sexta-feira, 11 de março de 2011

Martinha na manif da geração à rasca

Pedi a foto emprestada ao Parafusovadio Obrigado!
Olá amigas e amigos do Rochedo.

Muitos de vocês ainda não me conhecem, porque não apareço aqui há quase um ano, por isso apresento-me, sou a Martinha e a razão de cá vir escrever hoje é para vos dizer que vou à manifestação da geração à rasca, porque tive uma conversa com a mamã e decidi que era a melhor maneira de agradecer ao sr. Cavaco Silva o incentivo que me deu ao alertar-me para a necessidade de um "sobressalto cívico".
Na verdade estou sobressaltada há muito tempo, mesmo à rasca, desde que terminei a licenciatura estou farta de enviar currículos para empresas, responder a anúncios e népia. A última vez que fui a uma entrevista perguntaram-me se eu tinha experiência e quando lhes respondi que sim, porque trabalho há anos na nossa loja da Lapa, olharam-me de soslaio, perguntaram-me que é que isso tinha a ver com o lugar pedido pelo anúncio, que era de chefe de recursos humanos, eu respondi que tinha experiência, porque todos os dias tenho de afivelar o sorriso e fingir que não percebo o que os clientes que vão lá dizem de nós. Se eles soubessem como é difícil duas mulheres chinesas com uma modesta loja aqui na Lapa serem respeitadas neste país não faziam a pergunta, mas eles nem imaginam como já foram antipáticos connosco e nos mandaram para a nossa terra, nos acusaram de andar a explorar outros chineses e a enganar os portugueses, fomos acusadas de criminosas e prostitutas, alguns clientes já nos apalparam como se fossemos gado, convidaram-nos a "dar uma voltinha", chorámos muitas lágrimas à noite agarradas uma à outra mas diante dos clientes temos sempre um sorriso, porque o que queremos é que eles voltem cá mais vezes e nestes tempos de crise são cada vez mais os que cá vêm, felizmente, o problema é que muitos vêm mal dispostos e dizem quando é que eu imaginei algum dia entrar numa loja destes gajos, raisparta a crise.
E como aos 28 anos continuo sem emprego, a viver em casa da mamã, a receber mesada e não vejo futuro para mim, outro dia desabafei com a mamã e disse estou mesmo à rasca e a resposta que ela me deu foi desenrasca-te que eu também me desenrasquei quando tinha a tua idade. Respondi que então ia à manifestação, queixar-me da falta de solidariedade intergeracional, ou lá como é que eles dizem e então a mamã rebentou numa choradeira e perguntou-me , julgas que a minha vida foi fácil e não tive de me privar de tudo para que nunca te faltasse nada e te poder dar um curso? Sou eu que te pago as idas às discotecas, o telemóvel, a prestação do carro, que te visto, alimento e agora vens dizer que não sou solidária contigo, porque é que não pegas nos trapinhos e te fazes à vida como eu fiz quando aceitei o convite do Carlos e vim contigo para Portugal, deixei a família para te dar um futuro melhor, és uma ingrata, desaparece e eu então caí em mim e desatei a chorar, a mamã disse deixa lá filha, eu vou contigo à manif porque também estou à rasca.
Quando fechámos a loja fomos ali a um café na Lapa comer um bolo de arroz e estávamos a planear a ida à manif, quanto entrou o sr Abílio, um velhote de quase 60 anos que é funcionário público e se livrou do corte nos salários porque só ganha 500 € e que ao ouvir a nossa conversa disse eu também vou, porque com o aumento do custo de vida e a ter de suportar o marmanjão do meu filho com 37 anos que apesar de ter emprego nunca mais sai de casa e não dá nada do que ganha para ajudar nas despesas da casa estou à rasca e não aguento mais.
Quando saímos encontrámos a D. Adélia, uma senhora a rondar os 50, que foi despedida há três anos da empresa onde trabalhava desde os 25 e nunca mais conseguiu arranjar emprego , a mamã teve pena dela e pediu-lhe para ela fazer a limpeza da loja e lá lhe vai pagando um dinheirinho que sempre é uma ajuda coitada e quando soube que íamos os três à manifestação disse que também ia, porque também está à rasca.
Já à porta de casa encontramos o sr. Filipe, motorista de uns finaços aqui da Lapa a quem o patrão só paga metade do salário há seis meses, porque diz que a vida está cara e não tem dinheiro para mais , o sr Filipe, coitado, diz que sempre é melhor metade do salário do que nenhum e lá vai ficando à espera de encontrar coisa melhor, mas também está à rasca e por isso também vai à manifestação e já íamos a entrar em casa quando o Carlitos apareceu em alvoroço a dizer que ia à manif porque o sr. Cavaco Silva dissera que os jovens se tinham de revoltar. A mamã ainda argumentou mas Carlitos, tu só tens 14 anos o que é que vais lá fazer, ele respondeu que ia assegurar o futuro e ainda por cima gostava muito do Jel e do Falâncio e como eles também iam, tinha a oportunidade de assistir a um concerto à borla,porque tinha feito vinte chamadas para votar neles e tinha esse direito.

