sexta-feira, 1 de abril de 2011

As boas notícias de Cavaco

O PR dissolveu ontem a AR e deu início, formal, a um período de três meses de vazio.Durante os próximos dois meses os partidos vão esgrimir argumentos, tentando captar o voto dos eleitores. O mais provável, é que na noite de 5 de Junho seja declarado vencedor o partido que melhor conseguir esconder aos portugueses as medidas que irá tomar. Indicam as sondagens e os recentes episódios "pinoqueiros" do seu líder, que esse partido será o PSD e que poderá formar um governo de maioria com o CDS/PP.

Uma maioria de direita na AR não é uma boa notícia para quem trabalha. O BE, que nas legislativas de 2009 ainda conseguiu captar muitos votos de protesto será, certamente, o partido mais penalizado, ficando reduzido a uma expressão mais consentânea com a realidade. Talvez se arrependa de ter sido o primeiro a desencader a crise, com a apresentação da moção de censura, mas será tarde para emendar a irresponsabilidade. Muitos dos seus eleitores, perante a possibilidade da ascensão da direita, optarão por voltar a votar no PS.

Depois de dois meses de campanha eleitoral, o país estará na mesma situação em que se encontra agora, ou talvez pior… Depois de regressarem de um período de férias que a conjugação de vários feriados irá permitir, os portugueses vão começar a conhecer as novas caras que os irão governar. Perceberão que a prometida redução de ministérios será insignificante, porque uma aliança entre PSD e CDS obrigará a uma distribuição alargada de lugares.

Nos primeiros dias de Julho, depois de o novo governo tomar posse, ter comprado novos carros e novas mobílias para os gabinetes e encomendado a empresas com cartão laranja a renovação da imagem dos sites dos ministérios e direcções gerais, os portugueses começarão a arrepender-se do seu voto. Despedimentos na função pública, cortes ( ou eliminação) do subsídio de Natal, redução de salários e despedimentos na função pública, aumento do IVA, dos decontos para a ADSE, SS e CGA, anúncio de privatizações, pedido de ajuda externa , redução das reformas, alargamento da idade da reforma, acesso aos serviços de saúde mais dificultados, são algumas das medidas inevitavelmente anunciadas em Julho e Agosto.

Em Setembro, regressados de férias, muitos dos professores que exultaram com o chumbo da avaliação, vão perceber que têm os seus lugares em risco, enquanto o sindicato dos professores continuará a fazer tudo para impedir a avaliação e manter o poder que tem dentro das escolas. O governo arrepender-se-á do chumbo do sistema de avaliação e, quanto ao resto, dirá que tudo isto estava no programa do PSD – que ninguém vai ler e a comunicação social esconderá. Em Setembro, os portugueses despertarão finalmente para um longo Inverno que os mergulhará numa depressão que nenhum Xanax , Prozac ou similar ajudará a debelar. Os muitos que se vão abster lamentarão a imprevidência da sua (não) escolha, deixando nas mãos dos fiéis eleitores da direita - que mesmo ligados ao ventilador e em estado pré- comatoso, não deixarão de votar- a decisão sobre o futuro do país. Lembrar-se-ão, alguns, que foi graças à abstenção que Cavaco foi reeleito em Janeiro.

Foram estas as boas notícias que o PR deu ontem ao país. Obrigado, senhor Presidente, mas tudo poderia ser agora tão diferente se outro estivesse, neste momento, a ocupar o seu lugar em Belém! Manuel Alegre bem avisou, mas os portugueses não lhe deram ouvidos...

Milagre!

