domingo, 20 de março de 2011

Do futebolês ao politiquês ( ou a parábola da Europa)- uma reflexão domingueira


( Aviso: este post não é sobre futebol. É sobre o desprezo a que votamos a vida , ou esquecemos os nossos deveres de cidadãos, como poderão certificar-se se lerem este post até ao fim)
Sábado à tarde em Sevilha. Após lutar bravamente em campo, Abidal recolhe aos balneários do Sanchez Pijuan, com a habitual boa disposição que faz parte do seu ADN. Tomado o duche, regressa a Barcelona com os seus companheiros de equipa. Goza a folga concedida pelo treinador na manhã do dia seguinte. Passa o dia com a família que lhe preenche todos os momentos extra-futebol.
Na manhã de segunda-feira sentiu-se indisposto. Os médicos do Barcelona examinaram-no, foram com ele ao hospital fazer exames complementares. Diagnóstico: tumor no fígado. A operação foi marcada com urgência, porque a vida de Abidal corria sério perigo.
Poderia terminar por aqui, se o objectivo deste post fosse apenas reflectir sobre a vida e a forma como a delapidamos, porque nos julgamos eternos e recusamos admitir que o nosso destino é acabar num caixão, ou num montículo de cinzas ( a escolha é nossa) velados por amigos e inimigos que nos infernizaram a vida, mas nos prestam uma última homenagem prenhe de hipocrisia ou de remorso, para desconto dos seus pecados. Mas quero ir mais longe. Por isso, siga o post
A Espanha emocionou-se e pôs de acordo Real Madrid e Barcelona, separados por questiúnculas futeboleiras. Em Madrid, na última quarta-feira, defrontaram-se Real Madrid e Lyon ( clube onde Abidal jogou antes de se transferir para o Barcelona). Ambos os clubes quiseram homenagear o jogador francês e transmitir-lhe o seu abraço solidário, exibindo mensagens de apoio ao jogador durante o jogo da Liga do Campeões . Para o fazer foram obrigados a pedir autorização à UEFA, entidade que supervisiona o futebol europeu. Implacável, o organismo que atribui prémios de “fair-play” respondeu : Não, porque isso viola as regras!
Belo exemplo de “fair -play” da entidade que gere o futebol europeu. Só há solidariedade quando a UEFA autoriza e quem contrariar as suas decisões é severamente punido.Vai assim esta Europa do futebol chefiada por gente incapaz de discernir entre um gesto de solidariedade e uma arruaça. Mas se fosse apenas o futebol vá que não vá… o problema é que esta Europa construída há mais de meio século pela generosidade de dois homens, é hoje em dia dirigida, politicamente, pela maior tribo de corruptos, incultos, sádicos e incivilizados de que há memória desde Hitler. Foi esta gente, vendida aos interesses económicos, incapaz de um gesto de solidariedade, que assaltou o poder nos países europeus e incutiu nas “gerações à rasca” o conceito “salve-se quem puder”. Foi esta gente que lançou milhões de europeus para o desemprego e para a pobreza e encheu os bolsos da banca e se submeteu aos seus ditames a troco sabe-se lá de quê... Para essa escumalha a palavra solidariedade é impronunciável porque... viola as regras de conduta da miséria a que submeteram milhões de europeus.
À deriva, sem futuro, subjugados aos interesses do capitalismo selvagem que enriquece Merkl e Sarkozy, ou corrompe Berlusconni, os milhões de marginalizados são as vítimas de uma Europa à rasca que tão depressa apoia bandidos e ditadores, como os cumula de honrarias.
Há dias, Miguel Portas proferiu no Parlamento Europeu um discurso azedo e revoltado contra a decisão de aumentar as mordomias dos deputados e restante trupe de eurocratas que se sentam à mesa do orçamento europeu com a atitude farisaica de quem espalha esmolas pelo povo faminto, mas continua a viver no fausto ignominioso da luxúria. Não li na nossa imprensa, nem na imprensa internacional, uma única linha sobre o corajoso discurso de Miguel Portas.
Percebi, porém, que vivo numa Europa que se auto-proclama exemplo para o mundo “civilizado”, mas não passa de uma velha prostituta que se alimenta à custa das concubinas arregimentadas para o seu prostíbulo. Pagando-lhes o salário da subserviência com os impostos do povo, revoltado mas submisso, obnibulado pelo prazer de consumir e confortado com o poder das redes sociais.
Num apartamento de Paris, Marianne Le Pen, herdeira da extrema-direita francesa, sorri baixinho. Sabe que a sua hora está a chegar…

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