Ai a minha vida, que a Lapa vai toda à manif porque a vida não se aguenta, mas agora o meu problema é saber como vou vestida, porque ir a uma manif onde vai tanta gente conhecida com a roupa de todos os dias é uma vergonha, lá vou ter de pedir à mamã dinheiro para uma indumentária nova , espero que ela compreenda, porque nestas coisas ela é muito generosa. Como estou agora muito atarefada a convidar amigos do Facebook a aparecerem na manif, pedi à mamã para telefonar ao Carlos a convidá-lo para ir connosco, porque afinal a manif é a de um país à rasca e não a de uma geração à rasca, e se não é assim devia ser, a mamã ficou muito triste com a resposta do Carlos que disse que compreendia muito bem as razões dos jovens, mas não se solidariza com quem tem o desplante de acusar os mais velhos de falta de solidariedade e aconselhou-a a ler isto que eu por acaso já tinha lido e até lhe dou razão, mas vou mesmo e se tiver tempo ainda vou mandar um mail para o sr. Cavaco a convidá-lo a vir também porque, afinal, foi ele o grande impulsionador desta manif.

Ah, já me esquecia... depois da manif havemos de ir todos para o Bairro Alto, ou para Santos, gozar a Noite da Pinhata até às tantas. Alguns vão beber demasiado, porque se os papás lhes dão dinheiro é para se divertirem e esquecerem que estão mesmo à rasca. Acho que toda a gente compreende...

