sexta-feira, 25 de março de 2011

Orelhas de burro


Quando era miúdo, era prática comum os professores primários colocarem orelhas de burro nos alunos cábulas e mal comportados, exibindo-os perante os colegas da forma que a imagem documenta.
Nesse tempo não havia Internet, os meninos brincavam no recreio e liam histórias infantis como “O Príncipe com orelhas de burro”. Agora, em plena era tecnológica e com a proibição de os professores chumbarem os alunos cábulas e mal comportados, ou lhes aplicarem qualquer castigo, seria impensável ver nas salas de aula um espectáculo tão deprimente.
Vem isto a propósito das ocorrências que ontem marcaram o país. Depois de chumbar o PEC IV sem apresentar alternativas, o candidato a primeiro-ministro Pedro Passos Coelho mostrou ao país que não tinha estudado a lição e a primeira medida que anunciou foi o aumento do IVA para 25%. Choveram críticas e puxões de orelhas dos seus correligionários laranjas. Marcelo Rebelo de Sousa deu-lhe outro puxão de orelhas por não ter apresentado alternativas. Disse-lhe que devia ter aprovado o PEC e depois apresentado uma moção de censura.
Coelho refugiou-se em Bruxelas, à procura de conforto no colo da mamã Merkel, mas deve ter ficado surpreendido porque, logo à chegada, ela deu-lhe outro puxão de orelhas e remeteu-o para uma sala onde estavam os seus amigos do Partido Popular Europeu. Sentou-se na sua cadeira e os colegas logo formaram fila para lhe puxar as orelhas , recriminando-o por não ter aprovado o PEC. Terminada a cerimónia, entraram os senhores das agências de rating que também quiseram molhar a sopa, dando-lhe uns calduços e quando se foi despedir de Durão Barroso recebeu três puxões de orelhas e duas palmadas no rabo.
Pedro regressou a Lisboa cabisbaixo. Ninguém lhe tinha posto orelhas de burro, mas com tanto puxão de orelha sentia que as suas tinham crescido desmesuradamente. No avião pediu os jornais, na esperança de receber algum conforto dos jornalistas a quem convidara dias antes para jantar mas, “oh infâmia!”, deparou-se com imensas críticas logo nas primeiras páginas. Ao chegar a Lisboa, uma jovem dirigiu-se-lhe sorridente. Pedro pensou com os seus botões “finalmente, alguém que me vem apoiar" e retribuiu o sorriso.
Puro engano. A jovem que se aproximou dele com um sorriso era a Martinha. Cumprimentou-o e entregou-lhe uma carta. Já no carro Pedro começou a ler. Começava com um provérbio chinês:
"Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida."
Pensou telefonar para Belém a pedir ajuda, mas optou por desabafar no Facebook:
“ Pai,fui eu pedir-te conselhos e foi este belo sarilho que me arranjaste?”
Chegou a casa já a família estava a jantar. A mulher tinha preparado um belo coelho estufado.

Menina de aluguer (rewind)


Aos cinco anos, Laura conheceu pela primeira vez o significado da palavra "desemprego".Com apenas dois, os pais alugavam-na diariamente a uma vizinha que a utilizava como chamariz para pedir esmola junto de pessoas condoídas.
"Beliscava-me para eu chorar e às vezes batia-me até ficar negra, para que as pessoas sentissem pena"- explica sem grande ressentimento.
Um dia, três anos mais tarde, Laura foi devolvida aos seus progenitores por alegadamente estar excessivamente pesada e já não despertar "sentimentos de caridade".
No dia em que deixou de ser "menina de aluguer", Laura foi sovada com chicote pelo pai que a acusava de comer demasiados doces que os clientes de uma pastelaria das Avenidas Novas frequentemente lhe ofereciam.Meses mais tarde, carregando com a culpa de "não servir para nada e ter sido despedida", Laura entrou para uma escola primária na zona do Lumiar.
Desses tempos, recorda uma professora bondosa e de olhar sereno que constantemente a acarinhava e incitava a estudar "para ser uma grande mulher", mas o sentimento de culpa não a largava e Laura, mal terminadas as aulas, ia expiar as suas culpas vendendo "pensos rápidos" aos automobilistas que passavam na zona do Campo Grande.Laura repartia o seu tempo entre as filas de trânsito e a escola. E assim foi crescendo, alheia ao mundo que a rodeava, emoldurado de crianças iguais a ela, brincando com "Barbies", sem direito ao sonho de um dia casar de grinalda e flor de laranjeira com o "Ken" do conto de fadas da sua imaginação.
"Menina de aluguer" nasceu... também assim cresceu!
A Laura que hoje está diante de mim, sentada à mesa de um "bar americano", tem 19 anos e uma filha de apenas dois, para quem reserva os melhores momentos. No ecrã de uma televisão distante, desfilam figuras de telenovela às quais não se pode equiparar, mas que nela despertam as recordações dos tempos em que o pai e um tio a perseguiam à compita, atraídos pelo despertar de um corpo "de cobiça". Por trás de um verde olhar mesclado de tristeza, esconde-se ainda uma esperança no futuro com que sonhou no dia em que, incapaz de suportar as disputas familiares e já apaixonada pelo Marco, a ele se entregou , em troca de promessas de "Liberdade". Foi esse o dia da partida (tinha então apenas16 anos) para um destino incerto que "quis o acaso" a conduziu ao mesmo bar onde hoje, em troca de uma garrafa de espumante, me conta a sua ainda curta vida. Vida povoada de sonhos, onde cabe ainda a força para terminar o 11º ano e arrostar com as dificuldades de uma licenciatura como assistente social "porque não quero mais ver crianças a sofrer como eu sofri".
Dos tempos repartidos entre o Campo Grande e a escola, passou a tempos divididos entre o aconchego a clientes da noite e o prazer de "viajar" na companhia dos livros que a acompanham até ao local de trabalho. "Sabe, a vida da noite não está fácil e muitas vezes, como não há clientes, aproveito o tempo para estudar ou para ler".O patrão, caso raro, também se mostra compreensivo . Perante a força indómita de Laura e a sua "fúria de aprender", quando a noite "está mais fraca" lá a manda para casa, para os braços do seu Marco,onde desfruta de alguns momentos de ternura partilhados com Daniela, a filha de um momento de liberdade.

Caloteiros!

O secretário de estado da Justiça, José Magalhães, disse há dias numa conferência, que na justiça tributária há milhares de processos pendentes e acções por executar, num valor que ultrapassa os sete mil milhões de euros.
A monstruosidade deste número torna-se ainda mais relevante, se constatarmos que a cobrança desses valores seria suficiente para Portugal quase eliminar o défice. Mesmo dando de barato que o Estado não consiga recuperar a totalidade das dívidas que reclama, a diminuição do défice seria significativa, se a justiça tributária funcionasse de forma célere. Ou, dito de outra maneira, se fossemos um povo com consciência cívica e não um bando de caloteiros videirinhos.

Blogs no feminino

Ana ( de Amsterdam)

Helena Ferro de Gouveia

Sofia Loureiro dos Santos

Late night wander (68)

Associar Pedro Passo Coelho a renovação na política portuguesa é esquecer que ele é um profissional da política formado na JSD, que sempre quis viver da política. Não para a política, como demonstram os últimos episódios.