápice lhe pegaram fogo entre gargalhadas cavernosas, acopladas de cobardes ameaças.

Quando desagua no Martim Moniz avista um autocarro cheio de turistas. Estão de braços nús, máquinas aperradas, disparando fotografias que acondicionarão, dias mais tarde, num qualquer álbum de recordações. Por um momento tem vontade de subir para aquele autocarro, mas desiste de imediato. O autocarro não tem asas para o levar à cidade onde gostaria de estar nesse momento e ainda tem mais duas entrevistas para fazer durante a tarde- lembra-lhe a mente sempre pronta a chamá-lo à razão. Inveja os turistas, lança-lhes um aceno sem fazer um gesto, porque a mente não o acompanha no mesmo sentir e entra no edifício da Rua da Palma onde vai fazer a entrevista.

A paragem seguinte- última do dia- é na Rua da Emenda. Atravessa o Rossio, sobe a Rua do Carmo e ao passar junto da esplanada apinhada da Brasileira diz à estátua de Fernando Pessoa, ocupada a servir de modelo a turistas que com ela querem posar, “Volto já!”

Voltou quase duas horas depois. É fim da tarde, as pessoas movem-se no sentido inverso ao de todas as manhãs, de regresso a casa. A esplanada continua cheia. Espera uns minutos por um lugar vago. Atira-se finalmente para cima de uma cadeira e pede ao corpo que o deixe descansar. Mal se senta, a mente liberta-se do esqueleto e restantes partes do corpo. Pede um Ginger Ale com rodela de limão, indiferente aos apelos do estômago, que reclama alguma coisa que o conforte até à hora do jantar.

Quando o empregado volta com o Ginger Ale na bandeja, o estômago rebela-se e pede uma tosta mista. Bem passada e sem manteiga.

- Sem manteiga não temos. Só se for sem margarina, esclarece o empregado.

Indiferente ao sofrimento do estômago, a mente dessedentou-se e começou a fazer planos. Daqui a três semanas estarão todos em Hong-Kong, longe do Chiado,mas felizes por abandonar Lisboa por uns tempos. O trabalho que a espera será árduo, exigir-lhe-á grande esforço, mas não se preocupa. A distância faz-lhe bem, oxigena-lhe os neurónios, revigora-a.

O esqueleto lê-lhe os pensamentos e reclama:

- Lá vou eu ter de andar um dia inteiro de avião, quase sem me poder mexer, sem espaço para me esticar, a ter de suportar o vizinho da frente que não pára quieto e ora reclina a cadeira, roubando-me ainda mais espaço, ora se põe hirto, e o vizinho das traseiras inquieto, que cada vez que se levanta me espeta os joelhos na coluna. Já não tenho idade para isto. Qualquer dia recuso-me a fazer estas viagens…

Reconfortado com a tosta mista, o estômago entra na conversa.

"Eu também não sei até quando consigo aguentar. Já não suporto comida chinesa, nem a cerveja Tsing Tao. Provocam-me azia e flatulência. Vê lá se tens juízo, ó mente, e me levas a uns restaurantes de comida ocidental. Bem podíamos ir para a Argentina… ao menos lá temos os belos bifes de chorizo, os assados de tira e outras coisas boas que não me irritam as paredes, nem obrigam o suco gástrico a fazer horas extraordinárias".

Vocês estão velhos! - reclamou a mente. Andaram a fazer asneiras durante toda a vida e agora reclamam, não é?

O estômago deixou escapar um arroto.

-Estás a ver, ó mente estúpida ? Isto são efeitos do Ginger Ale. Não me estou a sentir lá muito bem. O melhor é irmos para casa…

Eu ainda ficava mais um bocadinho- disse o esqueleto, pedindo o assentimento da mente.

Perdeu a votação. A mente concordou com o estômago. Também se sentia cansada do folguedo da véspera. Precisava de dormir uma sesta antes de se atirar de novo ao trabalho. Ouvir as entrevistas,alinhavá-las,dar-lhes a coerência necessária à formatação de uma reportagem.

Desceram a Rua Garrett e a Rua do Carmo. O esqueleto rangia, o estômago esforçava-se por conter os arrotos e a mente lá ia, gaiteira, a pensar em Hong-Kong, na ida ao Festival de cinema de Cannes e ao Roland Garros em Paris. Quando chegaram ao Rossio , avistaram outro autocarro cheio de turistas. O esqueleto e o estômago suspiraram em uníssono:

-Quando chegará a nossa vez?

A mente fingiu não ouvir. Estava chateada porque os seus companheiros já não a conseguiam acompanhar com a desenvoltura de outros tempos. Quando chegou a casa telefonou para a clínica para marcar um “check –up” Ou me reparam estes empecilhos, ou dão-me outros novos. Começo a não ter pachorra para os aturar.

O coração, até ali calado, deixou escapar uma lágrima furtiva pelas janelas do seu olhar e advertiu-a:

-Tens de os respeitar e dar-lhes algum descanso. Já te deram muitas coisas na vida. Se eu também estivesse velho, trocar-me-ias por outro?

A mente reflectiu um pouco e respondeu:

- Não, meu querido coração, não encontraria nenhum outro como tu.

Rostos de Abril (2)

Otelo Saraiva de Carvalho

Late night wander (76)

Nem tudo vai piorar se o PSD vencer as próximas eleições. Imaginem só o número de automóveis novos que vão ser comprados para os gabinetes dos ministros e secretários de Estado.