Vossa,

Martinha

11 de Março de 1975: Lembrar o passado, para prevenir o futuro

Há 36 anos era eu um alferes miliciano a cumprir serviço em Tomar. No dia 11 de Março o general Spínola , apoiado pela extrema-direita, tentou um golpe militar que não resultou, mas seria o começo do fim das ilusões de Abril.
Vale a pena lembrar, por estes dias, que a tentativa de golpe de Spínola e da extrema-direita foi consequência de uma falhada manifestação da “maioria silenciosa” por ele arquitectada, em 28 de Setembro de 1974. Spínola demitiu-se do cargo de Presidente da República e passou a congeminar o golpe. Um boato posto a circular, de que o PCP e o COPCON iriam proceder à liquidação de militares e alguns civis de direita, serviu de pretexto a Spínola para avançar.
No dia 11 de Março de 1975, ao final da manhã, com o apoio dos pára-quedistas de Tancos, ataca com aviões e helicópteros o RAL 1 (em Lisboa), comandado por Dinis de Almeida, que recusa a rendição, afirmando só dever obediência ao PR, ao PM e ao comandante do COPCON, Otelo Saraiva de Carvalho. Quando o confronto parecia iminente e tudo indicava que a unidade ia ser tomada pela força, Dinis Almeida terá conseguido um entendimento e as tropas em confronto abraçam-se, proclamando vivas ao 25 de Abril.
Entretanto, desde o início da tarde, tinham começado a surgir apelos à mobilização popular. Levantaram-se barricadas nas estradas, os bancos encerraram à tarde e havia piquetes nos locais de trabalho. Algumas unidades militares, como o RI 15 onde eu me encontrava, entraram de prevenção. Põe-se mesmo a hipótese de entregar “armas ao povo”. A casa do general Spínola é assaltada em Lisboa, bem como as sedes do CDS e do PDC (Partido da Democracia Cristã, conotado com a extrema-direita).A norte, são as sedes do PCP e do MDP/CDE as atacadas.
Spínola, o mentor do golpe, fugiu para Espanha e pediu apoio a Franco para invadir Portugal.O ditador espanhol pediu o beneplácito dos Estados Unidos que foram reticentes e o alertaram para a possibilidade de um contra ataque soviético e uma desestabilização interna em Espanha. O ditador continuou a fazer diligências junto do governo americano durante meses, mas a Divina Providência encarregou-se de lhe enviar o mensageiro da Morte e Espanha iniciaria o caminho para a democracia. Entretanto, em Portugal...

...segue-se um período intenso de saneamentos e nacionalizações. Banca, seguros, cimentos e todas as grandes indústrias, perante a ameaça de caos lançada por patrões ligados ao Estado Novo, passam para as mãos do Estado. Mais tarde, todos serão generosamente recompensados com elevadas somas pagas pelo contribuinte, recebendo ainda as empresas ( que muitos tinham abandonado) em bom estado de conservação.
Mas até lá ainda haveríamos de assistir ao PREC. Durante o Verão Quente de 1975, Vasco Gonçalves há-de proferir um discurso inflamado e afirmativo:
“Aqui não há meio termo, nem segundas vias nem coisa nenhuma: ou se está com a revolução, ou se está contra a revolução!"
Os portugueses gostam de meias tintas mas, por essa altura, já Otelo começava a ser olhado como contra-revolucionário e até acusado de ser fascista…
Apesar do PREC, o 25 de Novembro começou a preparar-se no dia seguinte ao 11 de Março.
A divisão da esquerda é latente e acentuar-se-á com o decorrer dos anos, abrindo caminho à direita. Cavaco Silva há-de chegar a PM e, posteriormente, a PR. Na cerimónia de investidura do segundo mandato, no dia 9 de Março de 2011, faz um comício populista na AR que me lembra um porta-voz do ódio da direita que o elegeu e lança o anzol aos jovens,manifestando-lhes o seu apoio a uma manif de protesto contra a classe política. Manifestação que – espera-se- não será silenciosa, mas não deixará de beneficiar a direita, ter eco além fronteiras e repercussões no futuro.
A esquerda, adormecida, reage com excessiva prudência ao discurso de Cavaco e dá o seu apoio oportunístico à geração à rasca. Esperemos o desenrolar dos acontecimentos, mas talvez daqui a 36 anos alguém esteja a escrever que foi nesse dia que a direita, apoiada pelo PR Cavaco Silva e com a conivência de alguma esquerda, ganhou fôlego para regressar ao poder e liquidar ´os últimos resquícios das conquistas de Abril. Ironias do destino...
*Trinta anos depois, em 11 de Março de 2005, as consequências de um ataque terrorista em Madrid determinam o fim do governo de Aznar . O PSOE regressa ao poder .

Blogs no feminino

Ana Lima
Dulce
Grande Joia

Late night wander (56)

Há uma coisa que não percebo... Em Portugal, o desemprego entre os jovens ronda os 22 por cento. Em Espanha, essa percentagem é de 43,1%. Porque será que os jovens espanhóis não são uma geração à rasca?