Esquina da Memória (16) - Uma criança de Abril


Américo é um "sem abrigo" que, ainda há pouco tempo, gastava as suas noites para os lados da Almirante Reis.Aos oito anos, os pais privaram-no de ir à escola e arranjaram-lhe um trabalho na fábrica têxtil onde trabalhavam "para ajudar o sustento da família". Sempre que podia, "fugia" da fábrica para a escola, porque "aprender com o que se passa no mundo era tão importante para mim como beber um copo de água ". Perdeu a conta às vezes em que dormiu afogado na dor de uma tareia "por não cumprir os seus deveres com os irmãos mais novos". Carregado por sentimentos de culpa, lá se foi habituando à ideia de que os livros "eram uma coisa de ricos " a que não podia aspirar e confortou-se com a ideia que o seu destino era ficar naquela aldeia beirã a cuidar dos irmãos mais novos. Um dia, o Pai disse-lhe que não iam trabalhar porque tinha havido uma revolução em Lisboa e estavam em Liberdade. Não sabia bem o que era isso de Liberdade, por isso correu para a escola para perguntar à professora. Encontrou a escola fechada, mas a professora estava à porta avisando os meninos que não havia aulas porque chegara essa tal de Liberdade, uma coisa que devia ser fantástica porque toda a gente falava dela. À sua pergunta, a professora respondeu com uma frase mágica: "Américo, agora ninguém te pode impedir de estudar!".

Tão iludido como a professora, Américo voltou à escola dias depois,ignorando as ameaças do Pai. Às habituais sovas paternas somaram-se outras do patrão e Américo começou a planear a fuga. Arranjou uma boleia, alegando que ia ver o pai" que estava a fazer a revolução em Lisboa". "Quando cheguei a Lisboa, havia tanta gente na rua, que me assustei.Não sabia para onde ir, mas sentia-me feliz porque toda a gente se ria para mim. Durante noites não dormi, mas comi até fartar porque todos me davam de comer e cheguei mesmo a comer em restaurantes".

Américo tinha então apenas 13 anos, não percebia o que se passava à sua volta, até que começou a ver que cada vez menos gente se oferecia para lhe comprar um copo de leite,ou apenas uma sandes.Não sabia o que se passava, mas começou a sentir fome e, como não tinha dinheiro, começou a entrar em cafés e restaurantes oferecendo-se para trabalhar.

"Um dia alguém teve pena de mim e deixou-me ficar por um café onde, em troca de comida, levantava as mesas e lavava a louça. Mas durou pouco tempo... Uma manhã o patrão apanhou-me a dar um beijo à mulher- que não me largava- disse-me que me desenrascasse porque a vida estava má e ele ia fechar a loja. Sabia que era tudo "tanga", mas não tive outro remédio que não fosse voltar ao meu poiso no Rossio, até ser expulso para aqui. Trabalho arranjo de vez em quando, mas é tudo trabalho sujo e gostava de voltar à terra. Nunca mais vi ninguém de lá, não sei se os meus pais morreram ou estão vivos, mas tenho medo de voltar. Ninguém mais quis saber de mim, acho que as pessoas nunca me deram trabalho porque tiveram inveja de mim. Era bonito, as "garinas" encantavam-se e quem me podia dar emprego cortava-se. Agora sou um trapo."

Américo tem agora 48 anos, poucas razões para sorrir e muitas para desesperar.

Aviso: Não sei se a história é real. Conto-a pela voz do protagonista

E eu? E eu? E eu?

Estamos em Abril e ainda não fui contactado por ninguém para responder ao questionário do Censos 2011. Na quarta-feira perguntei à porteira do prédio e ela disse-me que há duas semanas tinham cá vindo duas vezes de manhã. Como é óbvio não encontraram quase ninguém e disseram-lhe que, se tivessem oportunidade, passariam à noite.

Um vizinho, com o mesmo problema, disse-me que tinha tentado responder pela Internet, mas o sistema bloqueava sistematicamente e desistiu .Tentei ligar para o número de apoio. Estava sempre interrompido.
A avaliar pelo que se passa no meu prédio, a população portuguesa vai diminuir em relação a 2001. Pelo sim, pelo não, quando os resultados forem divulgados, podem incluir mais uns 20 ou 30 cá do prédio, está bem?

Late night wander (74)

Enquanto tivermos uma opinião pública acomodada na leitura dos comentadores que proliferam nos jornais; vê os debates televisivos como se assistisse a palestras de gurus; se deixa enganar por notícias que são apenas boatos ou apenas dizem parte da verdade e se recusa a reflectir e pensar pela sua própria cabeça, somos um país condenado ao fracasso. Já há demasiada gente a emitir opiniões na nossa comunicação social a troco de um prato de lentilhas e demasiados jornalistas a fazer política. Precisamos de gente que pense, não de mercenários do discurso político.